Poucos dias depois de o benefício da saída temporária de Natal ser concedido aos detentos do sistema prisional de Bauru, dois homicídios foram registrados na cidade. Os crimes foram cometidos na madrugada de ontem, com menos de uma hora de intervalo entre eles. O acusado de ser o autor de um dos assassinatos seria, justamente, um preso beneficiado pela “saidinha”.
Devido a uma dívida de drogas de R$ 5,00, Jhonatan Willian Arruda, 25 anos, teria esfaqueado até a morte a mãe de um usuário de crack, Sônia Aparecida da Silva, 46 anos. No outro homicídio, registrado no Jardim Redentor, a vítima, Sulivan Thiago da Silva, 25 anos, havia deixado a prisão há menos de um mês, depois de cumprir pena por roubo. A hipótese de que tenha sido morto por outro egresso do sistema carcerário em um acerto de contas não está descartada.
“Neste período de saidinha, principalmente em final de ano, sempre há registros de homicídios envolvendo presos beneficiados. Eles acabam encontrando antigos desafetos nas ruas e o índice de criminalidade cresce”, afirma o delegado Cledson Luiz do Nascimento, da Delegacia de Investigações Gerais (DIG).
Segundo relato de vizinhos, Sônia era uma pessoa querida no bairro onde morava, na Pousada da Esperança 2, e vinha lutando para livrar o filho e um sobrinho das drogas. Ambos viviam com ela na casa onde o crime ocorreu, na quadra 2 da rua Antônio Lima.
A mulher, que era divorciada, estava dormindo sozinha em um quarto quando foi golpeada por duas vezes na altura do pescoço, por volta das 3h. A faca foi abandonada no cômodo. O filho e o sobrinho, despertados pelo barulho, chegaram a surpreender o suposto assassino dentro do imóvel.
“As testemunhas identificaram o homem como sendo o Jhonatan, que morava a duas quadras de distância. Eles eram amigos e o Jhonatan acabou convencendo os dois a irem até sua casa. Quando eles voltaram, descobriram que a Sônia estava morta. Ao procurarem o rapaz novamente, ele já havia fugido”, comenta o delegado. Além da hipótese de acerto de contas, a tese de crime passional também é considerada, já que o filho da vítima havia se envolvido recentemente com a ex-esposa do acusado.
Acerto de contas
Meia hora antes de o crime ocorrer, Jhonatan rompeu o lacre da tornozeleira eletrônica que o monitorava e descartou o equipamento em um matagal localizado no mesmo bairro (leia mais nesta página). Ele cumpria pena em regime semiaberto por tráfico de entorpecentes no Centro de Progressão Penitenciária 3 (antigo IPA). Com a prisão temporária decretada, é considerado foragido da Justiça.
Já a morte de Sulivan Thiago da Silva ainda não foi esclarecida. Ele foi encontrado já sem vida com cinco perfurações na cabeça, por volta das 2h, na quadra 2 da rua Santa Matilde, ao lado do Cemitério do Jardim Redentor. Ao lado do corpo, havia um projétil deflagrado – que provavelmente transfixou o crânio -, um aparelho celular e o alvará de soltura comprovando que a vítima havia deixado o sistema prisional em 5 de dezembro deste ano, depois de cumprir pena por roubo.
“Pela vida pregressa do Sulivan, é possível que tenha havido acerto de contas. Não está descartada nem mesmo a possibilidade de um preso beneficiado pela saída temporária ter cometido o assassinato”, aponta.
Dentro do cemitério, policiais encontraram um revólver calibre 32 e uma garrucha, ambas com munições. Ainda não se sabe, entretanto, se as armas possuem alguma relação com o crime. “Inicialmente, imaginamos que os projéteis fossem de uma pistola, mas somente a análise da perícia poderá dizer que tipo de arma foi utilizado”, aponta Nascimento.
Índice de homicídios é o 2º maior
O número de homicídios registrados em 2011 já é o segundo maior dos últimos seis anos, em Bauru, segundo estatísticas da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Até ontem, levantamento extraoficial realizado pelo JC havia contabilizado 37 mortes, o que coloca a cidade como “zona epidêmica de homicídios” para a Organização das Nações Unidas (ONU).
Para a entidade, o indicador considerável aceitável é de até 10 assassinatos para cada 100 mil habitantes. Em Bauru, o número tolerado seria de 34 mortes. O índice deste ano só perde para o de 2010, quando houve 45 vítimas, quantidade considerada acima da média pela própria polícia. Em 2009, foram 28 registros e, em 2007, 23.
Mas, para o major Airton Iosimo Martinez, comandante interino do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), a tendência é de que os níveis de criminalidade - especialmente durante as saídas temporárias - comecem a cair devido à implantação do monitoramento eletrônico por meio do uso de tornozeleiras. O sistema foi implantado há cerca de um ano pelo governo do Estado e o fato de Jhonatan Willian Arruda não ter sido capturado antes de cometer o crime demonstra que ainda existem falhas a serem corrigidas.
“É claro que ajustes são necessários. Mas os presos, sem dúvida, estão sendo melhor controlados pelo Estado. A saída temporária é um direito garantido aos que estão em regime semiaberto e, para evitar que cometam crimes, creio que a tornozeleira seja a medida mais apropriada”, comenta.
SAP não explica ‘falha’
Pelas regras da saída temporária, Jhonatan Willian Arruda deveria permanecer em seu endereço residencial entre 22h e 6h. Na madrugada de ontem, além de estar fora de casa, ele rompeu o lacre da tornozeleira eletrônica que o monitorava e, meia hora depois, teria assassinado Sônia Aparecida da Silva a facadas.
O comando da Polícia Militar em Bauru informou que, antes de o crime ocorrer, em nenhum momento foi acionada pela Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) para localizar e prender o detento. O JC questionou a pasta sobre a falha no sistema que permitiu a Jhonatan descumprir as regras da saidinha e matar uma pessoa aparentemente inocente sem ser flagrado. Nenhuma resposta foi enviada até o fechamento desta edição.