Com título de Cidadão Bauruense recebido em março de 1975, Edson Arantes do Nascimento tornou-se oficialmente um ilustre filho da Cidade Sem Limites. Nascido em Três Corações, Minas Gerais, o filho de "seo" Dondinho conquistou em sua última visita à Bauru, o que o mito eternizado como Pelé já tinha garantido. É o que o livro "Primeiro Tempo - o início da trajetória de Pelé com imagens e depoimentos inéditos", apresenta.
"O Pelé que conhecemos nasceu nos campinhos de terra de Bauru e daqui saiu para brilhar no Santos", garante Luciano Dias Pires, jornalista e editor do "Bauru Ilustrado", testemunha ocular das exibições do menino Pelé no Baquinho e em outras equipes de Bauru.
Há alguns anos, Luciano tem sido procurado por historiadores e jornalistas de todo o País que buscam relatos do início da trajetória do maior jogador de futebol de todos os tempos. Foi assim que foi contactado para fazer parte do seleto grupo de depoentes que contribuíram para a obra escrita por Benedito Ruy Barbosa, jornalista e novelista consagrado, autor de sucessos como O Rei do Gado, Terra Nostra e Pantanal, amigo íntimo do Rei que também deu seus próprios comentários no livro.
Junto com Luciano Dias Pires estão Carlos Alberto Torres (capitão do tri), Clodoaldo, Coutinho, Pepe, Mengálvio, Franz Beckenbauer (ídolo do futebol alemão), Henry Kissinger (secretário de Estado dos EUA no governo Nixon e amigo de Pelé do tempo do Cosmos), Jô Soares, João Havelange, Rivellino, Tostão, Zagallo e Zito. Todos conheceram o Rei enquanto trilhava sua brilhante carreira, mas nenhum deles teve o privilégio de Luciano, que acompanhou Pelé antes da "coroação".
"Eu vi muito Pelé jogar num campo de terra em frente ao antigo estádio do Noroeste, aquele que pegou fogo. Era perto de onde ele morava. Estava sempre jogando futebol naquele local. Nos dias de jogo do Noroeste, lá parávamos para ver aquela molecada jogando. Sempre despontava a figura daquele garotinho fintando todos os adversários e fazendo jogadas mirabolantes", conta o noroestino de coração.
Em campos ruins, Pelé jogou com bola de capotão. Em seu período de atividade, o homem se orgulhava em correr 100 metros em 12 segundos. O que seria do rei do futebol se estivesse em atividade no chamado futebol moderno?
"Só quem acompanhou a sua carreira e teve o privilégio de ver como Pelé jogava pode imaginar o que ele seria no mundo de hoje", diz no prefácio do livro, Fausto Silva, também conhecido como Faustão, hoje apresentador e que foi repórter de campo das rádios Jovem Pan e Globo e repórter esportivo do jornal O Estado de S. Paulo.
Pelé no Norusca
Luciano conta que quando começou a surgir nos campinhos de Bauru, todos se referiam a Pelé como Edson, o filho de Dondinho, centroavante que veio de Minas para jogar no BAC (Bauru Atlético Clube) como um exímio cabeceador. "Dondinho tinha o apelido de ?Maleável?, porque, quando subia para cabecear, se contorcia todo no ar e enganava o zagueiro. A própria imprensa, quando noticiava sobre seu filho, às vezes o chamava de Pelé, outras vezes de Edson. Quando via o Pelé jogar nesses campos de terra, eu parava para ver e achava sensacional. Até falava pro Dondinho: Poxa, você precisa arrumar mais um Pelé para nós!".
Aos 15 anos, Pelé foi treinar no Noroeste, ao lado do pai Dondinho que agora seria auxiliar técnico da Maquininha. O garoto jogou três partidas amistosas pelo Alvirrubro (conforme comprovado com foto oficial já publicada em edições passadas do Bauru Ilustrado) e, em agosto de 1956, mudou-se para Santos onde jogaria no time da Vila Belmiro.
?Um centavo vestido de gente?
Em um dos testemunhos do livro, Luciano Dias Pires conta com detalhes uma passagem da carreira do ainda menino Pelé, que já enchia os olhos de quem o assistia, antes mesmo de chegar ao Santos.
"Em março de 1954, Nicola Avallone Junior arrumou um jogo preliminar para o Baquinho. O jogo era América de Rio Preto contra Associação Desportiva Araraquara, na Rua Javari. Pelé tinha 14 anos. No dia, ele ficou para trás e não entrou com delegação no campo. Ficou para comprar pipoca ou amendoim. O porteiro brecou questionando o que aquele franzino garoto queria. ?Mas que jogador com esse tamanho??. Ai o goleiro veio e falou que ele era mesmo jogador juvenil".
O porteiro nem poderia imaginar o que o menino atrasado, que de tão pequeno parecia envolto em lençóis dentro do uniforme do time bauruense, poderia fazer naquele campo.
"Nesse dia eu estava ouvindo a transmissão do Campeonato Paulista pela Rádio Tupi de São Paulo. O Aurélio Campos, narrador titular, em um momento da transmissão, fez uma chamada pelos campos onde estavam os locutores informando sobre os jogos da rodada do campeonato. Aí ele chamou o Milton Camargo, que era o segundo locutor da Tupi, e perguntou: ?Milton, e aí, na Rua Javari, o jogo do América contra a Desportiva de Araraquara, como é que está??. Disse o Milton: ?Aqui a torcida está chegando com bandeiras e a gente espera um público entusiasta?. E acrescentou: ?Aurélio, aqui na preliminar tem um garotinho, é um centavo vestido de gente...o que ele faz no campo é i-na-cre-di-tável! Cada vez que ele pega na bola, a torcida fica em pé aplaudindo?. E realmente, o Pelé abafou naquele jogo e o Baquinho ganhou por 12 a 1 com cinco gols seus".
A primeira conversa e um convite
Em setembro de 2011, Luciano Dias Pires viajou para Santos com uma missão: visitar o escritório de Pelé no litoral e ser porta-voz de um convite especial.
"Fui muito bem recebido em seu escritório, na ?Pelé Company?. Lá pude conhecer e ficar o dia todo com seu irmão e outros funcionários e familiares que me recepcionaram muito bem. Fui para levá-los algumas fotos de arquivo e entregar a ele um convite oficial da cidade de Bauru para que venha participar da solenidade de abertura dos Jogos Abertos do Interior nesse ano. Sabemos que a agenda dele é muito apertada, mas quem sabe?".
Enquanto visitava o escritório do Rei, Luciano foi surpreendido com um telefonema.
"Eu estava lá e o Pelé ligou dos Estados Unidos. Pela primeira vez tive o privilégio de falar com ele. Foi quando aproveitei a oportunidade e disse: ?Olha Pelé, meu sonho era te ver no Corinthians?. E ele respondeu: ?Pois é Luciano, e ficou só no sonho mesmo?, e deu risada".
Segundo o jornalista bauruense, esse não era apenas o seu sonho, ou o da segunda maior torcida do Brasil. Na verdade era o de Dondinho, e até mesmo o de Pelé. "Ele sempre foi corintiano, como seu pai, era doente pelo Corinthians. Mas, como acontece no futebol, todo jogador acaba virando torcedor do time em que constrói sua história".