Regional

Primeiro crime aconteceu aos 21 anos

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 8 min

Aos 18 anos “Dioguinho” casou-se com Antonia de Mello e foi morar em Itatinga. Dois anos depois, mudou-se para Tatuí com a mulher e o irmão Joãozinho. Foi trabalhar para fazendeiros do café. “Um dia ao chegar do trabalho, ‘Dioguinho’ encontrou Joãozinho chorando. O irmão contou que o gerente do circo, o tratou mal, dando-lhe um tapa no rosto. Naquela época, era comum as crianças furarem a lona do circo para assistirem de graça o espetáculo”, frisa Bernardo.

“Dioguinho” teria ido ao circo acertar as contas. “O gerente confirmou o que fizera. Houve uma pequena discussão. ‘Dioguinho’ teria tirado o chicote que levava consigo e açoitado o homem que tentou pegar uma arma, mas não teve tempo de agir. O bandido teria fincado uma faca no peito do gerente do circo. Este foi o primeiro crime que se tem notícia.”

Outro crime ocorrido logo no início da vida bandida de Diogo envolveu a sobrinha dele e um ex-namorado, lembra o autor. “Uma sobrinha dele foi desonrada pelo namorado que não quis casar com ela. ‘Dioguinho’ tomou conhecimento do caso e partiu em busca do ex-namorado da sobrinha e matou o rapaz.”

Em um baile, “Dioguinho” deixou seu chapéu de palheta sobre uma cadeira e foi dançar. Quando voltou, uma pessoa estava sentada no chapéu. “Ele atirou e matou a pessoa. Ele sempre estava armado. Dispensava advogados e sempre conseguia sair bem. Alegava legítima defesa, se defendia sozinho.”

Depois disso, “Dioguinho” não parou de matar, se tornou um matador profissional a serviço de fazendeiros. “Está comprovado que ele matou mais de 50 pessoas. Ele era contrato pelos fazendeiros para dar cabo a pessoas que atrapalhassem seus negócios, um matador de aluguel. Seus clientes pagavam para ele matar. Ele matou delegado de polícia, policiais e muita gente que não era considerada autoridade na época.”

“Dioguinho” ficou famoso, de acordo com Bernardo, na  região de Ribeirão Preto, São Simão, São Carlos, Santa Rita do Passa Quatro. “Onde ele foi trabalhar para os fazendeiros.  À  época os jornais da Capital davam muito notícia sobre dele.” 

Em Botucatu, onde nasceu, “Dioguinho” não matou ninguém, afirma o autor do livro. “Os pais dele moravam em Botucatu. Ele vinha para a cidade só para visitar os pais não se expunha para não arrumar confusão.”

A fama de “Dioguinho” foi crescendo e em determinada época, ele teve um bando. “Com ele, além do irmão Joãozinho, haviam de 10 a 12 pessoas. Todas eram marginais como ele. O bando era muito parecido com o de Lampião. O capitão Virgulino apareceu depois de 25 anos do desaparecimento de Diogo.”

 

Medidor de terras

 A chegada do trem que fazia o trajeto Sorocaba/Botucatu mudou a vida de “Dioguinho”, segundo Moacir Bernardo. “Ele tinha 15 anos quando os engenheiros ingleses começaram a chegar a Botucatu. Foi através deles que ele aprendeu a medir terras, a técnica da topografia. Foi ser topógrafo para os fazendeiros do café.”

Essa foi a profissão que o levou, inicialmente, à região de Ribeirão Preto, onde o café estava em expansão. “Trabalhou também para a estrada de ferro. Ele convencia as pessoas a vender suas terras para passar a ferrovia. Era bem pago para isso.”

 

Família tradicional portuguesa

Diogo da Silva Rocha nasceu no dia 9 de outubro de 1863 em Botucatu e foi batizado no dia 13 de outubro do mesmo ano. Sua primeira moradia foi em um sobrado da atual rua Amando de Barros, próximo do bosque em Botucatu. “Há três anos, a casa foi derrubada. Em seu lugar foi construída uma galeria de lojas. ‘Dioguinho’ era de uma família tradicional de portugueses.”

O pai do bandido, segundo o livro, era comerciante. “Tinha uma venda grande, famosa, conhecida como venda do Avelino. A venda era uma das poucas que importava azeite, bacalhau e azeitonas da Europa. A mãe dele era uma ótima cozinheira.”

“Dioguinho” estudou em escola de Botucatu e era considerado um menino inteligente, mas tinha o instinto ruim. Gostava de judiar de animal. “Certa vez, ele pegou o gato da mãe dele e jogou dentro do forno quente. Ficou observando o gato morrer. Quando era moleque batia em todo a  molecada.”

O memorialista Celso Prado, de Santa Cruz do Rio Pardo que fez um estudo sobre “Dioguinho”, frisa que as histórias da infância do bandido são muitas e todas apontam para um menino inteligente, mas de comportamento extremamente agressivo.

“Para a época atual seria um menino com transtorno de personalidade dissocial notada pela conduta agressiva em idade precoce, hostilidade exagerada e ausência de empatia com seres vivos, com variáveis para perversão. Mas, naquele tempo, ‘Dioguinho’ era visto como a monstruosidade personificada, ou possuído pelo demônio, capaz de matar, certeza consolidada quando ele matou o irmão adotivo de três anos.”

