Ciências

A farinha que Deus usou!

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 5 min

Na minha lembrança, vejo o bolo em forma redonda sendo retirado do forno e vertida sobre a mesa deixando aquela massa roliça com sua superfície fumegante e exalando um cheiro de baunilha, fubá ou laranja insuportavelmente atraente.

O universo tal qual um bolo tem muitos componentes, mas o básico é a farinha. Como um pó ela tem muitas partículas e nem todas são iguais, embora no conjunto pareçam que sejam. O homem cientista fica analisando partícula por partícula desta farinha e descobriu que existem 12 tipos diferentes quanto a forma, tamanho, massa e energia. Em outras palavras, qualquer matéria no universo é composta por partículas desta farinha.

As 12 partículas da farinha do universo tem massa e compõem dois grupos diferentes. No primeiro grupo são mais pesadas e conhecidas como quarks e recebem individualmente nomes diferentes como bottom, charm, down, strange, top e up. O segundo grupo também tem seis partículas mais leves conhecidas como léptons e receberam individualmente os nomes de elétron, múon, tau, neutrino do elétron, neutrino do múon e neutrino do tau.

Houve uma época que as ferramentas funcionavam com movimentos primários de alavancas e apoios como ainda vivem os Amishs, um grupo religioso radical estadunidense que rejeita o uso da eletricidade ou eletrônica; vivem como séculos atrás. A eletricidade e eletrônica revolucionaram o mundo pois como energia acionam alavancas, rodam motores, turbinas e movimentam carros e aviões. Nem nos espantamos mais, estão em nossa rotina. Dominar o conhecimento dos quarks e léptons pode ser muito mais que eletricidade e eletrônica, muito mais que celulares e computadores, pode ser um salto com mudanças radicais na forma de viver.

Para uma farinha compor o bolo precisa-se agitar e ou aquecer a massa para que as partículas se unam o que representa uma forma de energia. No mundo das partículas da matéria que compõe o mundo, a energia necessária adviria de um terceiro tipo de partícula que ainda não conseguiram isolar como foi feito com os 12 outros tipos já nominados. Que a energia existe, existe, mas quem gera ou transmite esta energia não se comprovou ainda. Este ambiente energético entre as partículas foi batizado como campo de Higgs em homenagem ao britânico Peter Higgs que enquanto caminhava pelas Montanhas Cairngorm na Escócia em 1964 teve a ideia e depois a publicou na revista Physical Review Letters.

O grupo das partículas fornecedoras de energia e indutoras de massa ainda não isoladas foi denominado de bósons e as quatro individualmente são conhecidas como fóton, glúon, bóson Z e bóson W. Isolar e manipular bósons implica em aprender a fazer bolos do tipo universo. A farinha com a qual se construiu e se constrói o mundo já foi isolada, mas as partículas de energia não!

Quando, neste mês natalino, os cientistas do Centro Europeu de Pesquisa Nuclear procuraram demonstrar que conseguiram isolar o bóson de Higgs estavam tentando dizer: descobrimos como as 12 partículas da farinha que fez o universo foi agitada, aquecida ou energizada para formar a matéria. Ou mais ousadamente ainda nas entrelinhas: começamos a aprender como se fez e se faz um universo! Os resultados sobre a existência dos bósons não foram confirmados definitivamente. Ainda é uma teoria!

Esta teoria desenvolvida em 1970 para explicar como o universo foi formado é conhecida como Modelo Padrão. Os bósons de Higgs passaram a ser chamados de partículas de Deus por uma mera questão editorial. A versão poética que tentam maquiar seria que esta partícula por estar em toda matéria e lugar seria onipresente como Deus, mas esta história não é real. No título original do livro do físico nobelista Leon Lederman, ele a chamou de "A Partícula Maldita" em alusão às frustrações no tentar encontrá-la. Mas o editor não gostou e achou que a palavra maldita poderia ser ofensiva e mudou para "A Partícula de Deus" e assim ficou conhecida.

Depois de isolar "a partícula de Deus", o homem vai procurar o pacote da farinha para saber onde foi fabricada, qual empresa responsável e a patente utilizada. Em meus sonhos e devaneios lembro vagamente que no pacote não estava escrito "made in China", mas abaixo do código de barra lia-se em esperanto com letras miúdas: fabricada nos moinhos do céu, químico responsável: JC.

Aos queridos leitores encomendei um bolo virtual confeccionado com esta farinha divina para que no ano todo tenham saúde e muita alegria. Feliz Natal!


Observatório

Os nomes - As partículas representam partes muito pequenas de um todo. As partículas com massa em uma matéria são os quarks e os léptons.  O termo léptons vem do grego e significa leve. O nome quarks para as partículas pesadas foi copiado do modelo das oito dobras do Budismo ou Nobre Caminho Óctuplo. A classificação de partículas se fazia a partir um octeto de preceitos e foi Murray Gell-Mann, físico nobelista estadunidense, o responsável por esta transposição de nomenclatura. Já as partículas sem massa, teoricamente, apenas com energia são os bósons, no português brasileiro, ou bosão, no português europeu. Este nome foi atribuído em homenagem ao físico indiano Satyendra Nath Bose.

Acreditar ou não? ? As descobertas científicas fogem das mãos das revistas científicas. Até pouco tempo as novidades científicas eram expostas e inéditas nas revistas, mas nos últimos anos as grandes instituições de pesquisa e universidades anunciam seus avanços via imprensa leiga e internet. A Nasa, o Caltech e o Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern), novamente, expuseram resultados científicos pela internet via coordenadores dos grupos científicos Atlas e CMS, responsáveis pela "provável" descoberta dos bósons de Higgs. O bóson pode ser a primeira partícula a existir após o Big Bang, o nome da grande explosão que deu origem ao universo. Ainda é cedo para conclusões, precisa-se de mais dados!


Alberto Consolaro éâ??professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. Email: consolaro@uol.com.br

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