Apesar de oficialmente ateus, alguns regimes comunistas também reproduziram aspectos religiosos. Na Coreia do Norte, os líderes passaram a incorporar e a representar a figura Divina. Na URSS, as pessoas faziam filas para reverenciar o corpo embalsamado de Lênin - duvido que Lênin teria concordado com isso, pois trata-se de um comportamento análogo ao comportamento religioso (é quase a mesma coisa). É frustrante que regimes que ascenderam para terminar com os privilégios de castas sociais centenárias tenham, com o passar do tempo, reproduzido muito das condições de coerção ideológica de seus antecessores. No caso da Coreia do Norte, o regime adotou, inclusive (e absurdamente), a transmissão hereditária do poder, como nas monarquias.
A Coreia do Norte é um país singular. A imprensa a trata como uma aberração, como um Estado surrealista. E o regime comunista coreano realmente tem muito de surreal. Pyongyang, a capital, é uma cidade modelo. É bonita, organizada, limpa, cortada por avenidas largas e permeada por prédios altos - o maior hotel do mundo está lá, em construção -, mas suas ruas exibem uma atmosfera vazia, asséptica, artificial. O "surrealismo" norte-coreano, porém, não é um disparate tão grande em um mundo onde o mercado financeiro se transformou no "dono" dos principais governos europeus.
Vou me abster da coerência e das convicções ideológicas, para dar uma sugestão ao novo líder norte-coreano, Kim Jong-Un. Penso que ele deve copiar o ditador do Cazaquistão, Nursultan Nazarbayev. Nazarbayev contratou nada menos que o ex primeiro ministro britânico Tony Blair para conduzir a economia da ditadura. E Blair, é lógico, aceitou (com tanto dinheiro em jogo, o discurso da democracia perde o sentido e os abnegados que diziam querer salvar o mundo dos tiranos trabalham para os tiranos). Nazarbayev é presidente do Cazaquistão desde 1984, quando o país integrava a URSS. "Venceu" todas as eleições desde então. Impulsionado pela abertura e pelo petróleo em abundância, o Cazaquistão cresceu e se modernizou muito sob Nursultan, mas seu governo é ditatorial. Portanto, sugiro a Jong-Un que faça o mesmo e contrate George Soros para conduzir a economia da Coreia do Norte. Soros, mago dos negócios, é mestre em tirar dinheiro de qualquer coisa. Certa vez, ganhou 1 Bilhão de dólares em 1 dia, apostando contra o Banco da Inglaterra. Como anda meio sumido, seu salário não será tão alto quanto o de Blair. Sobre a morte de Kim Jong-Il, o depoimento mais estúpido, sem sombra de dúvidas, foi o da Luana Piovani. Ela escreveu em seu blog:
"Que coisa maravilhosa, o ditador da Coreia morreu". Li isso no site F5, que ainda publicou o seguinte: "Ela ainda achou estranha a comoção causada na população do país asiático. "Mas vi no noticiário uns malucos chorando aff tem muito maluco no mundo mesmo (sic)", comentou a atriz." Uma leitora revoltada escreveu abaixo da notícia: "-Nossa, como o F5 pega no pé dessa moça. Trata-se de uma pobre que vive de futilidades e platitudes, e que não tem absolutamente nenhuma obrigação de dizer nada profundo, reflexivo, insightfull ou mesmo correto sobre o mundo econômico, político, físico e social. Como outros milhões, é vítima de um sistema educacional que nada mais é que uma máquina de enburrecimento. Deu sorte de nascer bonita e loira num país de pobres caboclos com sérios problemas de identidade."
Achei que a leitora foi um pouco febril em sua análise. Mas, convenhamos, Luana Piovani não teria como pensar sobre isso de maneira lúcida, levando a vida que ela leva, estrelando "twittadas" polêmicas. Acredito que o fim de Luana será o de muitos famosos: sumir aos poucos, de tanto aparecer. É tanta redundância envolvendo a figura dela, que um dia o público perderá a capacidade de enxergá-la, de percebê-la. Mesmo sendo muito gostosa, Luana se tornará uma excrescência da paisagem. Coincidentemente, é assim que os povos de muitos países veem os retratos de seus ditadores, pendurados por todos os cantos.
Luis Paulo Domingues