Bairros

Armadilhas Urbanas

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 11 min

Todos os dias, antes de sair de casa, certifique-se que você está no estado máximo de alerta. Se estiver sonolento, distraído ou muito preocupado com determinada coisa, cuidado: você é a vítima perfeita para as milhares de armadilhas urbanas que estão espalhadas por todos os bairros da cidade.

Não, não se trata de bueiros explosivos, como os que aterrorizaram a cidade do Rio de Janeiro há algum tempo, nem de emboscadas armadas por inimigos, como as que costumam ser retratadas em filmes e novelas. As armadilhas de que estamos falando são pequenas “pegadinhas”, quase invisíveis aos olhos de quem transita apressadamente pela cidade, frutos do desleixo e da falta de planejamento urbano, mas que podem machucar e causar acidentes graves.

Você, leitor, provavelmente já foi pego por uma delas, afinal, quem nunca tropeçou em uma calçada por conta de um desnível, trinca ou ressalto?

E por falar em calçadas, são elas que concentram o maior número de armadilhas urbanas. Além do desnível e da falta de manutenção encontrada em boa parte dos passeios, é preciso ficar atento com tapumes, lixos, entulhos e materiais de construção que se apossam do espaço obrigando pedestres a transitar pelas ruas. Árvores muito baixas, mobiliário urbano mal posicionado e falta de espaço também se tornam armadilhas típicas em grande parte das calçadas de Bauru.

Outro perigo que vive solto pela cidade são as bocas-de-lobo. O equipamento que, a princípio, serve para ajudar na drenagem da água da chuva, funciona também como uma ameaça para pedestres e veículos. Isso porque muitos deles ultrapassam o limite da calçada e avançam em direção à rua, abocanhando os mais desavisados.

Na categoria “armadilhas para motoristas” temos ainda valetas com tamanho, profundidade e desenho incoerentes; radares estrategicamente posicionados em vias com mudanças bruscas de velocidade; e ruas ou avenidas com situação de cruzamento em nível com ferrovias.

E se escapar de tantas armadilhas já é tarefa difícil para motoristas e pedestres, imagine para os cadeirantes.

Walmi Silva Coelho, 42 anos, mais conhecido como Seninha, é um dos bauruenses que enfrenta, diariamente, uma verdadeira saga contra as armadilhas urbanas para se locomover pela cidade.

Tive paralisia infantil e desde os 10 anos uso cadeira de rodas para me locomover. Com tanto tempo de experiência, confesso que desisti de andar sobre as calçadas. Não tem condições, prefiro enfrentar o perigo da rua. Cheguei a cair da cadeira em algumas situações... e olha que eu sou bom de cadeira, viu!”, orgulha-se Seninha.

 

 

É relaxo!

No contexto geral, a forma sem cuidados com que a cidade é feita é o principal motivo para Bauru estar cheia de armadilhas urbanas. Essa é a opinião do arquiteto e urbanista José Xaides de Sampaio Alves, do Departamento de Arquitetura da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.

Para ele, muitas das emboscadas espalhadas pelos bairros poderiam ser evitadas e até mesmo corrigidas com um pouco mais de planejamento e fiscalização.

O detalhamento construtivo dos espaços urbanos deixa a desejar em qualidade e acabamento, o que causa preocupação e gera na população uma sensação de insegurança, além de dar impressão de uma cidade mal acabada, em constante deterioração”, explica.

Medidas simples, segundo ele, poderiam resolver ou evitar muitos problemas. No caso das calçadas, por exemplo, uma simples fiscalização que obrigasse a manutenção por parte dos moradores amenizaria problemas de desnível, trincas e ressaltos.

As calçadas que têm pontos de ônibus, orelhões e outros mobiliários urbanos deveriam ter, no mínimo, três metros de largura. As outras, pelo menos um metro e meio. Nem que, para isso, fosse preciso mudar o desenho da via ou o recuo das casas”, defende o urbanista.

Situações de trânsito, que também representam grandes armadilhas, poderiam ser facilmente evitadas com um pouco mais de gentileza entre pedestres e motoristas. Um exemplo são as faixas de travessia de pedestres, que têm a função de assegurar uma travessia segura, mas que, na realidade, são uma ameaça à vida de transeuntes desatentos.

Isso porque não existe educação no trânsito. O pedestre pensa que pode atravessar e acaba colocando sua vida em risco porque os motoristas não respeitam as faixas”, alerta o arquiteto.

Se por um lado falta atenção e cuidado com o planejamento da cidade, por outro, sobram artimanhas para aumentar a arrecadação por meio de multas. Tanto é que a avenida Comendador José da Silva Martha, embora seja uma via nova e bem conservada, tem placas de velocidade de trânsito de 30 quilômetros por hora, seguidas de radar móvel. “Isso sim é uma verdadeira armadilha”, reclama Xaides.

