As ruas de Bauru ganham, por dia, aproximadamente novos 40 carros. Enfileirados, eles ocupam o trecho de uma quadra e meia. Em um ano, alcançam a distância de quase 60 quilômetros, a mesma que separa Bauru do município de Pirajuí.
Até novembro do ano passado, o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) contabilizava 216.423 veículos licenciados na cidade, quase o dobro do o número de dez anos atrás, quando havia apenas 116.633 automóveis, motos e caminhões em circulação. O aumento no período foi de 85%, bem acima dos 9% referentes ao crescimento populacional da última década.
Somente nos quatro anos que se passaram, foram registrados 55 mil novos emplacamentos em Bauru, impulsionados pelos incentivos do governo federal para recuperar a indústria automobilística prejudicada pela crise mundial. Saturada, a malha viária foi posta em condição limite e demanda a criação de alternativas para o tráfego para, ao menos, desafogar os grandes gargalos das vias mais carregadas.
O poder público, dentro de sua capacidade orçamentária, tem adotado algumas medidas para reduzir o impacto deste enorme problema urbano, entre elas a recuperação de viadutos, recapeamento de artérias e possíveis rotas alternativas, além de estratégias mais simples, como implantação de semáforos e binários para dar maior fluidez ao tráfego. Entretanto, projetos já prontos que requerem grande investimento - como a construção das avenidas Água Comprida e Água do Sobrado - ainda permanecem no papel (leia mais abaixo).
Embora haja preocupação em melhorar os equipamentos públicos para o transporte coletivo e cicloviário, a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb) reconhece que os maiores investimentos precisam se voltar ao transporte individual, que não para de crescer na cidade. Ainda neste semestre, o prefeito Rodrigo Agostinho se comprometeu a pavimentar um trecho de 16 quadras da avenida Rodrigues Alves, entre as avenidas Nações Unidas e Pedro de Toledo.
No mesmo período, deve concluir o viaduto inacabado e entregar à população o viaduto Mauá recuperado, assim como seu "vizinho", a alça do viaduto 9 de Julho. Esta última obra é estimada em R$ 1,2 milhão e deverá melhorar o tráfego dos dois sentidos da ligação entre a área Central da cidade e a região da Vila Falcão.
No ano passado, outras obras que deram maior vazão ao fluxo de veículos em pontos críticos foram a duplicação do trecho de pista simples da avenida Comendador José da Silva Martha e a conclusão da avenida Nações Unidas Norte.
Semáforos e binários
Também em 2011, a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb) providenciou a instalação de novos semáforos e dos chamados binários viários, que nada mais são do que um sistema formado por ruas paralelas, de sentido único e em direções opostas. Foi o que ocorreu, por exemplo, com ruas que até então funcionavam com mão dupla, como a Alto Juruá e Alto Purus, no Jardim Bela Vista, e Constituição e Benjamin Constant, no bairro Higienópolis.
Novos binários e os semáforos continuarão sendo implantados em 2012, segundo garante o diretor de sistema viário e transportes da Emdurb, Ewerton Mussi Hunzicker. "Neste ano, colocaremos, por exemplo, mais três semáforos na rua Capitão Gomes Duarte, onde os carros ainda encontram dificuldades para transpor alguns cruzamentos. Esta via forma um binário com a rua Joaquim da Silva Martha e a ideia é que funcione como rota alternativa à Duque de Caxias", pontua.
No ano passado, foram 14 novos semáforos instalados e, para 2012, há previsão de outros 12, além da substituição de 30 conjuntos antigos por lâmpadas de LED. "A partir de março, pretendemos trocar cinco grupos focais por mês e a prioridade será dada às avenidas Rodrigues Alves e Duque de Caxias, onde a visibilidade fica mais prejudicada ao nascer e pôr-do-sol", detalha Hunzicker.
Outro projeto que pode ser implantado ainda neste ano, segundo ele, é a instituição de corredor exclusivo de ônibus coletivo entre as quadras 1 e 8 da avenida Nações Unidas, onde seria proibido o estacionamento de veículos. "Com isso, teríamos o primeiro corredor exclusivo em Bauru, dentro de um plano que, se der certo, poderá contemplar outras regiões da cidade", adianta.
Plano de Mobilidade
Para tentar melhorar a qualidade da movimentação de veículos e pedestres nas ruas da cidade, a prefeitura pretende levar à votação da Câmara Municipal, ainda neste semestre, o Plano Diretor do Transporte e Mobilidade de Bauru. Anunciado em março de 2010, o projeto tem como objetivo traçar um diagnóstico do deslocamento dos bauruenses, as rotas mais usadas, os obstáculos enfrentados e propor soluções, como investimentos em meios de transporte alternativos, sustentáveis e até novas vias para melhorar o fluxo de condutores, pedestres e ciclistas.
As audiências promovidas no ano passado discutiram e estabeleceram prioridades para solucionar os problemas detectados em visitas realizadas em toda a área urbana e rural da cidade, que foi dividida em 15 setores. Das reuniões, participaram membros do Núcleo Gestor do plano, composto por representantes do poder público e sociedade civil, da qual participam entidades como conselhos municipais, organizações não-governamentais, sindicatos e professores de universidades.
Sendo aprovado pelos vereadores, o plano ? que agora ganha força com a Política Nacional de Mobilidade Urbana, sancionada no último dia 4 pela presidente Dilma Rousseff ? servirá como suporte para o município reivindicar recursos junto ao Ministério das Cidades para implantar melhorias no sistema viário. (TM)
Em 2010, especialistas apontaram soluções
Em agosto de 2010, especialistas consultados pelo Jornal da Cidade apontaram quais seriam as principais soluções para desafogar o trânsito de Bauru. Afora as medidas que já estão sendo adotadas pelo poder público, o professor Archimedes Azevedo Raia Junior, coordenador do Núcleo de Estudos Sobre Trânsito da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), apontou que a transposição da avenida Cruzeiro do Sul, por meio da construção de um viaduto sobre a rodovia Marechal Rondon, seria uma das ações mais urgentes.
Também sugeriu a retirada da malha férrea da área central da cidade e a criação de corredores exclusivos de ônibus articulados (com maior capacidade de transporte de passageiros) para interligar a zona Leste à Oeste, com a construção de dois terminais de integração para o transporte público, instalados nesses dois extremos.
Propôs ainda certas adaptações impopulares, mas necessárias, como a proibição de estacionamento na avenida Nações Unidas e nas ruas Primeiro de Agosto Azarias Leite, Rio Branco, Treze de Maio e Gérson França. Já o arquiteto da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan), Adelmo Bertussi, apontou a necessidade de construção de um viaduto para ligar a rodovia Marechal Rondon à região do Bauru Shopping, próximo à Base de Policiamento Rodoviário, o que seria uma forma de diminuir o trânsito intenso da avenida Nações Unidas e sua marginal, na altura da quadra 34.
Bertussi lembra ainda que ampliação do diâmetro da rotatória Primaz Chujiro Otake (Praça do Relógio) - para onde convergem cinco vias ? continua sendo uma das prioridades da administração e só não avança por conta do processo de desapropriação, que demanda recursos milionários para ser concluído.