Quem nunca se pegou olhando para o céu durante uma noite estrelada? Perguntas do tipo "qual a forma da Terra?"; "por que as estrelas não caem?"; "onde fica o Sol?"; "do que são formados os anéis de Saturno?" e "como deve ser a Lua?" despertaram e continuam a despertar a curiosidade de todos.
Por meio dos questionamentos, estudiosos obtiveram algumas das respostas que explicam (ou tentam explicar) parte do que hoje se conhece sobre o céu, as estrelas, o sistema solar e a Via Láctea.
Foram as inquietações e dúvidas que levaram homens como Leonardo da Vinci e Nicolau Copérnico a desenvolver teorias sobre o sistema solar. Porque, afinal de contas, são as boas perguntas que levam a boas respostas e a novas perguntas.
Foi utilizando os mistérios do universo e a curiosidade natural das crianças que a FourC, Escola Bilíngue de Educação Infantil e Fundamental lançou o desafio a seus alunos: quais os principais questionamentos sobre o sistema solar?
A pergunta estava relacionada a um tema estudado neste último trimestre: as mudanças. E como tudo muda o tempo todo, quais as mudanças e os efeitos do Sol e da Lua em relação a Terra?
O que eu sei e o que quero saber
Para tentar desvendar alguns destes mistérios, os professores utilizaram a "Rotina do Pensamento". Primeiro, estimularam as crianças sobre suas principais perguntas sobre o tema. Depois, as próprias crianças colaboraram com os seus conhecimentos sobre o assunto. Em seguida o que elas queriam saber, para só então partirem para a pesquisa que levou às respostas de seus questionamentos.
Para isso, os alunos tiveram orientações em sala de aula, utilizaram os livros da biblioteca, investigaram o assunto na Internet, folhearam revistas, conversaram com os pais, participaram de uma palestra sobre física, observaram o céu durante o dia e a noite, viram as crateras da Lua bem de pertinho com um telescópio e visitaram o Centro de Estudo do Universo (CEU), em Brotas. Enfim, usaram as mesmas técnicas que os astrônomos do passado: a pesquisa e a investigação.
Muitas perguntas
Os questionamentos eram os mais diversos. A pequena Sofia, de 7 anos, queria saber qual o maior e o menor planeta do sistema solar. Luiza, de 8 anos, estava curiosa para descobrir quantos anéis tinha Saturno. Já Roberto, também de 7 anos, estava pensativo sobre o que acontecia quando os meteoros caíam na Terra. Laura, de 9 anos, estava interessada na ordem dos planetas.
Perguntas simples como essas permitiram o processo de conhecimento. "Quando o aluno faz perguntas isto não quer dizer que ele sabe menos. Isso revela que começou a pensar em detalhes e fatos que antes ele não conhecia, o que muda a forma de pensar sobre o assunto", explica a coordenadora do Ensino Fundamental, Zilma Faustini.
O envolvimento das crianças, e também dos pais, foi observado pela professora Mirella Santos. "Este foi um assunto que despertou muita curiosidade e houve um envolvimento muito grande por parte de todos. Pais ajudaram os filhos nas atividades, compraram livros e os alunos traziam todo tipo de informação que viam, ouviam e liam nos noticiários", comentou a professora.
Resultados
Os trabalhos produzidos pelos alunos se transformaram em experiências que ajudam a explicar e a entender o que acontece no espaço. No Halloween os alunos montaram planetário em uma das salas da escola e explicavam para os visitantes tudo sobre os planetas do sistema solar.
Em duplas, os alunos estão elaborando um projeto criativo onde vão montar um mosaico. Além dessa atividade, eles também irão escrever sobre as semelhanças e diferenças sobre dois planetas e das fases da lua, usando um texto comparativo. E como criança é criativa por natureza, foram convidadas a participar de uma atividade, em duplas, onde tinham que inventar um planeta.
Os jovens Fumio e João Rafael, de 9 anos, viajaram para o infinito e além, lema do personagem Buzz Lightyear, dos filmes Toy Story. O planeta Raio Louco, criado por eles, era povoado por quatro tipos de habitantes. "Eles eram muito diferentes e o planeta brilhava muito. Quem olhasse para o planeta poderia ficar cego, mas os habitantes usavam um radar e não sofriam nenhum efeito da luminosidade", resumiu Fumio.
Impossível? Com a vastidão do universo, quem pode garantir que não exista Raio Louco entre as infinitas galáxias? Coisas que só o universo e a curiosidade humana ainda podem revelar.
Várias disciplinas, um só tema
O tema era "mudança", o estudo abordava os mistérios do Céu e o objetivo foi mostrar para os alunos que as diferentes ciências auxiliam na busca das respostas. Desta forma, para saber mais sobre o sistema solar, os estudantes perguntaram, pesquisaram e construíram o embasamento teórico.
Nas aulas de ciências, estudaram as peculiaridades dos planetas. Nas aulas de tecnologia, prepararam um vídeo sobre o movimento de translação e rotação da Terra. Nas aulas de educação física, viram os efeitos do sol e das sombras em uma atividade que simulava um relógio de sol e fizeram uma simulação das distâncias dos planetas por uma escala representativa, onde cada aluno representava um planeta. Em matemática, calcularam a distância real dos planetas. As diferentes disciplinas se uniam agora para a busca pelas respostas.
De acordo com Ivani Fazenda, doutora em antropologia cultural e mestre em filosofia da educação, o ensino interdisciplinar precisa ser global, para formar um ser humano globalizado. "O ensino interdisciplinar tenta formar alguém a partir de tudo que você já estudou em sua vida", define. Para ela, a atitude interdisciplinar é a ousadia da busca e da pesquisa. "É a transformação da insegurança num exercício do pensar, num construir".