O movimento de desaceleração das vendas do varejo nos últimos meses deste ano vem ficando acima das estimativas iniciais dos empresários das principais redes instaladas no País. Isso vem gerando uma revisão mês após mês para baixo das projeções, diante dos resultados presentes de vendas.
Desde o mês de agosto, o Índice Antecedente de Vendas (IAV), medido pelo Instituto para o Desenvolvimento do Varejo (IDV), demonstra essa desaceleração. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou na semana passada que as vendas do comércio varejista restrito ficaram estáveis em outubro ante setembro, na série com ajuste sazonal.
Segundo o sócio sênior da GS&MD - Gouvêa de Souza, Luiz Goes, as empresas do setor varejista ingressaram o ano de 2011 com um "otimismo exagerado". "Muitas redes não vão conseguir atingir suas metas de crescimento", afirmou à reportagem.
Ele ressaltou que as empresas podem revisar planos em função da nova realidade, o que pode resultar numa expansão "mais moderada" das lojas. "As varejistas e as indústrias projetaram um 2011 mais vigoroso do que realmente vem acontecendo. A situação não é negra, mas nem dourada como se imaginava", disse.
O último dado do IAV, informado no fim de novembro, apontou que a projeção para o crescimento do faturamento real das vendas das varejistas para o mês de dezembro é de 3,2%, porcentual abaixo do estimado um mês antes, que era de 4,4%.
A mesma desaceleração ocorreu com as projeções para o aumento do faturamento real das vendas referentes ao mês de novembro - que começou em 5,6% (em setembro), recuou para 5,2% (em outubro) e mais recentemente foi revisado para 3%.
"Os associados evidenciaram uma desaceleração da atividade econômica e, por consequência, da atividade varejista, resultado da instabilidade na conjuntura econômica internacional, que permanece indefinida", justificou o IDV, recentemente, após mais uma revisão dos números de vendas.
Essas projeções de vendas são informadas por empresas dos diversos segmentos do varejo, como Pão de Açúcar, Walmart, Magazine Luiza, Lojas Renner, Riachuelo, C&A, Pernambucanas, Livraria Cultura, Drogasil, Leroy Meril, entre outras.
Demissões
Sob a justificativa de "preocupação" com possíveis impactos da turbulência econômica na Europa e Estados Unidos, a rede varejista Marisa demitiu nos últimos dias 239 funcionários de funções administrativas, de um total de 14,5 mil colaboradores de todas as áreas. "A Marisa se prepara para 2012 fazendo um ajuste na sua estrutura administrativa, o que deverá assegurar crescimento sustentável e maior eficiência operacional", informou a empresa em nota.
Um diretor de uma grande rede varejista de vestuário destacou que os números do quarto trimestre apresentam uma melhora marginal, na comparação com o meses imediatamente anteriores. Porém, ele evitou afirmar que as vendas estão melhores neste quarto trimestre em relação ao terceiro. "Elas continuam estáveis", afirmou, sob a condição de não ser identificado.
Especialmente o segmento de vestuário pode ter seu desempenho de vendas comprometido em dezembro pelas medidas de redução de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) à linha branca. "De forma geral, as vendas de linha branca competem diretamente com as de vestuário. A sedução por uma geladeira nova é maior, o que pode levar a compra da roupa a ser postergada", disse Goes.
Segundo ele, outras categorias de venda do varejo, como a de outros artigos de uso pessoal, como óculos, bijuterias e materiais esportivos, vêm apresentando desaceleração desde o fim do primeiro semestre. "As pessoas estão deixando de comprar bens ditos supérfluos e optando por bens duráveis", ressaltou.
No segmento de bens duráveis, as medidas do governo geraram uma reação das vendas em dezembro, segundo a diretora-presidente do Magazine Luiza e membro do IDV, Luiza Helena Trajano. "Se não tivéssemos essas medidas poderíamos ter um trimestre pior. O governo acertou", comentou.
Gigantes do setor perdem participação
As cinco maiores varejistas do País perderam participação no ranking das maiores empresas do setor. O movimento aponta para uma menor concentração das gigantes, enquanto as menores ganharam espaço.
O faturamento dos cinco grupos líderes representou 47% do faturamento das 80 maiores em 2010, ante os 56% que tinham sido registrados no ano anterior - queda de nove pontos percentuais. Os dados foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar).
"As médias empresas têm feito movimentos de consolidação. Sem considerar as 10 maiores, ao menos 15 empresas entre as 70 principais passaram por algum processo de compra ou venda recentemente", afirma Eduardo Terra, vice-presidente do Ibevar.
Os dados do ranking levam em consideração informações de fusões e aquisições até novembro deste ano.
As quatro primeiras colocadas em 2010 foram as mesmas do ano anterior: Pão de Açúcar, Carrefour, Walmart e Americanas. Já a quinta posição ficou com o Makro.