Regional

Cidades aderem ao fim das sacolas

Lilian Grasiela
| Tempo de leitura: 6 min

A partir do próximo dia 25, supermercados de várias cidades da região deixarão de fornecer aos seus clientes as tradicionais sacolas plásticas descartáveis para o transporte das compras. A iniciativa faz parte da campanha “Vamos Tirar o Planeta do Sufoco”, promovida pela Associação Paulista de Supermercados (Apas), com o apoio do Governo do Estado, visando reduzir o impacto ambiental ocasionado pelo descarte incorreto desse tipo de material. A mudança, contudo, não é vista com bons olhos por alguns setores (leia mais abaixo).

De acordo com a Apas, as sacolas plásticas estão com seus dias contados em municípios como Botucatu, Lençóis Paulista, Bariri, Pederneiras, Itapuí, Jaú, Torrinha, Barra Bonita, Igaraçu do Tietê, Pirajuí, Reginópolis, Garça, Presidente Alves e Dois Córregos. Agudos também teria manifestado interesse em aderir à campanha, que surgiu após a assinatura, em maio do ano passado, de termo de cooperação entre a entidade e o Governo do Estado.

Antes, em 2009 e 2010, projetos de lei proibindo o uso de sacolas descartáveis foram aprovados em várias cidades. Contudo, essas leis foram alvos de Ações Diretas de Inconstitucionalidade (Adi), impetradas pelo Procon, indústrias ou sindicatos de fornecedores.

Segundo levantamento feito por empresa de solução ambiental a pedido da Apas, cada pessoa utiliza, em média, 59 sacolas plásticas por mês ou 220 gramas do produto. Somente em Bauru, com a substituição das sacolas descartáveis, mais de 900 toneladas de plástico deixarão de ser descartadas por ano no meio ambiente. Como opção para carregar suas compras, o consumidor poderá utilizar os carrinhos de feira, sacolas reutilizáveis de tecido e caixas de papelão.

Em Jaú, a medida será adotada em 15 lojas. Em Bauru, 24 estabelecimentos aderiram à campanha. Já Barra Bonita e Igaraçu do Tietê, em conjunto, vão abolir o uso de sacolas plásticas em 17 lojas. A expectativa da Regional da Apas em Bauru é de que as 91 empresas associadas à entidade em 47 cidades promovam gradativamente a substituição das sacolas descartáveis.

Em Botucatu, na última terça-feira, representantes da Apas, da União ACE/CDL da cidade e da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, além de vereadores, se reuniram com donos de supermercados para discutir o assunto. “Trata-se de uma tendência nacional e Botucatu não pode ficar de fora”, declarou o presidente do Legislativo, vereador Curumim (PSDB).

O parlamentar defende que a medida deverá favorecer os próprios comerciantes do ramo. “Apesar de haver a necessidade de investimentos em campanhas de conscientização, num segundo momento, os estabelecimentos comerciais deixarão de gastar recursos financeiros com a distribuição de sacolas plásticas”, diz.

Nos supermercados de Marília (100 quilômetros de Bauru), a mudança entrou em vigor na última segunda-feira. Lei aprovada no ano passado, proibindo a distribuição de sacolas plásticas descartáveis em estabelecimentos públicos e privados da cidade, já havia antecipado a medida. No município, mais de 12 milhões de sacolas descartáveis são utilizadas por mês, valor que corresponde a 47 toneladas do material.

Ontem, o diretor regional da Apas, Erlon Godoy Ortega, visitou supermercados e lojas de Marília, inclusive em shopping centers, e constatou que a transição está sendo tranquila. A prefeitura também já começou a notificar os estabelecimentos informando que eles estão sujeitos a multas no valor de R$ 1 mil e até cassação do alvará de funcionamento se descumprirem a lei das sacolinhas. Em caso de reincidência, a multa dobra e, em três vezes, o alvará será cassado.

Em Jundiaí, cidade onde a Apas implantou o projeto-piloto da campanha, as sacolas descartáveis não são utilizadas há mais de um ano. Pesquisa recente feita pelo Ibope/Inteligência a pedido da entidade mostra que 77% da população aprova a medida e 93% apoia a expansão da campanha para todo o Estado de São Paulo.

