Ciências

Martinho ou Zeca: eis a filosofia!

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 4 min

As revoltas estudantis recentes, especialmente na USP, levaram muitos a questionar porquê apenas alunos das áreas de ciências humanas participavam das manifestações. Ouvi algumas perguntas e respostas bizarras e tragicômicas como: ... ah, eles não têm nada para fazer, então sobra tempo para estas manifestações! Ou: ... para quê ter estas áreas de humanas, na prática não resolvem nada! E ainda: ... esse pessoal das humanas questiona tudo, qualquer coisa se rebelam!

Eram opiniões de respeitáveis pessoas em sua formação ou posição e pensava com meus botões: ... por isto que se vende tanto livros, se assiste tanto filmes e se acessa tanto sites de autoajuda! Sem refletir e questionar não se chega a lugar algum em qualquer atividade e uma hora o indivíduo se perde nos meandros das condutas e decisões a serem tomadas: ... e toma terapia! As pessoas gostam da televisão e cinema porque entregam tudo pronto e resolvido: o tempo passa rápido. Pensar, refletir e questionar leva ao crescimento e crescer dói. Então evita-se ficando na frente da tela!

A Filosofia é considerada a mãe de todas as ciências. O termo Filosofia está formado por duas palavras gregas: filo, ou amigo, e sofia, ou sabedoria. Desta forma, pode-se depreender que o filósofo não é o detentor de todo o saber, mas um aficionado e pretendente à sabedoria. Quem se pretende minimamente sábio, necessariamente pratica a Filosofia.

O termo filosofia foi utilizado inicialmente por Heródoto em 484-425 a.C. como verbo filosofar para referir-se ao esforço em adquirir novos conhecimentos. Creso, rei da Lídia, disse ao legislador ateniense: ouvi dizer que viajaste por muitas terras filosofando, buscando novos conhecimentos. Outra versão atribui o uso pioneiro da palavra Filosofia à Pitágoras, quando perguntado sobre em que arte era versado, respondeu: em nenhuma, sou um filósofo, um estudioso e amigo da sabedoria.

Os sofistas na época de Sócrates empregavam o termo Filosofia para designar cultivo sistemático de qualquer conhecimento teórico. No sentido mais comum, a filosofia representa uma visão do mundo, uma concepção de vida para uso pessoal que dita atitudes e modo de ser. Graças a ela conseguimos nos situar melhor no meio que vivemos. Esta visão pode ser otimista, pessimista, progressista, retrógrada, motivadora ou inibidora.


Filosofia para quê?

A filosofia de cada um não pode ser confundida com a disciplina sistemática denominada de Filosofia, embora guarde uma analogia com a mesma. A Filosofia dá um significado mais amplo à experiência diária e a faz com sentido.

A Filosofia apresenta-se como uma visão da vida, da natureza e do universo fundamentada de maneira lógica e sistemática. A Filosofia tem sistemas organizados e eruditos que visam oferecer significação mais ampla e geral ao mundo e seus principais problemas. Esses temas e visão se afastam do campo e do método científico. A grande diferença entre Filosofia e Ciência está no método e no objeto de pesquisa. A filosofia é construída com muito pensamento abstrato, enquanto a ciência exige um grande esforço experimental.

A Filosofia é filha da razão. Quando o homem se viu diante de um meio desconhecido e assustador procurou se apaziguar para se sentir mais adaptado, interpretando e explicando-o, muitas vezes de forma primitiva. Ao contrário do animal, o homem alarga e expande a experiência que tem das coisas, pois usa palavras. As palavras podem substituir coisas e fatos e assim pensa-se de olhos fechados longe dos acontecimentos. A pedra não percebe; o animal percebe e sente; o homem percebe, sente e, além disso, associa suas percepções e experiências, dando-lhe significado, sentido geral e explicação.

A Filosofia é questionadora em si mesmo: da discussão, investigação, análise e crítica surgem novas ideias. Sem a Filosofia e ciências humanas, resta nos a literatura da autoajuda e a aplicabilidade fria e utilitária das ciências exatas e biológicas. Prefiro a inquietude dos filósofos no lugar da paz das máquinas, gosto mais do barulho dos questionamentos que do silêncio dos hospitais ou necrotérios e, mais: prefiro a dureza da realidade no lugar da maciez dos divãs e devaneios das drogas! Viva a reflexão!

Na virada do ano deixo a pergunta: que música você cantaria na última noite: Filosofia de vida de Martinho da Vila (ativa) ou Deixa a vida me levar de Zeca Pagodinho (passiva)? Independente da resposta, que seu Ano Novo seja de muita paz, saúde e alegria!


Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. E-mail: consolaro@uol.com.br

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