 

Calçadas perigosas

Caminhar pelas calçadas de Bauru pode ser considerado, cada dia mais, um grande desafio. Isso porque elas estão cheias de armadilhas à espreita dos pedestres mais desatentos.

Não, não se trata de emboscadas como as dos filmes, preparadas especialmente para capturar invasores, mas, sim, de desleixos que podem causar acidentes graves.

Para confirmar a constatação acima não é preciso ir longe. Basta que você, leitor, dê uma volta no quarteirão pelo bairro onde mora e repare: quantos dos passeios públicos estão desnivelados, dificultando a passagem de idosos, crianças e cadeirantes? Quantas calçadas são feitas com materiais escorregadios? E quanto à conservação, todos os pisos estão nivelados, sem trincas e ressaltos?

Após esse breve exercício de observação, muitos leitores perceberão o risco a que estão expostos diariamente, assim que colocam os pés para fora de casa.

No Jardim Bela Vista, por exemplo, raridade é encontrar uma calçada em ordem, sem armadilhas.

Aqui as ruas são muito íngremes e as calçadas mal cuidadas. Meu marido já teve de socorrer um homem que caiu e se machucou por causa dos buracos que tem na calçada aqui da frente”, conta Neusa da Silva, que mora na rua Nicola Avalone.

Mas calçadas com armadilhas não são exclusividade do Bela Vista. Na Getúlio Vargas, uma das avenidas mais modernas da cidade, onde as pessoas costumam praticar caminhada, as calçadas estão repletas de trincas e ressaltos. Quem nunca presenciou um tombo ou tropeço por ali?

 

Bocas-de-lobo devoradoras

Bocas-de-lobo. O nome dado aos populares bueiros é, provavelmente, o mais adequado. Pelo menos em Bauru, onde a entrada de alguns deles é bastante grande e avança guia afora, abocanhando o pneu dos veículos de motoristas desavisados e pedestres desatentos.

Exemplos da armadilha estão espalhados por todos os cantos da cidade. Na rua Henrique Savi, por exemplo, uma boca-de-lobo avança cerca de 30 centímetros em direção à rua. Seu tamanho é tão grande que dentro caberia, facilmente, uma criança ou a roda de um carro.

Na rua Nicola Avalone, na Bela Vista, outro exemplo: o bueiro, além de avançar sobre a guia, está com a tampa quebrada e não possui nenhum tipo de proteção. O pequeno Ariel Martins, que mora em frente ao local e sempre brinca na rua, não faz ideia do perigo que corre, mas sabe de gente que já se machucou ali.

Outro dia, minha vó e uma vizinha tiveram de tirar um bêbado que caiu ali dentro”, conta.

Para o arquiteto e urbanista José Xaides de Sampaio Alves, as bocas-de-lobo estão no ranking das grandes armadilhas bauruenses para pedestres e motoristas. Ele mesmo já teve problema com o equipamento.

O correto seria que esses bueiros não avançassem para dentro da rua, mas, sim, ficassem sob a calçada. Caso isso não fosse possível, deveriam ter uma espécie de grade de proteção, além de o local ter proibição de estacionar”, defende.

 

Faixas traiçoeiras

As faixas de pedestre são áreas destinadas à travessia segura de pessoas, certo? Na teoria, sim, mas na prática, não exatamente. É que nem sempre o instrumento atinge seu objetivo, chegando ao ponto, muitas vezes, de funcionar como uma verdadeira armadilha.

Me sinto inseguro, principalmente aqui no Centro. É que os motoristas não respeitam as faixas. Quantas e quantas vezes fui atravessar e algum apressadinho brecou com o carro bem em cima de mim...”, reclama Oswaldo Franco, 91 anos, que tem de driblar as dificuldades da idade e passar correndo pela travessia para escapar da emboscada.

Para complicar ainda mais a situação, o material com que as faixas são feitas tem aderência menor que o asfalto. Resultado: em dias chuvosos, as listras brancas tornam-se escorregadias. Um perigo para carros e pedestres.

É uma soma de fatores que impedem a eficiência do instrumento de trânsito. Os pedestres são induzidos a acreditar que podem atravessar na faixa que estarão seguros quando, na verdade, não existe educação no trânsito. Por outro lado, a qualidade do material também oferece riscos”, avalia José Xaides de Sampaio Alves, arquiteto e urbanista do Departamento de Arquitetura da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.

 

Tapumes e lixos espaçosos

É fato que as calçadas de Bauru já são, por si só, verdadeiras armadilhas. Mas como se isso não bastasse, o desrespeito no uso destes espaços os torna ainda mais perigosos.

Não deveria ser, mas é comum ver nos bairros tapumes, materiais de construção, lixos e entulhos impedindo a passagem nas calçadas e obrigando os pedestres a se arriscarem nas ruas, junto dos veículos.

