Cultura

O sitiante prosador

Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 3 min

Memórias que abrigam uma cultura vivida "na roça", situações familiares e hábitos de quem viveu por vários anos na zona rural. Essas são algumas das narrações de "A Garupa da Memória", que revivem a vida do sitiante prosador Geraldo Negrão Machado, mais conhecido como "seo" Geraldo.

Nascido no sítio Guarantã, próximo ao distrito de Irapé, no município de Chavantes (SP), Geraldo tem 92 anos e sensibilidade de sobra para retratar fatos do passado.

Em sua obra, com mais de 400 páginas, o escritor faz um verdadeiro resgate de momentos marcantes de sua vida no sítio. São mais de 100 crônicas que formam um nítido retrato falado do ser humano que habitou o médio Paranapanema no século XX.

Ao ler o livro, as memórias de Geraldo conseguem nos levar para outra época, através de palavras que remetem o cheiro da terra, o calor do sertão, os borrifos de chuva, a placidez das árvores e os cantos dos pássaros.

"Nessas crônicas, eu relato histórias de vida e situações do passado. Para o presente, minha memória não é muito boa, mas quando se trata de passado... rapidamente surgem as lembranças", brinca o autor. "Procuro contar coisas da minha vida, da vida da minha família, da vida vivida na roça, na cidade em que morei, sobre as pessoas que tive convivência... Minha origem é simples e os assuntos que eu abordo estão ligados à vida no meio rural. É a memória de uma época", ressalta senhor Geraldo.

Cheio de disposição mesmo com idade já avançada, Geraldo conta que começou a escrever no final dos anos 90. Sua primeira crônica publicada foi a "A Verdadeira Vera", aos 79 anos de idade, no Jornal da Divisa de Ourinhos. Passou a escrever também como colaborador do jornal Debate de Santa Cruz do Rio Pardo. Inclusive, os mais de cem textos de "A Garupa da Memória" foram publicados nestes dois veículos.

Através das suas crônicas, Geraldo conheceu Luiz Carlos Seixas e Neusa Fleury, que em 2005, através da Lei de Incentivo à Cultura e da Tecnal de Ourinhos, publicaram o livro "O Celeiro da Memória" com 79 de seus artigos.

E agora, ao completar seus 92 anos, Geraldo tem as suas 198 crônicas publicadas no livro "Na Garupa da Memória", novamente incentivado por Seixas. A publicação recebeu apoio da Prefeitura e da Secretaria da Cultura de Chavantes.

A renda total da venda dos dois livros foi doada pelo escritor à Rede de Combate ao Câncer de Chavantes, onde sua filha Cristina é voluntária. "Dona" Nelly, a esposa de Geraldo, faleceu de câncer em 1984.


Contador de histórias

Antes dos textos virarem crônicas, eles eram contados oralmente por onde "seo" Geraldo passava. Mas foi Maria Helena Cadamuro, funcionária do Museu Histórico de Chavantes, uma das ouvintes mais atentas e fiéis, que fazia questão de escutar com entusiasmo suas histórias.

"O senhor Geraldo sempre morou no sítio, mas era uma pessoa muito estudada. Como sempre foi muito culto, passava por museus, bibliotecas, sempre contando suas histórias de vida relacionadas com o passado", recorda Maria Helena. "Eram observações riquíssimas do cotidiano. Quando ele contava estas histórias, eu pensava comigo: ?Meu Deus, esta é a memória da cidade?. Eu queria gravar, mas ele não deixava", conta.

No início de 1998, o então "contador de histórias" chegou com um texto datilografado, "A Verdadeira Vera", e entregou à Maria Helena. "E me permitiu enviar o texto aos repórteres Montezuma Cruz e Aurélio Alonso, que o publicaram no Jornal da Divisa. Montezuma passou a chamá-lo de ?sitiante e prosador?", salientou Maria Helena.

Após a primeira publicação de uma de suas crônicas, Maria Helena conta que Geraldo não parou mais de escrever. "Ele se sentiu motivado e, ao invés de somente contar suas histórias, passou a escrever. Continuei a enviar seus textos ao jornal depois de passá-los a limpo como ele pedia, pois os trazia datilografados na sua velha Olivetti", lembra a funcionária.

"Seo" Geraldo parou de escrever, mas não de contar suas histórias e colecionar admiradores por onde passa. "Ele continua vindo ao Museu e sempre nos traz uma nova história", brinca Maria Helena.

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