Cultura

?2 Coelhos? aposta em ritmo frenético


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Diante de uma produção cinematográfica formada predominantemente por comédias com atores globais e filmes que retratam a realidade em favelas, "2 Coelhos", de Afonso Poyart, que tem estreia nacional, inclusive em Bauru (leia programação completa em Cinema), soa como um estranho no ninho no cinema brasileiro. Afinal de contas, o diretor, em sua estreia no comando de um longa, explora com maestria elementos típicos de filmes de ação hollywoodianos.

Em "2 Coelhos" há explosões de carros, perseguições, tiroteios, animações baseadas em mangás - os gibis japoneses - e muitos efeitos especiais. O melhor é que nada é gratuito ou tosco, como poderia ser em um filme que custou "apenas" R$ 4 milhões - mixaria comparada às grandes produções do gênero dos EUA.

"2 Coelhos" narra a história de Edgar (Fernando Alves Pinto), que decide fazer justiça com as próprias mãos aniquilando, literalmente e de uma só vez - daí vem o título do longa -, uma quadrilha de ladrões comuns liderada por Maicon (Marat Descartes) e um deputado corrupto (Roberto Marchese). Nessa sua jornada, o rapaz conta com a colaboração de Julia (Alessandra Negrini). "Digamos que ela é uma heroína bandida. Age para conquistar paz e uma vida tranquila ao lado de quem ama", diz a atriz, cuja personagem apresenta comportamentos bem suspeitos.

São Paulo é outra personagem de "2 Coelhos". Ao longo da história, é possível notar a região da rua Augusta, a avenida Paulista e outras áreas da cidade. "Nasci em Santos, mas sempre quis morar em São Paulo. A cidade tem um visual incrível para um filme urbano, como é 2 Coelhos", define Poyart.


Filme escorrega em falatório moralista

O início de "2 Coelhos" lança a dúvida: o filme começou ou é um anúncio de cartão de crédito para universitários? Os tiros avisam que é o filme. O protagonista, Edgar (Fernando Alves Pinto), um fã de pornografia e games, se mostra rebelde e "errado". Não quer saber de emprego, se envolve com o crime e é beneficiado pela corrupção.

Em busca do público jovem, o filme toma como referência maior a série "Grand Theft Auto", sucesso dos games nos anos 2000, sem desprezar conquistas narrativas de ícones nacionais como "Cidade de Deus" (2002). Por pelo menos meia hora, porém, Edgar simplesmente narra o filme - de ação. Entre explosões e tiros, ele tenta apresentar os personagens e o vaivém de criminosos e autoridades. Uma vez ou outra, ainda avisa ao espectador que dali a pouco vai dar para entender tudo, sim.

Os muitos recursos gráficos ficam perdidos numa rede que parece frouxa - a ponto de precisar do "bad boy" para explicá-la. De brinde, vem o discurso apoiado num moralismo vulgar ("explodir os corruptos"). Quase na metade, no entanto, o filme cresce. De repente, o protagonista se liberta do papel de narrador. O roteiro cambaleia, mas tem a segurança de uma estrutura circular e violenta que remete à do ótimo "Amores Brutos" (2000). A trama se ergue, ganha algum sentido e consegue incorporar o ritmo dos games em vez de usá-lo como referência vazia.

Sem a narração em tom de carochinha publicitária do YouTube, o tratamento gráfico e os efeitos especiais também começam a parecer menos artificiais. De resto, a parte inicial e aquela a partir da metade parecem dois filmes diferentes - mas a cajadada só funciona em um deles.

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