Articulistas

Natal, bioética social e eubiosia

Luiz Antonio Lopes Ricci
| Tempo de leitura: 4 min

Aproxima-se o Natal, encontro do divino com o humano. O conceito dignidade humana, na ótica da fé cristã, encontra seu fundamento na Encarnação (Natal). "Em Cristo a natureza humana foi assumida e elevada a sublime dignidade. Porque, pela sua Encarnação, Ele, o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada homem" (GS,22). Acolher Jesus que vem implica conservar e promover a vida para que seja verdadeiramente digna de homem. Nesse ponto a tarefa dos cristãos e da bioética social se tocam.

O adjetivo social objetiva propor novos temas à agenda da bioética contemporânea. Trata-se de sugerir o deslocamento de acento para se evitar o distanciamento da base e não perder de vista a realidade concreta dos empobrecidos e vulneráveis. Fala-se muito pouco da pobreza e injustiça social no discurso bioético atual. Comumente a bioética aborda questões de fronteira (biotecnologias e implicações éticas) com pouca atenção àquelas cotidianas. Trata-se de ampliar o foco para as questões e situações produtoras de mortes mistanásicas (precoces e evitáveis), mesmo considerando que estas pertencem ao campo de interesse da ética social. A morte está ligada ao decurso natural da vida. Entretanto, em lugares de vulnerabilidade, está relacionada a comportamentos pessoais ou omissões sociais.

Quando bioética e ética social se encontram nasce a bioética social. G. Russo recorda que desde o início a bioética foi concebida numa perspectiva mais ampla. Por isso insiste na promoção da vida como tarefa fundamental e primária da bioética, por meio do método dialógico-interdisciplinar. A bioética social assume as preocupações da bioética cotidiana, contribuindo para que as grandes causas, sobretudo a vida dos pobres, estejam verdadeiramente na agenda da bioética, no centro dos debates, da organização social e das políticas públicas. Importante observar que a bioética social considera a vida humana imbricada no contexto social e vital. Por isso ela acentua a reflexão referente à vida de qualidade. Prefere-se o conceito de vida de qualidade a qualidade de vida para se evitar que o mesmo seja interpretado na ótica do utilitarismo ou em noção seletiva ("nem toda vida merece ser vivida").

A morte mistanásica (do pobre e abandonado) está diretamente relacionada ao "como se vive", sem determinismo. A vida injusta pode levar à morte injusta e precoce. Por isso, para se garantir a ortotanásia (morte correta e na "hora" certa) urge afirmar a vida com qualidade ou "eubiosia", isto é, bioética da "boa vida" sugerida por F. Bellino. Para ele, "eubiosia é a proposta que nós indicamos para afirmar todas aquelas qualidades que consentem à vida humana de ser vivida com dignidade em todas as suas fases". A eubiosia é um direito fundamental de todo ser humano e não se identifica com nenhuma forma de hedonismo ou egoísmo.

Criar as condições para que todos os homens vivam dignamente é um imperativo que se funda na responsabilidade ética e social. "A vida é o primeiro dos bens recebidos de Deus e o fundamento de todos os outros; garantir o direito à vida a todos e de modo igual para todos é dever, cuja realização depende o futuro da humanidade" (Bento XVI). Tutelar a vida implica promovê-la por meio de um serviço generoso, atento e criativo. Os cristãos e a ética cristã geralmente se recusam a seguir caminhos solitários na defesa e promoção da vida e da justiça social, visto que "os homens se conscientizam e se libertam em comunhão" (Paulo Freire). No respeito, fidelidade e reciprocidade das consciências buscam-se respostas e saídas compartilhadas (cf. GS,16) para as questões que ameaçam a vida e vitimam os pobres. Trata-se de aplicar os mesmos valores éticos e cristãos às novas e complexas situações que exigem mudanças pessoais e sociais. Nesse sentido, o advento da bioética é ocasião para a ética cristã oferecer a sua contribuição com atitude dialógica e respeitosa, consciente que "diante das situações tão diversas, é difícil pronunciar uma palavra única e propor uma solução de valor universal. Não é esta a nossa ambição e nem mesmo a nossa missão" (Paulo VI).

Concluindo, o advento da bioética aumentou a demanda por ética e, consequentemente, tornou-se ocasião para incentivar a pesquisa, inserindo o eticista e bioeticista nesses novos territórios, ricos de técnicas e tantas vezes carentes de referências éticas e humanistas. A porta está aberta! Acolher Jesus que vem e abrir as portas para Ele implica adentrar e ocupar espaços que contribuam para salvaguardar e promover a vida humana. Advento e êxodo se tocam. Jesus vem (advento) e nós, comprometidos com a vida e por amor a Ele, saímos de nós (êxodo) em direção ao semelhante.


Luiz Antonio Lopes Ricci, é sacerdote e colaborador de Opinião.

Comentários

Comentários