É louvável a intenção de qualificação profissional para nossos jovens estudantes, objetivo do programa ?Ciências sem Fronteiras?, do governo federal. Este programa visa estimular o avanço da ciência, tecnologia, inovação e competitividade com o intercâmbio internacional dos pesquisadores, estimulando e subsidiando a presença de jovens talentos brasileiros nas universidades do Exterior.
No mundo acadêmico, é fato reconhecido serem os programas de pós-graduação uma das formas mais eficazes de se prover desenvolvimento científico, tecnológico e cultural. O ato de exportar jovens para estudar fora de seu país começou nos EUA, na primeira metade do século 20, seguido pela França, em meados da década de 50. Após o sucesso da experiência dos EUA e da França, o Japão e grande parte da Europa acompanharam este modelo de aprendizagem, valorizando os cursos de pós-graduação.
Hoje, essa modalidade de ensino vem se firmando cada vez mais no Brasil, com um contingente estudantil de 150 mil inscritos nas pós-graduações. A primeira bolsa para estudar no Exterior concedida no Brasil foi dada a Carlos Gomes por Dom Pedro II.
O primeiro curso de mestrado no Brasil teve início em 1964, na área de eletrônica do ITA, e a primeira escola a ter doutoramento foi a Unicamp, em 1970, na área de física. Tudo muito recente em nosso país. Atenção e ações de apoio governamentais mais amplas para concessão de bolsas para estudo de pós-graduação no Exterior começaram a se intensificar com o governo Sarney, quando foram disponibilizadas 1.000 bolsas por ano. Antes a cota era de, no máximo, 20 bolsas por ano. O governo Dilma, com o programa Ciências sem Fronteiras, tem como meta disponibilizar 100 mil bolsas por ano, segundo o Ministério da Educação. Programa importante. Mas devemos ter cuidado com os critérios para incluir as universidades que integrarão o Ciências sem Fronteiras.
Com um olhar crítico, mas construtivo, devemos ter cuidado para não ficarmos à mercê ou nós deixarmos iludir com as caravanas de reitores de escolas de outros países, as quais vêm à caça de nossos estudantes para suas universidades com cursos de pós-graduações de qualidade inferior aos oferecidos por nossas instituições, visando apenas alicerçar o crescimento de suas escolas com verba brasileira.
O Brasil tem hoje uma eficiente escola de pós-graduação. Novos investimentos nestes centros de excelência e a criação de outros centros de boa qualidade são fundamentais para o desenvolvimento dos nossos talentos. A proposta de trazer do Exterior 600 experientes pesquisadores internacionais talvez seja o ponto vital do projeto, pois estes serão disseminadores do conhecimento para um maior número de nossas academicos. Os EUA, após a Segunda Guerra, recrutou e acolheu os cientistas alemães. Deste modo, tiveram grande desenvolvimento científico. Hoje, as grandes universidades dos EUA têm em seu corpo docente mais de 50% de professores estrangeiros expoentes em suas áreas, no Brasil esse número não passa de 1%.
Louvo o programa, mas fico preocupada com o esvaziar de nossas escolas de pós-graduação e com o absorver de nossos melhores talentos pelas escolas para onde foram enviados. Não seria melhor uma dose mais moderada de disponibilidade de bolsas para o Exterior a nossos estudantes?
A captação de grandes cientistas estrangeiros, para reforçar nosso bom quadro de professores não seria mais eficiente para o País? Será que esta grande dose de exportação de talentos não poderá provocar uma evasão de nosso capital intelectual?
Este programa pode ter o viés de funcionar como a exportação brasileira, onde enviaremos nossas commodities intelectuais para posteriormente corrermos o risco de perdermos nossos capitais intelectuais já manufaturados. Pensemos nisto.
A autora, Telma Gobbi, é médica e colaboradora de Opinião