Da infância nas então tranquilas ruas do Higienópolis para a posição de destaque na medicina internacional. Esse é o curto resumo da trajetória da médica "bauruense" Didia Bismara Cury.
Nascida em Botucatu, mas bauruense praticamente "da gema", cresceu na cidade de onde saiu apenas adulta, para estudar medicina em São Paulo, ela desponta nos estudos sobre as Doenças Inflamatórias Intestinais (DIIS), entre elas o raro e crônico mal ou doença de crohn, que danifica o tecido do tubo digestivo.
Antes de sair da cidade, ainda em 1989, a médica havia sido premiada pela pesquisa "Bauru na Luta contra o Aedes Aegypti", quando faturou o "Jovem Cientista" daquele ano. Formada e com doutorado em gastroenterologia na USP, embarcou para um estágio em Harward, nos Estados Unidos, onde teve a iniciativa de escrever o livro "Doenças Inflamatórias Intestinais ? Retocolite Ulcerativa e Doença de Crohn" (Editora Rubio /464 páginas) em parceria com o também médico Alan Colm Moss, professor na famosa universidade norte-americana e uma das mais importantes do mundo, além de chefiar o Centro Transnacional da Medicina em Doenças Inflamatórias, na mesma instituição.
Didia clinica atualmente em Campo Grande. Na capital sul-matogrossense ele atende a mais de quinhentos pacientes acometidos pelas DIIS, que, observa a pesquisadora, não se manifestam somente nos sistemas gástricos ou intestinais. "A doença inflamatória não atinge somente o intestino. Há vários trabalhos que mostram que, dez anos antes de ter a doença intestinal, muitos pacientes a desenvolvem fora dele", descreve a especialista. "A doença pode começar com uma dor articular que vai e vem. O indivíduo procura o reumatologista, ou então o oftalmo o outro especialista, já que sintomas podem ser observados na região ocular e até renal", detalha.
Especificamente sobre a doença de crohn, que, conforme o passar dos anos, ganha tratamentos menos agressivos do que a cirurgia em qualquer caso, como era observado até a década passada, a pesquisadora esclarece que o mal é de origem genética.
Contudo, a suscetibilidade é maior em pessoas com dietas ricas em gordura. Ironia do destino, o uso prolongado de medicações anti-inflamatórias podem acelerar o processo, justamente, de inflamação em quem tem pré-disposição à doença. "O uso (do medicamento) quebra a chamada barreira epitelial intestinal. É ela que controla a entrada de antígenos para dentro do intestino. Assim sendo, ocorre muito mais estímulo e a doença é desencadeada", explica.
Desmistificação
Um fator de grande confusão com relação ao problema, desmitifica a especialista, é com relação ao estresse. Segundo Didia, ele não é preponderante ao surgimento da doença, embora possa acelerar o desenvolvimento da mesma, observa ela: "o estresse piora a doença, mas não é a causa", define.
A manifestação da doença, conceitua, é extremamente variada. "As vezes a pessoa pode ter crohn mas não tem diarreia. Depende da localização da doença. Se é situada no intestino bem baixo, talvez não tenha diarreia", especifica. "Mas, se for no intestino alto, onde há absorção, provavelmente há diarreia, perda de peso", compara.
Outro fator lembrado pela médica é a idade. Segundo a pesquisadora, quanto mais jovem o paciente, mais agressiva a doença, extremamente complexa, como classifica a própria gastroenterologista, que defende a busca pela qualidade de vida do paciente, sem, necessariamente, acionar o bisturi a todo custo.
Anos atrás, compara, na falta de alternativas, a primeira alternativa era a mesa de cirurgia. Esse procedimento padrão de então, lembra a especialista, resultava em sequelas que poderiam ser evitadas para muitos dos que foram submetidos à alternativa, entre elas o chamado "intestino curto", já que, nas operações, é retirada parte do tecido afetado pelo crohn.
"O que mudou muito o tratamento da doença inflamatória foi a chamada terapêutica biológica. Antes se achava que o crohn, após operar, era resolvido. Mas como resolver um problema genético?", questiona. "Então se causava outro problema no paciente, a chamada ?síndrome do intestino curto. Hoje não se opera mais doença inflamatória, a não ser que haja situação de perfuração, emergência", diferencia.
Os tratamentos, atualmente, observa Dídia, visam que o paciente não tenha o quadro evoluído por complicações. "Uma das mais temíveis é o câncer de intestino", cita. "Hoje não tratamos o paciente apenas para ele não ter diarreia. Hoje os medicamentos modernos tiram rapidamente o paciente da crise, devolvendo a qualidade de vida. Conduzem a cicatrização da mucosa colônica", descreve. "A doença inflamatória não é assustadora. Na verdade, só merece cuidados e tratamento contínuo", tranquiliza. "No entanto, pode se tornar uma doença importante pelas complicações", adverte.