O risco de ter os equipamentos apreendidos não atemoriza quem explora o jogo de azar com videobingos em Bauru. Uma residência vizinha ao 3º Distrito Policial (DP) foi fechada na madrugada de ontem por uma equipe da Polícia Civil. Nos últimos sete dias, este foi o quarto lugar flagrado com máquinas de videobingo durante investigações visando esse tipo de contravenção penal. Ao todo, 36 máquinas e dois servidores foram apreendidos em quatro investidas.
O delegado titular do 3º DP, Milton Bassoto Júnior, adianta que, nos próximos dias, outros locais de exploração do jogo de azar também serão fechados somente na região do distrito localizado na zona sul. Ele acrescenta que a Delegacia Seccional de Bauru já foi informada sobre outros pontos de funcionamento identificados pela investigação, mas que estão fora da área de atuação do 3º DP.
O videobingo desmontado ontem funcionava em uma residência na quadra 3 da rua Orlando Cardoso, no Jardim Estoril, a duas quadras do distrito policial. No imóvel foram apreendidas 11 máquinas, sendo duas maletas portáteis e nove máquinas no formato tradicional de CPU, vídeo e coletor de notas. Bassoto explica que o lugar não tinha mobiliário de residência, sendo configurado com as baias de jogos e cadeiras giratórias de escritório para os jogadores. As máquinas passarão por perícia técnica.
Uma mulher que estava no imóvel assumiu ser a responsável pelo funcionamento e foi identificada. No prosseguimento da investigação, a polícia irá avançar na pirâmide do comando do jogo em busca de quem organiza os videobingos. Na casa da rua Orlando Cardoso, o primeiro passo é identificar quem alugou o imóvel, o que pode apontar para um “laranja” no esquema de exploração de apostas contra máquinas.
Porém, a polícia já percebeu alguns detalhes como o fato de que o mobiliário de um videobingo fechado serve de estrutura para a montagem de um novo ponto, sugerindo que as pessoas envolvidas na estruturação são as mesmas. Duas pessoas identificadas nas quatro ações da polícia já são reincidentes.
O jogo de azar é previsto no artigo 50 da Lei das Contravenções Penais. Bassoto lembra que se enquadra no rol de menor potencial ofensivo com pena, em caso de condenação, de três meses a um ano.
A jogada
O delegado Bassoto acrescenta que já encontrou R$ 1.000,00 em notas no coletor de cédulas de um videobingo. Na outra ponta do esquema há o investimento em uma máquina que irá variar conforme a tecnologia embarcada.
Um cálculo muito básico feito pelo JC sugere que o custo de peças para a montagem de um caça-níquel estaria em torno de R$ 600,00 em média, composto por uma placa mãe, processador simples, cartão de memória e um monitor.
Há máquinas que possuem HD ao invés do cartão de memória. As maletas apreendidas ontem no imóvel do Jardim Estoril são mais caras por sua portabilidade.
Bassoto comenta que os videobingos atraem pessoas adultas, a partir dos 36 anos e, principalmente, mulheres. Quando as máquinas estão instaladas em estabelecimentos comerciais, como bares e lanchonetes, trata-se de um público considerado mais popular.
No caso de residências, os frequentadores geralmente têm um perfil de classe média e que vêm com seus carros. Os imóveis mantém discrição, como o videobingo instalado na rua Orlando Cardoso.
Arrogância
O delegado titular do 3º DP, Milton Bassoto Júnior, comenta que chamou a atenção o fato da casa de videobingo fechada ontem ser instalada a duas quadras do distrito policial. “Veja a arrogância do pessoal de montar próximo da delegacia”, define.
Na quarta-feira passada, 11 máquinas e um servidor foram apreendidos em imóvel na quadra 1 da rua Andreia Padilha Sobrinho, no Centro de Bauru, em ação coordenada pelo delegado do 3º DP Carlos Creppe Júnior.
Na última sexta-feira, o flagrante foi em uma residência na quadra 14 da rua Saint Martin, com apreensão de mais 10 computadores. Anteontem, a apreensão foi em um estabelecimento comercial que mantinha no depósito quatro computadores interligados a outro utilizado como servidor. Os equipamentos foram apreendidos na quadra 9 da avenida Rodrigues Alves.
A Polícia Civil pede a colaboração da população com denúncias anônimas através dos telefones 181, 197 e 3227-7434 (3º DP). A identidade do denunciante é mantida sob sigilo.
Poucas pessoas controlam os jogos
As investigações da Polícia Civil em Bauru de como se ramifica o videobingo na cidade pretendem apontar os responsáveis por financiar a montagem de máquinas, residências para o jogo e distribuição em outros tipos de estabelecimentos comerciais, como bares e lanchonetes.
O delegado seccional de Bauru, Marcos Buarraj Mourão, define que é uma meta pessoal o combate de maneira sistemática do jogo de azar. A seguir, o delegado seccional avalia para o JC a intensificação do combate à contravenção promovida pelo jogo de azar.
Jornal da Cidade - A Seccional de Bauru assume como determinação combater o jogo de azar?
Marcos Buarraj Mourão - Não vou admitir esse tipo de atividade. Isso é ilegal e vou combater. É uma determinação da Seccional de Bauru de que se combata qualquer iniciativa de bingo.
JC - Quem são os donos do jogo em Bauru?
Mourão - A investigação está apontando para os responsáveis. Não é um só. São poucos que tomam conta dessa área. Não posso avançar mais na divulgação. Mas não é muita gente que está por trás.
JC - Há um foco específico em jogo de azar, que é tratado como crime de potencial ofensivo?
Mourão - É lógico que a prioridade da polícia é combater crimes, mas a gente não pode esquecer dessa área. E a própria população reclama do não-combate aos caça-níqueis, porque é um jogo que quem joga, não ganha nunca. A gente até pede para a população denunciar pelo 181 no Disque Denúncia.