Bairros

Então, é Natal!

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 13 min

Nem a troca de presentes, nem o Papai Noel, nem a majestosa e farta ceia. O verdadeiro motivo para o dia de hoje ser feriado mundial é o nascimento de Jesus Cristo, considerado por cristãos de diversas religiões o filho de Deus e salvador do mundo.

 

A história narrada pela Bíblia conta que Maria, uma virgem noiva do carpinteiro José, foi escolhida para dar à luz o filho de Deus, concebido por meio do Espírito Santo. Quando Maria já estava com a gravidez em um estágio avançado, o imperador César Augusto ordenou que fosse feito um recenseamento. Nesta época, José foi para Belém, junto de Maria, para serem registrados em sua cidade de origem.

 

Foi então que Jesus nasceu. Como não havia mais lugar para a família na hospedaria, Maria embrulhou o menino com panos e o deitou em uma manjedoura. O anúncio do nascimento do filho de Deus foi feito por um anjo aos pastores da região. Mais tarde, três reis magos visitaram o menino e o presentearam com ouro, incenso e mirra.

 

Segundo a Bíblia, Jesus viveu 33 anos. Morreu na cruz, ao lado de dois bandidos, depois de muita perseguição. Em sua trajetória na Terra, ensinou valores como perdão, fé, amor e compaixão. Depois de sua morte surgiram as primeiras religiões cristãs, que o reverenciam como o salvador do mundo.

 

Sendo assim, o Natal é, para os cristãos, a celebração do nascimento de Jesus. A data estabelecida para a festa é o dia 25 de dezembro, embora os cristãos reconheçam que é uma data simbólica, já que existe uma grande discussão em torno do dia exato do nascimento de Jesus Cristo.

 

Porém, passados 2012 anos do nascimento de Jesus, muita coisa mudou, inclusive os motivos para a celebração do Natal.

 

Em Bauru, cidade marcada pela diversidade cultural e religiosa, budistas, judeus e praticantes de candomblé encaram o dia 25 de dezembro como um feriado qualquer. Já os líderes católicos, espíritas, mórmons e evangélicos lutam para reavivar o real sentido do Natal.

 

"A cultura neoliberal passou para o mercado o poder de todas as coisas e o Natal, enquanto festa religiosa, foi maculado pelo capitalismo. Hoje as pessoas se concentram em comprar presentes e vivem no exagero, quando deveriam focar na simplicidade ensinada por Jesus, nosso maior presente", defende Samuel Biassi do Nascimento, pastor da 1º Igreja Batista de Bauru e professor de teologia da Faculdade de Teologia Batista de Bauru.

 

De acordo com ele a inversão de valores é tamanha que nesta época do ano aumenta muito o número de pessoas com depressão que o procuram para ouvir conselhos.

 

"As pessoas se queixam que não conseguiram comprar todos os presentes que gostariam, que não vivem na casa que sonharam, que não têm a televisão que desejaram, entre outras coisas. Elas ficam deprimidas por isso e se esquecem de que a data não tem nada a ver com esse sentido comercial estabelecido pelo mercado", alerta o pastor.

 

O padre Marcos Pavan, da Catedral do Divino Espírito Santo, concorda com as colocações de Samuel. Ele defende que é necessário que as pessoas se voltem para a verdadeira origem do Natal, que é uma data de oração e preparação.

 

"A Igreja não condena a festa e a troca de presentes, mas é preciso haver um equilíbrio. É preciso ter em mente que o grande aniversariante do dia é Jesus, filho de Deus, a quem devemos pedir misericórdia e perdão", ressalta o padre.

 

Cada crença, um Natal diferente

 

Nos bairros, evangélicos, mórmons, católicos e espíritas celebram o nascimento de Jesus enquanto judeus e candomblecistas encaram a data como mais um feriado; hare krishnas, budistas e umbandistas comemoram por respeito

 

A celebração dos católicos

 

Para muitos, o Natal começa no dia 24 de dezembro e termina no dia 25 de dezembro, depois de muita festa, presentes e comilança. Mas, para os católicos cristãos praticantes, a preparação para a festa do nascimento de Jesus começa um mês antes, quando a liturgia aborda a gravidez de Maria.

