Um vencedor na maratona da vida
Ana Paula Pessoto
Uma sala cheia de medalhas e troféus. Centenas deles decorando a estante e a mesinha de centro. Mas o que realmente preencheu o cenário desta entrevista foi o entusiamo e a alegria do entrevistado, "seo" Manoel Antônio Blanco, um senhor de 79 anos de idade, com a vitalidade e a vontade de viver de um menino.
Nascido no Mato Grosso do Sul em plena Revolução de 1932, ele garante ter tantas histórias quanto alguém pode ouvir. "Meu avô foi alvejado a tiros de fuzil quando eu estava no ventre de minha mãe. Ele deu seis tiros, mas levou mais de duzentos. Depois, em busca de terras férteis, meus pais se mudaram para uma fazenda às margens do Rio Aquidauana, no Pantanal. A malária era terrível, quase todo mundo ficava doente várias vezes ao ano".
Mas os mosquitos não eram os únicos temidos. No Pantanal, o menino Manoel viveu intensas e inesquecíveis histórias onde onças que devoravam homens e cobras de até 15 metros eram protagonistas. "Amigos foram devorados por onças na Noroeste, muitos eram manobristas da estação. A pessoa sumia e depois encontravam apenas os ossos. Isso sem contar as sucuris de cerca de 15 metros, muito comuns por lá", lembra.
Em busca de um destino melhor, aos 16 anos de idade, "seo" Manoel fugiu de casa, onde trabalhava com o pai em uma fazenda à beira de rio, e foi viver em Sidrolândia, perto da estrada de ferro Noroeste do Brasil, onde trabalhou por cerca de 7 anos até vir para Bauru. "Fiz amigos na chefia da Noroeste e vir para Bauru foi a melhor mudança da minha vida".
Quase um analfabeto, em Bauru ele estudou e concluiu duas faculdades. Além da Noroeste, ele foi professor e trabalhou no Departamento da Polícia Federal. "Estudar é rotina para mim. Ajuda meu corpo e minha mente".
O esporte é um capítulo à parte na vida de Manoel Antônio Blanco. São mais de 400 medalhas e troféus entre ciclismo, judô e corrida. "Para o esporte eu sempre consegui tempo". Além de participações em maratonas internacionais, como Nova Iorque e Paris, ele fez história nos jogos Olímpicos de Integração do Departamento de Polícia Federal.
Com a energia de fazer inveja aos mais novos, ele lutou e venceu um câncer de próstata. Com lágrimas nos olhos, "seo" Manoel também fala, na entrevista a seguir, sobre sua paixão pela vida.
Jornal da Cidade ? O senhor cresceu em terras pantaneiras e nasceu em plena Revolução de 1932. Imagino serem histórias marcantes para sua família?
Manoel Antônio Blanco ? Olha, minha vida dá uns dois livros (risos). Só não nasci antes da hora porque minha mãe sempre foi uma mulher muito forte. Ela estava grávida de mim, com uns oito meses de gravidez, quando ouviu um longo e tenebroso barulho de tiros na fazenda onde minha família morava. Meu avô foi prisioneiro, teve de entrar na linha de frente contra Getúlio, e ele era getulista...Uma noite ele escapou, pouco antes da revolução acabar, e foi para casa. Mas eles determinaram, mesmo com o fim da guerra, que uma escolta de mais cem homens percorressem a região em nome da "justiça". A casa de um vizinho do meu avô pegou fogo e os filhos deles, que eram do exército, disseram que meus tios eram os culpados pelo incêndio. Os homens, mais de cem a cavalo e armados com fuzil, foram em seguida na casa de meu avô, onde ele estava com minha avó. Ele deu seis tiros, mas levou mais duzentos. Minha mãe acordou com o barulho em uma outra casa a um quilômetro de distância.
JC ? Depois disso, sua família saiu da fazenda?
Manoel ? Depois dessa injustiça toda, meus pais ainda ficaram por lá durante três anos e se mudaram para Maracaju. Viajamos de carreto, levando tudo o que tínhamos, inclusive animais. Por lá eu trabalhei muito. Em busca de terras férteis, meus pais, agricultores, mudaram para uma fazenda situada às margens do Rio Aquidauana, no Pantanal. A malária era terrível, quase todo mundo ficava doente várias vezes ao ano. Aos 16 anos, cansado de apanhar do meu pai, fraco por causa da malária e em busca de uma região menos inóspita, fugi de casa.
JC ? Viver ao lado da vida selvagem não deve ter sido nada fácil!
Manoel ? Além de viver doente, vivia fugindo de onça. Menina, uma vez eu precisei dormir em cima de uma árvore por causa de bichos. Mas isso era constante. Tive muitos amigos que foram devorados por onças na Noroeste, muitos eram manobristas da estação. A pessoa sumia e depois encontravam apenas os ossos. Isso sem contar as sucuris de cerca de 15 metros, muito comuns por lá. Era moleque quando uma de 13 metros pegou um cachorro meu e eu e meu tio a matamos. Enfim, saí da casa de meu pai e fui para Sidrolândia, perto da estrada de ferro, onde minha mãe estava criando meus irmãos menores. Eu havia ficado com meu pai por causa do trabalho. Acabei ficando com ela e trabalhei na serviço público federal como estatutário, na estrada de ferro Noroeste do Brasil. Trabalhei durante uns sete anos, até vir trabalhar no Departamento do Patrimônio de Bauru, em 1959. Mas antes disso, trabalhei na lavoura, construção, vendi frutas, fui engraxate...Também trabalhei no comércio de Campo Grande, em bares e restaurantes.
