Último dia do ano. Passava das 20h. Senti vontade de andar um pouco. Na verdade, não estava à vontade. Alguma coisa me perturbava. Comecei a andar no meio de centenas de pessoas. Aquela sensação estranha, esquisita, me perseguia. Pensei: Por quê? Não há motivos para isso! Tenho um bom emprego. Minhas contas estão em dia. Estou bem de saúde. Minha esposa me ama e meus filhos são saudáveis e comportados. Procurando manter a calma, tentei concluir que era uma pessoa correta. Achava-me ter uma boa personalidade, um bom caráter, fator importante e marca registrada na sociedade em que vivia. Não havia jeito, a coisa piorou. Senti vontade de esconder-me em algum cantinho do nada.
Daquelas centenas de pessoas andando pelo Calçadão, apareceu uma menina, 12 ou 13 anos de idade. Raquítica e mal vestida. Mesmo reconhecendo ter um rosto esquelético, percebi que era meigo e irradiava-me simpatia. Atropelou-me com os olhos apagados e um sorriso que na verdade era um pedido de socorro. Parou em minha frente, como se quisesse impedir minha passagem. Seu olhar buscou o meu, e assustou-se quando lhe sorri. Esbocei falar-lhe, mas saiu em desabalada carreira, como se atravessando as pessoas. Perdi-a no meio daquela multidão de pedestres que se embaralhavam procurando espaço para locomoção.
Perguntei-me se realmente a tinha visto, ou fora objeto de minha imaginação. O acontecimento fez-me perceber que o que me incomodava, não me perturbava mais. Só ficou na lembrança aquele corpinho quase invisível, embrulhado em roupas rasgadas e depois perdendo-se na multidão. Veio a triste descoberta. "Era egoísta!". Tinha tudo. Bom emprego, boa saúde, esposa e filhos saudáveis. Até aquele momento, achava que por ser correto e de bom caráter, Deus não fazia mais que a obrigação de proporcionar-me tudo que tinha. Achava-me com direito a tudo isso e nunca considerei os direitos dos outros. "Caiu a ficha" da inconsciência e insensibilidade.
Generosidade, fraternidade?... Ah!... nem pensar! Como por encanto, quase (ou senti) alguém colocando a mão sobre minha cabeça. Lembrei-me da menina, que em seu sorriso pedia-me socorro. Agora sim, entendia. O socorro era para mim, pelo meu egocentrismo, minha individualidade, e minha indiferença com os acontecimentos externos. Sentia-me mais leve. Olhei no relógio e já passava da meia noite. Fui correndo para casa... preocupado. Minha esposa e filhos esperavam-me no portão. Por incrível que pareça não demonstravam preocupação. Pelo meu semblante, sabiam que eu estava bem.
Agradeci a Deus, já no ano novo, por ter me dado a chance de correr atrás do futuro e socorrer as pessoas mal vestidas e raquíticas. De não deixá-las fugir pelo mundo afora. Tinha certeza que meu ano novo seria diferente, com mais generosidade e fraternidade.
Luiz Carlos Pasquarelo