Polícia

Usuária de crack agoniza na rua esperando socorro

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 6 min

Um drama cada mais frequente na cidade se repetiu na madrugada da última quinta-feira. Uma usuária de crack agonizava na via pública e os serviços de socorro de urgência e emergência negligenciaram o atendimento (em razão da enorme demora na ação). A denúncia foi feita ontem por uma moradora da rua Judith França Costa,  proximidades da favela de São Manoel, que preferiu não ser identificada por questões de segurança.  


De acordo com a denunciante, uma jovem, aparentando 18 anos, gritava e pedia socorro em frente sua casa, na madrugada de quinta-feira. “Estava acompanhada por quatro rapazes que fugiram assim que eu e minha mãe tentamos socorre-la. Um deles ainda gritou que o nome dela era Aline e que ela morava em Botucatu.”


Os pedidos de socorro tiraram o sossego da família da denunciante. “Acordamos assustadas e ligamos, de imediato, para o Samu. Explicamos a situação e eles não compareceram para atender. Insistimos nos telefonemas e nada aconteceu. O atendimento foi feito pela Unidade Resgate dos Bombeiros, mas depois que ligamos para a polícia e ameaçamos denunciar para a imprensa.”


Enquanto o socorro não chegava, segundo a denunciante, vários procedimentos foram adotados por ela, na tentativa de salvar o ser humano que agonizava em sua porta. “Ela enrolava a língua e eu cheguei a colocar meu dedo na boca dela para evitar que ela morresse. Minha mãe pegou uma colher  e tentamos desenrolar a língua dela. Ela babava e em determinado momento pensei que ela tinha morrido.”


O atendimento demorou uma hora e meia, segundo a denunciante. “Eu expliquei para o atendente do Samu o que estava ocorrendo e eles nem davam importância. Teve um momento que ela levantou e quase foi atropelada por um veículo. Os meninos que a acompanhavam disseram que faziam três dias que ela não dormia, não comia, só consumia crack, por isso, seu olho estava vermelho e inchado. Ela vomitava e babava, uma situação horrível.”


Na sexta-feira, a mulher tentou localizar a vítima em um dos hospitais de Bauru. “Minha mãe tentou acha-la, mas não a encontrou. Ficamos pensando que ela tivesse morrido.”

Internada no Pronto Socorro

 

A jovem Aline está internada no Pronto Socorro Central e aguarda uma vaga em um dos hospitais psiquiátricos de Bauru e região, segundo informações do Serviço Social do PS. Ela continua sem identificação completa, porque não portava documentos. A família dela, possivelmente de outra cidade, não havia sido localizada.


O diretor do Samu, médico Carlos Sacomandi, disse ontem que só poderia dar informações pontuais sobre o caso com a ficha do atendimento e da paciente na mão. Explicou que cabe ao médico regulador de plantão autorizar a saída da viatura para o atendimento.


“Entre uma dor ortopédica e um infarto, a prioridade de atendimento é o infarto. Não depende da ordem do chamado e sim da urgência que o caso exige. Quando a atendente passa a ficha para o médico, ele decide se é prioridade ou não. Nesse caso específico, só com a ficha em mãos eu poderia comentar qual foi o procedimento adotado.”


O diretor frisou que o atendimento clínico é função do Samu. “O Resgate fica com as vítimas de acidentes, presos em ferragens, etc. Os casos de pessoas que abusam do uso de drogas ou que estão sofrendo com abstinência, são cada vez mais presentes nos plantões. Há ainda aqueles que alterados  agridem os familiares”, comenta.

Só a esperança pode provocar a mudança...

 

Há mais de um ano visitei a ‘cracolândia’ de Bauru, um espaço sob o viaduto da Azarias Leite, 13 de Maio, que se estende pelos trilhos da ferrovia, no coração da cidade. Encontrei jovens, adolescentes e pessoas com mais de 40, na mais perfeita desordem, física e mental. Á época, a matéria foi manchete e chocou a população bauruense que se manifestou estarrecida por não saber que a situação era aquela.