 

"É o que chamamos de advento. É um tempo de oração, penitência, aprofundamento espiritual e muita fé. Para nós, o Natal é o auge, é o nascimento do verbo de Deus encarnado na humanidade, que vem para se igualar aos humanos, mas sem pecados", explica o padre Marcos Pavan, da Catedral do Divino Espírito Santo.

 

Durante essa preparação, a Igreja promove, além das missas, novenas e confissões. O presépio, que retrata o nascimento de Jesus em sua forma mais singela também passa a fazer parte dos cenários das igrejas.

 

"Além disso, no dia 24, temos a Missa do Galo, tradicionalmente realizada à meia-noite, mas que por questões culturais acontece mais cedo nas igrejas de Bauru. A Missa do Galo anuncia a vinda do Salvador. Já no dia 25 temos a missa de Natal. O ideal é que os católicos frequentes as duas celebrações", explica o padre.

 

Outra característica do Natal dos católicos é a reverência à Maria como mãe de Jesus. Enquanto os evangélicos a veem como apenas mais uma personagem, os católicos a reverenciam como a mulher que deu à luz ao Salvador.

 

"Maria é muito importante para nós, católicos. Ela é um instrumento de Deus para a salvação", explica Marcos.

 

A diversidade dos evangélicos

 

O nascimento de Jesus. Esse é, para os evangélicos, o verdadeiro sentido do dia 25 de dezembro, data em que comemoramos o Natal.

 

Para eles, Jesus é muito mais que um exemplo a ser seguido, é um enviado de Deus para salvar toda a humanidade. Por isso, a data é carregada de significados e importância.

 

"É um momento para reunir a família em torno de Jesus. Nesta data, os evangélicos devem ter pelo menos um momento de adoração a Deus e, por isso, a presença no culto é fundamental", explica Samuel Biassi do Nascimento, pastor da 1º Igreja Batista de Bauru e professor de teologia na Faculdade de Teologia Batista de Bauru.

 

De acordo com ele, como os evangélicos formam um grupo muito grande, as formas de conduta variam muito nesta data, sendo impossível descrever um comportamento único para todo o grupo.

 

A ideia de que evangélicos não consomem bebida alcoólica ou não ouvem determinados tipos de música, por exemplo, não serve mais como referência.

 

"Para se ter uma ideia, dentro do grupo dos evangélicos existe uma minoria que não comemora o Natal. Embora professem a fé de Jesus Cristo, eles acreditam que o Natal é uma data criada pelo homem, sem respaldo na Bíblia e, portanto, é uma festa pagã", explica o pastor.

 

Além disso, os evangélicos, no geral, não têm nenhuma veneração por Maria, reconhecida apenas como mãe de Jesus.

 

"Nos cultos reconhecemos Maria como a mãe do Salvador e temos as citações de sua fala, contudo, não a veneramos. Ela é apenas uma personagem da história. Acreditamos, inclusive, que ela teve outros filhos", ressalta o pastor.

 

 A reflexão dos espíritas

?

Pare e reflita: neste ano que se passou, o que você fez para tornar o mundo um lugar melhor para se viver? Você praticou o amor e a caridade? O que você pode fazer além disso?

 

São reflexões como essas que os espíritas se propõem a fazer no Natal. Isso porque a doutrina, que é baseada nos ensinamentos de Jesus, acredita que o Natal seja um tempo de rever condutas, uma oportunidade para se tornar um ser humano mais evoluído.

 

"O Natal deve ser visto como uma oportunidade de reflexão e mudança de conduta. É a chance que temos de reverenciar Cristo em sua intimidade e nos tornar um homem novo, melhor" explica Richard Simonetti, vice-presidente do Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac) de Bauru e escritor de livros espíritas.

 

Para os espíritas, Jesus não é Deus encarnado, mas, sim, um irmão em um estágio superior de vida que veio ao mundo para ensinar as pessoas a caminhar com mais segurança. Daí a importância de reverenciá-lo na data estabelecida como o dia de seu nascimento.

 

Para isso, os espíritas realizam as tradicionais reuniões semanais, onde, por conta da época, os palestrantes falam a respeito de Jesus e de seus ensinamentos.

