Ciências

O obelisco, a rede e os árabes!


| Tempo de leitura: 3 min

Inicialmente as paredes das cavernas registraram figuras e símbolos para as futuras gerações. Com a escrita, deixaram-se mensagens em tijolos e placas de argila. Aldeias mais organizadas queriam registrar seus avanços ou crenças e deram origem a obeliscos. Neles escreviam, desenhavam para as futuras gerações ou homenageavam os deuses.

O obelisco era a biblioteca sobre o saber e crença. As grandes cidades têm obeliscos majestosos como São Paulo, Washington, Paris e Buenos Aires. Obelisco significa: temos passado, cultura, acumulamos saber, estamos conectados com o superior! Muitas pessoas acham que são pontos demarcatórios, outros admiram os obeliscos e nem imaginam a história e significados. Os desavisados acham que são para-raios!

Com os papiros, a escrita e transmissão de saber entre gerações foram facilitados, mais ainda, com a invenção do papel e impressão. Os livros acumulavam muita informação em uma fonte apenas! Deve ter sido maravilhoso o livro endeusado como fonte acumulada de saber: era o ipad da época!

Mas o livro ficou pequeno e em série deram origem às enciclopédias e tudo ficou imensurável: se propusermos seguir a fila de livros publicados todos os dias, teríamos que correr a 146 km por hora. Impossível. Imagine para acompanhar o conteúdo!

Livros e enciclopédias ficaram pequenos e o conhecimento ampliado de tal forma que países mais poderosos acumulavam e davam acesso aos cidadãos para que ficassem cultos e criativos: surgiram as bibliotecas. Mas ficaram grandes demais e inviáveis.

O computador solucionou o problema de espaço para armazenar as informações das gerações anteriores e dar acesso ao cidadão. Surgiram os bancos de dados acessados via Internet; não mais se precisa ir até o local, a informação é obtida via computador. Pronto: todos tem banco de dados ou biblioteca à disposição quando e onde quiser: que beleza!

Os telefones fixos, ficaram sem fio e viraram celular. O computador de mesa ficou portátil, sem fio e virou ipad. O ipad e celular são computadores de bolso. Como fizeram com o relógio, rádio e televisão, miniaturizaram livros, bibliotecas e conhecimento: podem estar com você o tempo todo! O ipad representa uma revolução? Não, uma necessidade!

Liderança e rede social

Ter acesso à informação não significa capacidade de utilização da mesma, ter a informação sem capacidade de análise crítica pode gerar confusão. Excesso de informação é tão limitante quando a falta dela.

O mundo sabe que a revolta do mundo árabe foi induzida pelas redes sociais estadunidenses. Insuflando a revolta com informações e questionamentos, a rebelião foi inevitável. E agora, não tem quem lidere o processo, não tem líderes com capacidade interpretativa: o que fazer depois de derrubar o ditador e desorganizar o governo; não sabem como fazer! Precisam de pessoas que interpretem a informação, analise a situação e opções, tome condutas e posições e assuma responsabilidades! Só a revolta não adianta. A primavera ficou em botões, sem flores!

As redes sociais servem à manipulação das massas, mas não à sua conscientização, quase tudo fica acéfalo. Tudo que é feito apenas com a informação fria de máquinas fica sem calor humano, soa falso, fugaz e passageiro. Olhe o que ocorre com Obama, decepção geral: sua figura foi esculpida na rede. Liderança tem que ser forjada no calor do contato humano: a tecnologia não consegue esculpir liderança e líderes! Então a Internet emburrece? Claro que não, até por que os criativos e inteligentes não vão ficar horas no computador, vão apenas utilizá-los como ferramenta e não meio de vida!

Na ciência também é assim: tudo se repete, especialistas afirmam que 95 a 98% dos trabalhos publicados não servem para nada. Não teriam nexo e nem significado, são publicações para constar em currículos para construírem carreiras universitárias e mais nada. As grandes ideias, insights e invenções nascem do pensamento reflexivo e da criatividade, não depende da tecnologia; ela ajuda acumular, organizar e acessar à informação, mas criar conhecimento novo depende quase que exclusivamente do cérebro humano. Que digam Steve Jobs e Bill Gates.

Alberto Consolaro ? Professor Titular da USP e Colunista de Ciências do JC

Comentários

Comentários