Os leitores com mais de 50 anos de idade com certeza vão lembrar de um carro fabricado pela Renault, o famoso Gordini II. Um carrinho valente, que andava muito, mas todo proprietário tinha que levar, por precaução, um litro de água e um punhado de estopa. Isso porque se tratava de um carro com motor europeu.
A bomba de gasolina esquentava e aí não puxava gasolina de jeito nenhum e, consequentemente, o carro não andava. Aí a solução era apanhar um punhado de estopa, embeber com bastante água e colocar em cima da bomba de gasolina para esfriá-la. Assim que a bomba esfriasse, ela passava a puxar gasolina e tudo bem.
Nos anos 1970, tinha uma pessoa, que era considerado por mim um de meus melhores amigos. Tratava-se de um afrodescendente que se chamava Aparecido, mas que tinha apelido de Dito Preto. Era um amigão. A gente sempre saía junto, frequentava as quermesses e no fim de semana sempre aparecia uma pescaria.
Certa feita, fomos pescar no Ribeirão dos Porcos, ali pelo lado de Borborema. E a estrada, naquela tempo, de Pederneiras até Borborema era de terra. Resolvemos voltar. Era mais ou menos 8 horas da noite quando, logo após passarmos por Boracéia, ao atingimos um pedaço plaino da estrada, deparamos com um caminhão carregado de terra, encalhado na estradinha, que mal dava para parar com o Gordini.
Foi aí que aconteceu uma das cenas mais hilariantes que vi. O Cidão Preto, todo prestativo, chegou para o motorista que estava nervoso com aquela situação e perguntou: "Quer que reboca?" Aquilo deixou o motorista mais nervoso ainda, e o Cidão com aquela calma que Deus lhe deu, pegou um pedaço de cabo de aço amarrou na traseira do Gordini, enganchou na frente do caminhão e entrou no Gordini e deu uma acelerada tão forte que parecia um Boeing querendo levantar voo.
Por incrível que pareça, o Cidão conseguiu tirar o caminhão que estava encalhado. Mal eu acreditava naquela cena. No exato momento em que o Cidão tirava o cabo de aço do caminhão, olhei para o Gordini, não consegui vê-lo, pois era só fumaça que envolvia o carro. Gritei para o Cidão: "Cidão, seu carro está pegando fogo". Foi quando ele olhou para o Gordini e exclamou, colocando as duas mãos sobre a cabeça: "Meu Deus do céu, esqueci de soltar o freio de mão".
Domicio Iamashita é advogado, pescador (quando dá) e contador de histórias