JC ? E o que o trouxe a Bauru?
Manoel ? Fiz amizade com a chefia da noroeste, como o doutor Cid Braga e outros profissionais e empresários de nome da cidade. Nunca busquei coisa errada e isso me proporcionou belas amizades que mantenho até hoje. Então, eles me trouxeram para cá. Fiquei sentido em deixar minha terra, mas vir para Bauru foi a melhor mudança em minha vida. Quando cheguei aqui, logo me matriculei na escola. Lá, eu era praticamente um analfabeto, aqui, estudei quase 20 anos, fiz duas faculdades, uma de educação artística e outra de artes industriais. Comecei engenharia, mas precisei fechar a matrícula. Trabalhei na Noroeste até 1975. Quando acabou meu cargo público, comecei a viajar e a participar de competições esportivas. Fiz concurso para trabalhar como técnico administrativo no Departamento da Polícia Federal em Bauru, cargo que exerci até me aposentar, há 24 anos.
JC ? Então o senhor também foi professor?
Manoel ? Sim. Dei aulas de educação artísticas e artes industriais, na Prefeitura Municipal e no Estado. Lecionar e passar conhecimento é outra grande paixão.
JC ? Como sobrou tempo para os esportes com tantas atividades profissionais?
Manoel ? O esporte sempre fez parte da minha vida. Mesmo no Mato Grosso do Sul, eu já treinava e participava de competições de ciclismo. Lembro-me da primeira medalha conquistada em uma competição em Sidrolândia. Sempre arranjei tempo para o esporte, desde os 18 anos. Comecei com o ciclismo. Das competições, posso destacar que fui campeão de Jogos Noroestinos, corri uns quatro anos seguidos pela Caloi de São Paulo, corri três vezes a prova de ciclismo 9 de Julho de São Paulo, pratiquei judô por 13 anos... Pratico atletismo há 30 anos, já corri em quase todo o Brasil, inclusive na corrida de São Silvestre...A última medalha conquistada foi com a 18ª Corrida da Fogueira, em sua última edição, uma prova que ajudei a idealizar e a organizar.
JC ? Estou vendo medalhas estrangeiras?
Manoel ? (Risos) Participei de alguns campeonatos no exterior, também, como em Buenos Aires, Montevidéu, Canadá, Estados Unidos, sendo duas maratonas de Nova Iorque, além de duas maratonas de Paris. Em Nova Iorque, fiquei com a 4ª colocação e meu nome foi divulgado no jornal New York Times. Ao todo, são mais de 400 medalhas e troféus.
JC ? Sei que também representou a Polícia Federal!
Manoel ? Quando trabalhei no Departamento da Polícia Federal em Bauru, pude participar de oito edições do JOID, ou seja, Jogos Olímpicos de Integração do Departamento de Polícia Federal. Competi em Porto Alegre, Belo Horizonte, Brasília, Maceió, Recife, Natal e Fortaleza. Tal integração dos agentes atletas é feita em todos os Estados por uma seletiva prévia que reúne, em média, cerca de dois mil agentes na capital do estado sede das olimpíadas.
JC ? Como foi lutar contra um câncer?
Manoel - Essa doença da próstata precisa de muita atenção e cuidados, principalmente da parte dos que têm histórico familiar da doença, como eu. Luto há dois anos contra esse câncer. Estudei muito sobre o assunto e procurei o melhor tratamento que encontrei. Disseram que eu precisaria me submeter a uma prostatectomia total, mas não foi o que aconteceu. Fiz o tratamento em São Paulo e a recuperação foi boa. A vida inteira cuidei da minha saúde, praticando esportes, sendo amável com as pessoas e me alimentando da melhor maneira possível. E é assim que quero matar o câncer. Ah, agora estou montando uma academia em casa. Todos os dias eu pedalo ou corro. Precisei ficar afastado de competições por dois anos por causa dos efeitos do tratamento, mas graças a Deus essa fase terminou. Quero voltar às competições.
JC ? O que a palavra superação significa para o senhor?
Manoel ? É preciso estar preparado para superar todas os obstáculos, você nunca sabe o que vem pela frente. Sou mais que um apaixonado pela vida. Faço de tudo para lutar pela minha vida e pela vida de todos.
JC ? É engajado?
Manoel ? Gosto de lutar para melhorar a comunidade em que vivo. Quando trabalhava na ferrovia, fui eleito para a gestão de um conselho fiscal da cooperativa de consumo dos ferroviários. Também participei de um conselho fiscal da associação da classe. Quando nos mudamos para a antiga Nova Esperança, ajudei na construção de um centro social e, ao saber da construção do Nova Esperança II, propus a coleta de assinaturas para um abaixo assinado pedindo a construção de uma nova escola. O pedido da comunidade foi atendido e a escola é a EEPSG Irmã Arminda, onde meus filhos concluíram o ensino fundamental e médio.
JC ? Em meio a tantas medalhas e troféus, qual é a sua maior conquista?
Manoel ? Ser o que sou hoje. Sempre pedi isso a Deus. Consegui estudar, trabalhar muito, praticar esportes, ter uma família abençoada e uma aposentadoria tranquila. Nunca quis ser rico, mas sim ter uma vida digna na velhice. Graças a Deus consegui tudo isso.