Quem foi que disse que para ter desenvolvimento temos que estar sempre amarrados a conceitos que do ponto de vista ético nos impedem de comemorarmos em plenitude seus avanços? Quem foi que disse que a velha frase do "rouba, mas faz" tem que ser tolerada, se ela por si só é um paradoxo do absurdo? Roubar não qualifica, não constrói, só frustra a verdade, distorce a transparência e golpeia de morte a esperança, energia motora da humanidade.
Acreditamos em um passado recente que uma hipotética esperança tinha vencido o medo. Ledo engano! Pois se tivesse, já teríamos encontrado um caminho ou pelo menos um atalho consensual que nos desviaria daqueles que não se importam com os meios e as formas para promover um "tal" progresso, eufemismo de aceitação do vale tudo em momentos de crescimento. Estamos novamente no colo dos que há 500 anos praticam a exacerbação do poder pelo poder, cujo único objetivo e retirar o que possa servir como riqueza e oferecer em troca os velhos e eternos espelhos, refletidos na vergonha daqueles que aceitam a ordem estabelecida.
Neste contexto, quero ser um eterno visionário que ainda insiste em estender suas bandeiras às margens deste campo de batalha da gananciosa miséria humana, que de tão prepotente escurece nosso futuro e nos condena sem contraditório, a contagem regressiva do velho tempo. Quixotescos podem ser meus sonhos, mas sei por quem eu luto e porque o faço sem pestanejar. Entendo minha participação na vida, minhas limitações, e mesmo assim ainda insisto que o mundo, pode e deve ser o reflexo de nossas ações e movimentos. Nossas sim! Porque o mundo não se limita a constelações de poder, por mais que pesem as forças da guilhotina e do dinheiro, é o pensamento coletivo e às vezes unificado que move os fundamentos do mundo, seja na Praça Tahrir do Egito contemporâneo, na ocupação de Wall Street, nas manifestações da Avenida Paulista ou aqui no acampamento tupiniquim do Parque Vitória Régia, o conceito de que a linha do horizonte é limitada pela visão dos olhos, se mostrou apenas uma questão de percepção, uma vez que ela está aqui, bem à nossa frente, e agora é uma questão de tempo ou de estação!
Preciso ficar indignado, meus ouvidos não agüentam mais a inércia das palavras daqueles que se contentam em caminhar de cabeça baixa, olhando a paisagem como se fosse a única, seguindo conceitos preestabelecidos e felizes, pois a cada nascer do dia, tudo continua do mesmo jeito e no mesmo lugar. A relatividade do tempo e do espaço parece contaminar os sonhos, quando deveria na verdade estimular os princípios, e renovar as formas de enxergar o mundo e suas situações. Assim, como dizem os anciões de que à hora da morte esta marcada, a da vida deve estar agendada a cada segundo com os questionamentos, descobrimentos, manifestações, sensibilidades e movimentos.
Ao avizinhar se 2012, entregamos para a história o passado de nossos fatos e reprogramamos nossa mente para um novo ciclo, que pode ser resplandecente como um renascimento ou mórbido como a repetição de nossos atos. Eu ainda acredito no mundo e nas pessoas! E que venham mais e novas primaveras!!!
O autor, Clodoaldo Gazzetta, é biólogo e ambientalista