Para falar a verdade, acho que é falta de consciência. Onde já se viu eu ter de sair da calçada porque um monte de pedras ocupa o lugar. E isso acontece em todos os cantos da cidade”, reclama o coletor de materiais recicláveis Pedro Nunes, 61 anos, que usa bengalas por conta de uma deficiência nas pernas e sentiu dificuldades para passar pela calçada na quadra 5 da rua José Bonifácio, no Jardim Bela Vista, onde estavam as pedras.

Em outro canto da cidade, na rua Felício Soubhie, no Jardim Infante Dom Henrique, uma construtora ocupou praticamente toda a extensão de uma calçada com pedras, areia e tapume.

A falta de consciência de alguns obriga o pedestre a andar na rua. É, sim, uma armadilha. Penso que a prefeitura deveria fiscalizar melhor essas situações. Se os carros não podem parar nas calçadas, por que os tapumes podem impedir as passagens”, questiona José Xaides de Sampaio Alves, arquiteto e urbanista do Departamento de Arquitetura da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.

 

Percurso com obstáculos

Se para pedestres transitar pelas calçadas de Bauru é uma missão arriscada por conta das armadilhas que elas oferecem, imagine para os cadeirantes.

São desníveis para ultrapassar, buracos para enfrentar, mobiliários urbanos para desviar, desrespeito no trânsito para superar... Praticamente, uma corrida diária com ou contra obstáculos.

Armadilhas para cadeirantes? A cidade está cheia delas. A situação das calçadas é a pior entre todas. Eu mesmo desisti de andar em algumas, onde já cheguei a cair por conta das péssimas condições. Em determinados locais, acho menos arriscado andar pela rua”, conta Walmi Silva Coelho, 42 anos, que anda de cadeira de rodas desde os 10 anos. “E olha que eu sou bom de cadeira! Quem não tem experiência sofre bem mais”, ressalta.

A verdade é que falta o mínimo de planejamento e cuidado com as calçadas. Na avenida Nações Unidas, altura da quadra 32, um exemplo: recentemente foi construído no local uma travessia entre pistas para pedestres, com direito a rampas de acesso a cadeirantes. Perfeito, se um poste não estivesse no meio da passagem.

Falta cuidado com os detalhes e isso é um absurdo. Quantos locais têm calçadas apertadas e ainda abrigam mobiliário urbano como pontos de ônibus e orelhão? Como fazem os cadeirantes para passar nesta situação?”, questiona José Xaides de Sampaio Alves, arquiteto e urbanista do Departamento de Arquitetura da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.

Para ele, o ideal seriam calçadas niveladas e com espaço médio de três metros, em caso de abrigar mobiliário urbano, ou de um metro e meio, em situações comuns.

 

 

Valetas impertinentes

Facilitar o escoamento de água e, de quebra, funcionar como redutor de velocidade. Estas eram, a princípio, as funções das centenas de valetas espalhadas pelos bairros de Bauru. Contudo, estes equipamentos tornaram-se verdadeiras armadilhas, especialmente para os motoristas.

Isso porque a cada nova camada de asfalto que é colocada sobre o solo, cada vez mais as valetas configuram-se como buracos profundos, ameaças para carros mais baixos e sem protetor de cárter.

O tamanho, o desenho e a profundidade da maioria das valetas é incoerente. Além disso, elas causam grande confusão no trânsito pois geralmente estão posicionadas em vias preferenciais, o que faz com que o motorista que está nesta via tenha de reduzir muito a velocidade, permitindo que o motorista que está na via não preferencial cruze ou assuma a frente”, considera José Xaides de Sampaio Alves, arquiteto e urbanista do Departamento de Arquitetura da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.

 

Pegadinha do malandro”

Boa parte das armadilhas urbanas espalhadas pela cidade não são propositais. São, na verdade, frutos do descuido com os detalhes na hora do planejamento do município. Boa parte, mas não todas.

Uma das armadilhas urbanas consideradas propositais são os radares, especialmente os estáticos, também chamados de "móveis". Um exemplo é a avenida Comendador José da Silva Martha, duplicada recentemente, que tem asfalto em bom estado e placas que variam entre 30 e 50 quilômetros por hora, instaladas em trechos com menos de 300 metros de distância.

Curioso é notar que geralmente, próximos a estas placas de menor velocidade costumam ser posicionados os temíveis radares estáticos.

"É um absurdo o motorista ter de andar a 30 quilômetros por hora em uma avenida tão nova e ampla. Mais sacanagem ainda é reduzirem do nada a velocidade de 50 quilômetros por hora para 30 quilômetros por hora e colocarem radar para fiscalizar", reclama um motorista que foi multado no local mas não quis ter seu nome divulgado.

O arquiteto e urbanista José Xaides de Sampaio Alves, do Departamento de Arquitetura da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, concorda com a reclamação do motorista. Para ele, a única função do fiscalizador de velocidade, neste caso, é aumentar a arrecadação do que chama de indústria de multa.

"Andar a 30 quilômetros por hora em uma avenida como a Comendador Martha é algo impossível. É uma avenida boa, em perfeitas condições para velocidades maiores", avalia.

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