 

"Dezembro, por si só já tem um clima natalino. As pessoas ficam mais sensíveis, mais dispostas a ajudar. Os espíritas, por exemplo, são convidados a praticar a caridade durante todo o ano, porém, nesta época, o desejo de ajudar aflora. Isso é resultado deste convite à reflexão", destaca Richard.

 

Quanto às comemorações em família ou com amigos, não existem regras a serem seguidas.

 

O ecumenismo dos budistas

 

Os budistas não comemoram o Natal. A afirmação estaria correta se os budistas em questão fossem os que moram no lado oriental do mapa mundi, no berço da religião. Afinal, o budismo reverencia Buda e, sendo assim, não tem nenhuma ligação com o nascimento de Jesus Cristo. Contudo, em Bauru, essa informação pode ser contestada.

 

"Os budistas tradicionais não comemoram o Natal. Porém, o budismo chegou ao Brasil por imigrantes e seus filhos. Com o tempo, essas pessoas foram se acostumando com as tradições do Brasil e sofreram um processo de aculturação", explica Massaru Ogino, budista e membro da Associação Religiosa Nanpei Ba Honganji de Bauru.

 

Segundo ele, é difícil viver em um País de maioria cristã que comemora o Natal com grande empolgação e não participar das festas. Além disso, o budismo é bastante ecumênico.

 

"Buda nos ensinou que temos o livre arbítrio, que devemos assumir os riscos e responsabilidades de nossas ações. Ele nunca nos proibiu de fazer nada. Disse apenas de devemos viver em comunhão com a natureza e com o próximo. Sendo assim, não há mal nenhum em comemorar uma data tão bonita como é o Natal", avalia Massaru.

 

O sincretismo da umbanda

 

Foi da junção de figuras brasileiras, como os índios caboclos; africanas, como os orixás e o preto velho catequisado, que tem referências cristãs, como Jesus Cristo; que surgiu a umbanda, uma fé tipicamente brasileira.

 

Com tantas influências, não é de se estranhar que os umbandistas comemoram, sim, o Natal. Até porque, para eles, Jesus Cristo, o aniversariante do dia 25 de dezembro, é sincretizado em Oxalá, um dos principais orixás da umbanda.

 

"Na cultura africana o Natal não existe. Contudo, a umbanda, apesar de sofrer influências africanas, é uma fé brasileira. E no Brasil as pessoas vivenciam o Natal por diversos motivos. Sendo assim, nos últimos anos, os terreiros têm se organizado para celebrar a data", explica Rodrigo Queiroz, sacerdote umbandista.

 

As celebrações natalinas costumam ser realizadas uma semana antes do Natal. Nas reuniões, além das oferendas a Oxalá, são realizadas palestras sobre Jesus e Oxalá, explicando as diferenças entre as duas figuras e destacando a importância do espírito de Natal. Além disso, as reuniões são marcadas por cantos, orações e manifestações espirituais mediúnicas.

 

"Entendemos que o Natal é um período de meditação, amor e perdão. Jesus, para nós, é sincretizado em Oxalá e, por isso, celebramos seu nascimento", explica Rodrigo.

 

Por outro lado, o candomblé não faz nenhum tipo de celebração nem reconhece que a data tenha cunho religioso. Isso porque a religião afro-brasileira acredita que Jesus tenha sido um profeta como outro qualquer.

 

"Durante o ano todo, a cada dois meses, celebramos os orixás. Eles são os intermediários entre Oloduman (Deus) e os mortais. Para nós, eles são as figuras mais importantes. Acreditamos, sim, na passagem de Jesus pela Terra, mas não o tratamos com filho de Deus e, sim, como profeta", explica Paulo Roberto Mauad, sacerdote de candomblé conhecido como Baba Elejoka.

 

Sendo assim, segundo ele, o Natal é visto pelos praticantes do candomblé apenas como mais um feriado no ano.

 

A espera dos judeus

 

Enquanto boa parte do mundo festeja o dia 25 de dezembro, os judeus vivem apenas mais um dia de uma espera que já dura 5.772 anos. Isso porque eles não acreditam que o aniversariante do dia, Jesus Cristo, era realmente o filho de Deus e, sendo assim, aguardam pacientemente a vinda do Salvador.

