Ciências

Vacinas e anticorpos: uma indústria!

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 3 min

O espermatozoide resolve fecundar o óvulo, ou vice-versa: teremos a formação de um novo ser. No corpo que se forma, todas as proteínas serão registradas. Depois que nascemos, este registro se fecha e ninguém mais entra na memória construída na vida intrauterina.

Nos objetos temos metais, madeiras, plásticos e vidros; no corpo temos proteínas, lipídeos e carboidratos. Somos um monte de água e de proteínas, o resto é bem menos e serve para dar energia ou complementar as proteínas. Mudar nossas proteínas ou entrar proteínas novas não são atitudes bem vistas pelo nosso corpo: temos que ficar como inicialmente planejados e assim ficaremos até morrer! Faz parte da natureza humana.

Se alguma proteína entra na intimidade dos tecidos, deve ser identificada, checada, pois proteínas não ficam circulando por aí à toa, soltas e livres. Ou alguma célula foi morta ou esta proteína deve ser estranha! Sim, bactérias, vírus, fungos e parasitas são formados por proteínas diferentes das nossas, mas proteínas!

Nossos policiais, que circulam pelas vielas corporais e vasos sanguíneos recebem o nome de leucócitos ou glóbulos brancos, abordam esta proteína, checam sua estrutura e conferem em nossos arquivos de memória: é estranha ou gente nossa? Os policiais ou células especiais que fazem este serviço de abordagem e reconhecimento são os macrófagos. Ao concluírem pela estranheza da proteína, os macrófagos convocam os linfócitos T4 ou auxiliar, uma célula muito especial, um maestro biológico, que entendem o pedido e a necessidade: precisamos fabricar armas para atuar contra esta proteína estranha que acabamos de identificar.

As primeiras armas que necessitamos são os anticorpos, um tipo de proteínas que grudam e marcam as estranhas intrusas, denunciando às células onde estão e que devem ser eliminados. Todas células sabem que deverão eliminar quem tem aquela proteína estranha com anticorpos grudados . O conjunto destas reações se chama resposta imunológica que ficará memorizada a vida toda no corpo: entrou esta proteína, aumenta a produção deste anticorpo e as reações recomeçam. A pessoa não fica mais doente, ficou imunizada pelo resto da vida ou boa parte dela. Para cada proteína estranha uma resposta diferente: para cada vírus ou bactéria, uma resposta específica. Os anticorpos são essenciais por iniciarem o ataque aos invasores!

Fabricar anticorpos é como construir carros ou armas no corpo. As fábricas estão nas células chamadas plasmócitos, mas precisa de peças que vem do fígado, ou importa do baço, as vezes vem da medula ou se fabrica peças dentro dessas células. Tudo tem que ser montado e os modelos e tipos de anticorpos tem que sair perfeitos em apenas algumas horas ou dias. Dá um trabalho danado para colocar os anticorpos aos montes como carros circulando pelo corpo via sangue. As matérias primas são proteínas, carboidratos e lipídeos entregues no intestino quando nos alimentamos bem. As peças são enviadas aos plasmócitos via sanguínea, as mesmas estradas usadas para se espalhar os anticorpos prontos pelo corpo.

Quando vem a notícia: estão produzindo uma vacina contra o HIV, malária, gripe, doença de Chagas e outras doenças em animais, significa que estão aprendendo a induzir a montagem de fábricas experimentais de anticorpos, ou plasmócitos, para depois fazerem o mesmo em nossos organismos. Mas como?

Os vírus ou bactérias são quimicamente inativados ou mortos, permanecem inteiros ou fragmentados, e são injetados nos animais ou homem: a resposta imunológica começa com a produção de anticorpos e nos dará a devida proteção. Mas por que não são tão facilmente obtidos em certas vacinas? Preparar estes microrganismos com segurança para não transmitir a doença e ao mesmo tempo induzir imunidade requer muito trabalho de pesquisa. Ainda assim alguns vírus ficam mudando sua estrutura periodicamente só para nos complicar e se defenderem, como o vírus da gripe!

Isto mesmo, as vacinas são fragmentos ou "cadáveres" de microrganismos muito bem tratados industrialmente para serem injetados e ensinarem nosso corpo a reagir contra seus semelhantes vivos, se um dia entrarem na intimidade de nossos tecidos! Seria como processar alimentos: deixá-los secos, moídos, mas ingeríveis, no caso injetáveis! No mundo científico, tecnológico e industrial, nosso país está muito desenvolvido na produção de vacinas com o Instituto Butantã dando exemplo de competência para o mundo.

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