Geral

Dependente de crack procura ajuda e não consegue internação

Bruna Dias
| Tempo de leitura: 6 min

Mais uma vez, o grito de socorro de um adolescente escancara a realidade cruel do crack estampada em Bauru e a falta de estrutura para atender os dependentes desta avassaladora droga. Desta vez, a vítima é um garoto de apenas 14 anos de idade, com o agravante de ser soropositivo de nascença.

Em meio às crises de abstinência e de surtos após consumir o entorpecente, ele resolveu pedir ajuda no Conselho Tutelar. Depois de passar pelo Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD), mesmo com uma ordem judicial não pôde ser internado em uma comunidade terapêutica de Votorantim por ser portador do vírus HIV. O jovem está em um abrigo no momento.

A história deste menino é apenas uma que se sobressaiu em meio a tantas outras em Bauru. Tudo começou no início da manhã de ontem, quando o garoto de 14 anos foi até o Conselho Tutelar. Ele havia fugido de um abrigo no mês de agosto e, desde então, estava vivendo na rua, consumindo e sendo consumido pelo crack.

Não há atendimento emergencial para adolescentes que decidem pela internação em Bauru. Além disso, para passar pelo Caps AD é preciso ter em mãos uma ordem judicial. Com o documento expedido pelo juiz da Vara da Família, Gilmar Garmes, o adolescente, enfim, conseguiu ser encaminhado.

“A nossa preocupação é de que ele também estava sem tomar o medicamento (anti-retroviral) desde o mês de agosto, podendo até vir a óbito por conta do vírus. Hoje (ontem) de manhã conseguimos com o juiz plantonista uma ordem judicial para que ele fosse avaliado e, se necessário, encaminhar para uma comunidade terapêutica ou hospital psiquiátrico”, destaca a presidente do Segundo Conselho Tutelar, Naiara Maria de Farias.

 

Quadro complicado

A diretora da Divisão de Saúde Mental do município, Vera Lúcia de Paula Rodrigues, frisa que todo adolescente que chega ao Caps AD, mesmo acompanhado dos pais, precisa de uma ordem judicial para passar por atendimento.

“Todo menor de idade, quando tem uma indicação de internação, seja para hospital psiquiátrico ou comunidade terapêutica, precisa ser encaminhado por determinação judicial”, esclarece.

Quando o assunto é entorpecente, atender este paciente não é tão simples quanto parece. É preciso saber primeiro se o menor está com um quadro comprometido ou em um surto psicótico. No caso deste adolescente de 14 anos, o problema é o fato dele ser portador do vírus HIV e necessitar de uma avaliação minuciosa, que também depende da  vontade dele.

“Muitos adolescentes como ele começam a desintoxicação aqui, porque às vezes não é necessário encaminhar para a comunidade terapêutica. Mas este adolescente já passou por aqui, fez acompanhamento, estava melhor, e voltou ao vício”, lamenta Vera.

 

Avaliação

Afinal, que rumo tomará o adolescente de 14 anos, mais uma vítima do crack? Segundo a diretora de Saúde Mental do  município, Vera Lúcia de Paula Rodrigues, ontem não foi possível realizar uma avaliação clínica no garoto por conta de seu quadro complicado.

Hoje ele será atendido por uma médica do Serviço de Moléstias Infecciosas (SMI), que avaliará a necessidade de acompanhamento e desintoxicação no Caps AD ou de internação.

 

Outro caso

A diretora da Divisão de Saúde Mental, Vera Lúcia de Paula Rodrigues, disse à equipe de reportagem do JC que na manhã de ontem outra garota com idade aproximada de 14 anos chegou ao Caps AD em surto psicótico.

“Ela também já passou por aqui, participou de grupos. Só que hoje (ontem) ela voltou em surto. Foi sedada, levada pela ambulância até o Pronto-Socorro Central e ficou acompanhada da mãe. De lá ela seguiria para o Hospital Thereza Perlatti, em Jaú, para ficar internada”.

 


Internação compulsória é avaliada

Em uma conversa com a equipe de reportagem do JC no início da noite de ontem, o prefeito Rodrigo Agostinho se mostrou preocupado com a situação do adolescente que procurou ajuda junto ao Conselho Tutelar e a proporção que o consumo de crack tem tomado em Bauru.

“Nós estamos elaborando um plano de combate às drogas. Converso sempre com o secretário de Saúde (Fernando Monti), com a secretária do Bem-Estar Social (Darlene Tendolo). As entidades também precisam se unir e se adaptar para que nós consigamos montar essas comunidades terapêuticas”, disse.

Para o prefeito, uma solução de efeito seria a internação compulsória. “Infelizmente, estamos estudando essa medida que é, nada mais, do que retirar esses usuários de drogas à força das cracolândias e fazer a internação deles. Mas é complicado, porque o sucesso dos tratamentos depende de cada paciente”, finalizou.

 

E as comunidades terapêuticas?

Com esses dois casos relatados pela equipe do Caps AD, novamente vem à tona a antiga discussão sobre a falta de comunidades terapêuticas em Bauru. Em novembro de 2010, a Prefeitura Municipal abriu um edital para que entidades se candidatassem para isso. Apenas duas, o Esquadrão da Vida e a Comunidade Bom Pastor, se propuseram a tentar passar pelas exigências, mas ainda não estavam aptas para atender adolescentes.

Na ocasião, o secretário municipal da Saúde, Fernando Monti, explicou que para as entidades atenderem em regime de comunidades terapêuticas e conseguirem o convênio não é tão simples, levando-se em consideração que as exigências são feitas com base em uma lei do Congresso Nacional.

“Nós temos uma legislação rigorosa em termos de documentação de uma entidade para que ela se credencie a fazer qualquer tipo de parceria com o setor público. Se eles não têm essa documentação, isso não pode ser resolvido em nível municipal, não depende de boa vontade, está em uma lei federal do Congresso Nacional”, esclareceu em entrevista ao JC em novembro de 2010.

Monti revelou ainda que o Esquadrão da Vida e a Comunidade Bom Pastor se propuseram a continuar atendendo homens na mesma capacidade, sendo que a Bom Pastor demonstrou ainda um interesse em estender o atendimento a mulheres. É aí que as exigências aparecem novamente, pois as mulheres devem ser atendidas em alojamentos separados.

 

Drama já foi relatado por mãe de usuária de crack internada 18 vezes para desintoxicação

Na edição do dia 22 de outubro do ano passado, o JC noticiou o desespero de Maria Cristina Violante, mãe de uma jovem usuária de crack. Sem mais conseguir lutar sozinha contra o vício da filha de 23 anos, ela disse que planejava ir a Brasília (DF) para entregar um abaixo-assinado à Presidência da República. O objetivo era solicitar recursos para a construção de uma clínica de recuperação para usuários de drogas em Bauru.

Na ocasião, ela explicou que a filha dependente de crack já foi internada 18 vezes para desintoxicação, mas nunca conseguiu se recuperar por não conseguir vaga em uma comunidade terapêutica, onde pudesse permanecer por um período prolongado e com tratamento adequado para sua efetiva reinserção social.

“A gente só encontra vaga em clínica particular, que cobra mensalidades altíssimas. Quero coletar assinaturas em igrejas, entidades e empresas para reivindicar uma instituição de recuperação para Bauru, que tem muitos casos de dependentes químicos”, descreveu.

Comentários

Comentários