 

"Não celebramos o Natal porque vemos Jesus como um dos muitos profetas do Velho Testamento. Pensamos assim porque, segundo a Bíblia, a vinda do Messias acertaria todas as coisas na humanidade, acabaria com os problemas, com as guerras e com a falta de amor. Jesus já passou pela terra e veja como está o mundo hoje", defende o judeu Paulo César Sales Rosica.

 

Em Bauru, a comunidade judaica é pequena. A principal festa da religião é o ano novo judaico, realizado em setembro, e a Páscoa, que comemora a saída dos judeus do Egito.

 

Contudo, Paulo César explica que o judaísmo é uma religião bastante festiva e de muitos costumes.

 

"Como vivemos no Brasil, onde o Natal é bastante comemorado, aceitamos participar da festa sempre que algum amigo nos convida, mas não vemos o Natal como uma data religiosa. Nossas crianças, inclusive, nunca ganharam presentes nessa época", destaca Paulo César.

 

A pureza dos hare krishnas

 

Apesar de crerem que Krishna seja o verdadeiro Deus, os Hare Krishna veem o Natal como uma data especial. Isso porque, para eles, Jesus foi um grande profeta e, por isso, merece respeito.

 

Em Bauru, cerca de quatro famílias seguem o ensinamento de Krishna. Eles se reúnem mensalmente na casa de um dos devotos para cantar mantras e ler o Bhagavad Gita, o livro que relata a conversa entre Krishna e Arjuna a caminho de uma guerra e que contém grandes ensinamentos filosóficos.

 

Além disso, os Hare Krishna cantam, diariamente, 16 vezes a japa, uma espécie de rosário que tem 108 contas. Também é costume não comer carne, peixes e ovos, não praticar jogos de azar e não usar drogas nem ingerir bebidas alcoólicas.

 

"No Natal, apenas mantemos nossos costumes. Sendo assim, a grande diferença de nossa ceia para a ceia de outras religiões é que em nossa mesa não tem violência. Nenhum animal é morto para nos satisfazer", explica Landulpho Nascimento Hortêncio, mais conhecido entre os Hare Krishna como Bhakta Pancajanya.

 

Além disso, os Hare Krishna costumam comemorar o Natal apenas com a família e fazem questão de entoar mantras antes da ceia.

 

"Estamos sempre adorando à Krishna, buscando a pureza e o respeito ao próximo. Portanto, nada mais lógico respeitar a festa cristã, celebrada no mundo todo", avalia Landulpho.

 

A religiosidade dos mórmons

 

Comemorar o Natal é, para os mórmons, como são conhecidos os fiéis da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, celebrar o nascimento daquele que veio para salvar o mundo de todos os pecados, Jesus Cristo.

 

Embora acreditem que Jesus nasceu em 6 de abril, conforme descrição feita pela Bíblia e confirmação por meio de revelação divina, os mórmons juntarem-se ao resto do mundo e, atualmente, celebram o nascimento de Jesus no tradicional 25 de dezembro.

 

"Jesus é a base de nossa igreja, nosso Salvador. Celebrar seu nascimento é um momento muito importante para nós", explica Fernando Pereira Bentin, presidente e responsável pela igreja na região.

 

Ele explica que a igreja é estruturada nos mesmos moldes de quando Jesus passou pela Terra, ou seja, tem um presidente, que corresponde ao Papa da Igreja Católica, e 12 apóstolos, assim como Jesus teve. Esse formato foi consequência de uma restauração feita pelo jovem americano Joseph Smith que, em 1920, pediu que Deus o mostrasse qual religião deveria seguir.

 

"Foi quando Deus e Jesus Cristo, por meio de revelação, o disseram que, naquele momento, não existia nenhuma igreja que fosse a verdadeira. Mais tarde Joseph foi orientado a estruturar a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias", explica Fernando.

 

Os fiéis ficaram conhecidos como mórmons pois, além da Bíblia, seguem o livro dos mórmons, que contém registros desde 400 anos antes de Cristo feitos por profetas que viviam nas Américas.

 

Os mórmons costumam celebrar o Natal com festa e, quando a data cai aos domingos, como hoje, participam da reunião sacramental.

 

 

Comentários

Comentários