Prado lembra que a morte seria fruto de um acidente. “Ao subir numa prateleira para pegar alguma coisa, com seu irmãozinho, caiu uma tampa de ferro, que atingiu a cabeça da criança que morreu.”

 

Dioguinho’ interferiu na economia estadual

A ‘carreira’ bandida de Dioguinho começou a trilhar uma escala decadente quando ele começou a interferir na economia estadual. “Nessa época, os ingleses vinham ao Brasil para comprar café. Eles adiantavam uma parcela do pagamento e traziam o restante na mala. “Dioguinho” percebeu a oportunidade e em parceria com fazendeiros mal intencionados, começou a praticar assaltos.”

Os ingleses eram assaltados e mortos. “O dinheiro era dividido entre o bandido e os fazendeiros. Isso começou a amedrontar os compradores e interferiu na economia que à época era comandada pela cultura do café.”

 

Morte ou desaparecimento?

A matança de compradores de café comprometia a economia e o então governador Campos Salles resolveu por fim à questão. Formou um batalhão de policiais com a missão de encontrar “Dioguinho” vivo ou morto.

Era o ano de 1897, “Dioguinho” estava na casa dos trinta quando desapareceu ou morreu. A busca pelo bandido e seu irmão passou a ser uma meta para os policiais. “Por onde ele passava, até os policiais faziam corpo mole, ninguém queria prendê-lo. Ele era muito respeitado.”

Próximo da cidade de São Carlos ele teria desaparecido. “Foi montada uma emboscada e muitos tiros foram disparados. O corpo de Joãozinho foi encontrado, mas o dele, nunca foi localizado.”

Muitos diziam que ele não morreu nessa ocasião. “Como o corpo não foi encontrado, muita gente acredita que ele se safou da emboscada. Todos os que o delataram para a polícia foram morrendo de maneira estranha.”

 

Professor foi impedido de escrever livro 


Na década de 70, um professor da Unesp de Botucatu pretendia escrever um livro sobre a vida de “Dioguinho”, no entanto desistiu, comenta Moacir Bernardo. “Ele foi pressionado a não fazer a pesquisa para escrever. À época, a família Rocha ainda tinha muitos descendentes morando no município. O professor foi jurado de morte.”

Atualmente a família Rocha, segundo Bernardo, tem várias propriedades rurais em Goiás e Mato Grosso. “Quando eles moravam aqui, não gostavam que falassem do ‘Dioguinho’. A família era muito respeitada em Botucatu, pelo poder aquisitivo. Pelo que sei foi parente dele que pressionou o professor. Eu escrevi em 2000 e não tive problema.”

 

Crônica diz como o ‘bandido’  morreu

Cândido Motta Filho (1897-1976), paulistano, jornalista, escritor e jurista, membro da Academia Paulista de Letras e Academia Brasileira de Letras, escreveu no seu livro de memórias, em 1972, uma crônica sobre Dioguinho, intitulado: “As Façanhas de Dioguinho”.

Nela, o jornalista diz, dentre outras coisas, que “Dioguinho” colecionava casos brutais e ilógicos. Morreu numa emboscada às margens do Rio Mogi-Guassu. A ação foi preparada pela Polícia Paulista, comandada pelo coronel França Pinto.

Para o paulistano Paulo Menotti Del Picchia, que foi membro da Academia de Letras e da Academia de Letras, dizia que “Dioguinho” era um famoso e romântico bandido, mistura de facínora e de vingador, tipo clássico de cangaceiro, sublimado pela imaginação popular.

No livro didático, “Estudo Dirigido de Português”, de Reinaldo Mathias Ferreira, Editora Ática, consta um poema de Menotti Del Picchia, intitulado “Juca Mulato”, onde é citado o personagem “Dioguinho”.

 

Histórias do bandido ainda são relembradas em sua terra natal

As histórias de “Dioguinho” mesmo passado muito tempo ainda são comentadas, reinventadas todos os dias, diz o pesquisador botucatuense  João Carlos Figueiroa. Segundo ele, “Dioguinho” e suas façanhas são passadas de geração em geração, de pai para filho. De avô para neto. 

“Ninguém sabe explicar como as histórias dele ainda são comentadas na cidade onde ele nasceu. Não há nenhum projeto de divulgação, eles brotam. Os comentários surgem em  barbearias, cabeleireiro , lugares de concentração nada culturais, nada que tenha foco cultural.”

Para ele, o livro “A vida bandida de Dioguinho” de Moacir Bernardo  reavivou a lenda do bandido nascido em Botucatu e  que atuou fora da cidade.  À época ele tinha uma expressão nacional tal qual o lampião no nordeste. Ele era um salteador. “O ‘Dioguinho’ teve uma formação profissionalizante rápida ou até prática e se transferiu para regiões de expansão agrícola com muitas terras griladas. Teve contato com grandes proprietários de terras e acabou se envolvendo com uma série de crimes, de desajolamento de pequenos agricultores.”

Pelo que se sabe, segundo o pesquisador, “Dioguinho” usava métodos próprios, violentos para subjulgar suas vítimas. “Ele assassinava mesmo. Era uma pessoa de estopim curto, não levava desaforo para casa. Ele se tornou um matador de aluguel. Prestou um serviço de expansão forçada de propriedade no momento em que a agricultura do café estava acontecendo e os conflitos de terra aconteciam todos os dias.”

 

 

 

 

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