Articulistas

Bauru, uma cidade analógica

Marta Vieira Caputo
| Tempo de leitura: 3 min

A matéria intitulada "Rodrigo descarta verba de Cidade Digital", de autoria do jornalista Nelson Gonçalves, publicada pelo Jornal da Cidade em 29/12/2011, deveria causar grande preocupação para a população bauruense, especialmente porque deixa claro o descaso da atual administração municipal para com o interesse coletivo, em um momento da história contemporânea cuja principal característica é a transformação dos modos de produção, no qual o "informacionalismo" é a característica principal do capitalismo e requisito para sua sobrevivência. Assim, não há cadeia produtiva que possa dar-se ao luxo de prescindir, em algum momento, da informação e, por conseqüência, da informática. Se livros ou parafusos, massa de tomate ou obras de arte, todos os processos implícitos ? quer de produção, logística, comercialização ou utilização, passarão por algum processo informatizado, até que, efetivamente, cumpram a função para a qual foram criados. Portanto, ao recusar a verba de 12 milhões de reais do Programa Cidade Digital, a Prefeitura Municipal nega ao cidadão bauruense as possibilidades que a inclusão digital pode proporcionar - o que implica negligenciar o interesse coletivo.

Trabalhar com afinco para a implantação da internet gratuita em todo o município é um esforço que todo o cidadão bauruense, diante dessa notícia, deve cobrar da atual administração. Afinal, o programa contempla essa possibilidade e é fato que a internet no Brasil ainda é cara e lenta, chegando a custar quatro vezes mais que na Europa ou nos EUA, mas apresentando a metade da velocidade.

De uma perspectiva empresarial, se, por um lado, o governo federal tem feito um grande esforço para formalizar a situação do pequeno empreendedor, por outro, posturas como a da atual administração em nada contribuirão para incrementar as possibilidades competitivas dos mesmos, haja vista que o empreendedor que não criar mecanismos adequados para a gestão dos negócios tende a não sobreviver no mercado. E, para tanto, estar inserido digitalmente é elementar.

É importante considerar também que o número de escolas públicas bauruenses conectadas a internet e dela fazendo uso não é ainda satisfatório, se comparado a outras localidades onde o serviço é prestado gratuitamente à população. Dessa forma, a disponibilização das ferramentas para que possamos falar de inclusão digital em nosso município se distanciam do cidadão, junto com as possibilidades que a alfabetização digital poderia estar proporcionando.

Segundo dados da União Internacional de Telecomunicações, apenas 56% das escolas brasileiras estão conectadas à rede. Some-se a isso, as dificuldades para a aquisição de um computador para as famílias de baixa renda e teremos o cenário fidedigno do que convencionou-se chamar de "digital divide", ou fosso tecnológico, com conseqüências educacionais e econômicas perversas.

Para proteger os empregos das empresas provedoras de acesso ? argumento do Prefeito Rodrigo Agostinho para que a cidade não seja contemplada com internet gratuita, devíamos é nos preocupar com a formação de mercado consumidor e aprimoramento dos serviços prestados, pois é fato que esses têm ainda muito que melhorar, e o espaço para a concorrência está aí, para ser explorado. Quanto à informatização dos serviços prestados pela prefeitura, vale lembrar que procedimentos básicos, tais como os agendamentos no atendimento da saúde ou a matrícula dos alunos da rede municipal de ensino são serviços que ainda não foram contemplados com um sistema on line.

Além disso, tente estabelecer um canal de comunicação com as secretarias e suas equipes para um trabalho conjunto. Impossível sequer enviar mensagens com arquivos em anexo, pois as mesmas são devolvidas aos destinatários. As justificativas que se ouve são "não chega mesmo", para reiterar aquilo que já se sabe. Nos corredores do Palácio das Cerejeiras, o que se ouve é que há censura, mas ninguém explica, afinal, a que interesses o reproche se presta. Com certeza, gestão participativa é um conceito do qual ainda estamos - poder e sociedade civil - irremediavelmente apartados. E é por essas e por outras que, por analogia, Bauru ainda cultiva o péssimo hábito de fomentar características de cidade de terceiro mundo.


A autora, Marta Vieira Caputo, é coordenadora do Fórum Empresarial de Responsabilidade Social e Sustentabilidade de Bauru

Comentários

Comentários