Zumbis ambulantes que, pelos mais diversos motivos não me sinto a vontade para apontar erros e acertos dos outros, trocaram a vida pelo ‘suicídio’. Já não vivem mais, vegetam, se arrastam e a cada dia mostram para a atual sociedade que temos de avançar na busca pela evolução do Ser Humano e não pelo consumismo desenfreado.


Filosofias a parte.  Decidi emitir minha opinião porque me deparo com inúmeras matérias borbulhando nos sites de notícias, nas rádios, nas TVs, enfim em todos os meios de comunicação sobre uma operação da polícia na cracolândia de São Paulo. Sobre isso, um soldado que cumpre ordens do comando desabafou: “Você prefere tratar um câncer localizado ou espalhado pelo corpo todo?”


Não precisa ser médico para saber que o localizado é mais facilmente exterminado.  Sobre a tática anunciada pela Prefeitura de São Paulo, de “dor e sofrimento” para obrigar os usuários do crack a pedir ajuda para sair da dependência, a melhor frase ficou com o padre Júlio Lancelotti, vigário episcopal para a população de rua que classificou a ação de tortura. Ele disse à Folha de São Paulo:  “Dor e sofrimento levam ao desespero. Só a alegria e esperança podem provocar a mudança.”


Eu gostei da declaração dele. Porque somos assim, temos que ter uma motivação para dar um passo a frente. O uso de drogas é um problema social, de saúde pública, fomos nós em conjunto que criamos esses zumbis. Cabe á polícia, na minha mais singela opinião, investir para prender os traficantes e não os microempresários do setor,  que em sua maioria são usuários que vendem para sustentar o vício.


Mas voltando a declaração do padre, eu questiono: qual a motivação que um Ser tem para sair dessa situação? Ele já perdeu tudo, a família, a vergonha, a moral, os sentimentos, a vida... Está só o ‘caco’, a forma física, ainda que debilitada.


Quem criou a lei que proíbe a internação compulsória foi no mínimo infeliz. Qual família, ou melhor, qual mãe, ainda que o sujeito não tenha família, está  satisfeita em saber que o filho está usando drogas?  Não adianta espalhar os usuários pela cidade de São Paulo, temos que trata-los, eles aceitem ou não. A Saúde é direito de todos.


Nosso silencio diante de situações como essa me faz acreditar que a sociedade quer empurrar o problema com a barriga. Acreditar que o crack só vai chegar na casa do vizinho e que isso é um problema do Estado é negar direitos, mas acima de tudo, negligência.


Bauru não está livre do problema. Constatei isso in loco. “Basta fazer uma visita a ‘nossa cracolândia”. É deprimente ver  seres humanos sujos e largados em meio a restos de comida, fezes, urina....acompanhados de animais peçonhentos.  Enquanto a população achar que não tem nada com isso, com toda certeza, as drogas vão ganhar espaço.  


É preciso entender que muitos que estão na cracolândia sofrem de carência. Não só financeira, caso contrário o Cazuza jamais teria sido usuário de cocaína. O problema é emocional, psicológico, espiritual sei lá....


Cabe as autoridades enxergarem  o problema como ele é.  Indo aos locais e tomando decisões sérias que solucionem ou amenizem o problema. Levar sanduíche para os drogados e mandar a polícia revista-los é brincadeira...


Não estou aqui para ditar regras, nem posso, não fiz nenhum estudo aprofundado sobre o uso do crack, mas, nem precisa ser especialista para saber que a ausência da família, educação, saúde e religião são itens que não podem faltar para o Ser Humano. Por isso, vamos arregaçar as mangas e ‘lutar’ porque a corrupção corre solta enquanto aqui embaixo, o povo sofre e me perdoe, não é com mais dor que eles vão enxergar um caminho ....

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