 

“Cidade mais limpa”

Na opinião do diretor de Meio Ambiente de Barra Bonita, Paulo Rato, com o fim da distribuição das sacolas descartáveis plásticas nos supermercados, a cidade se tornará mais “limpa”. “A partir do momento em que você compra dez produtos e recebe de 15 a 20 sacolas no supermercado a cada compra, você tem de certa forma um estímulo – já que o dinheiro não está saindo do seu bolso – para colocar todo santo dia o lixo para fora”, aponta.

Com a mudança, de acordo com ele, a população deverá passar a utilizar o saco de lixo comum, diminuindo a periodicidade do depósito de lixo nas ruas para coleta, o que irá contribuir até mesmo para maior sobrevida do aterro sanitário. “A partir do momento em que você comprar o saquinho plástico, não vai querer colocar ele para fora todo dia porque você vai querer usar ele até o final”, explica.

 

Empresário não acredita na mudança e defende investimentos em conscientização

Gino Paulucci Júnior, diretor e engenheiro da Polimáquinas, empresa de Bauru que faz o corte e a solda de sacolas plásticas, não acredita que a interrupção na distribuição do material pelos supermercados dure muito tempo. “Eles (Apas) chegaram à conclusão de que as pessoas não sabem descartar e que, então, é melhor proibir. Mas o consumidor que vai no mercado e gasta não concorda em ser tutelado”, afirma.

Na opinião dele, a necessidade de manter a clientela e a lucratividade fará com que os estabelecimentos desrespeitem o acordo firmado com a Apas. “Eu duvido que 100% dos supermercados façam isso porque não aboliram a lei da concorrência ainda. Enquanto houver concorrência, várias empresas vão ‘furar’ esse acordo”, aponta. “Quando eles começaram com esse acordo, eles se propuseram a achar alternativas e, até agora, não teve alternativa nenhuma”.

De acordo com o empresário, que também é vice-presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Acessórios para a Indústria do Plástico (CSMaip) e vice-diretor da regional Bauru do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), essa mudança poderá ter efeito contrário e causar um colapso na área da saúde em bairros onde moram famílias com menor poder aquisitivo, já que muitos não podem gastar uma média de R$ 15,00 por mês ou R$ 180,00 por ano para comprar sacos de lixo comuns.

Ele critica a campanha da Apas que, segundo ele, condena apenas as sacolas plásticas descartáveis e ressalta que, do ponto de vista ambiental, os efeitos do descarte irregular de todos os tipos de plástico são iguais. “Todos os plásticos são iguais, tanto os das sacolinhas que os mercados fornecem ‘de graça’ quanto os outros plásticos que acondicionam arroz, feijão, açúcar, frango, carne, margarina, detergente, etc.”, diz. “Eles estão querendo fazer economia, citando a ecologia”.

Paulucci Júnior também chama a atenção para as alternativas oferecidas pelos supermercados aos seus clientes para suprir a falta das sacolas descartáveis. “A caixa de papelão é condenada pela Anvisa pela quantidade de bactérias e fungos que ela pode transmitir. O mesmo acontece com a sacola retornável que não seja de plástico, que seja de algodão”, denuncia. “E você não consegue ter fungos e bactérias em plástico”.

Na avaliação do empresário, ao invés de decidir pelo fim das sacolas plásticas, os municípios deveriam investir em campanhas de conscientização. “Se as pessoas estão descartando de maneira errada, elas não estão descartando só as sacolinhas plásticas, estão descartando de maneira errada todos os outros produtos que consomem. Nós precisamos dar informações para que a população saiba escolher os melhores produtos e, depois, o que fazer com eles após o uso, ou seja, encaminhar para reciclagem”, avalia.

De acordo com ele, desde que as mudanças foram anunciadas, em maio do ano passado, houve uma redução entre 100 e 150 postos de trabalho no setor de fabricação de máquinas para embalagens plásticas em Bauru.

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