Articulistas

Bauru I e II e o tapete vermelho

Bruno Emmanuel Sanches
| Tempo de leitura: 3 min

Dias atrás passava em frente ao antigo cinema de Bauru (Bauru I e II) e me deparei com a sua entrada, intacta. Apenas alguns papelões tampavam as suas vidraças, para que os transeuntes não pudessem admirar o seu interior, que na verdade não possuía nada a ser admirado. Nem filmes, nem espelho, somente vidro. Apenas a vidraça. Neste instante, fui acometido de algumas reminiscências muito agradáveis, como as minhas primeiras idas a este cinema ? as idas que me lembro, é claro. Os filmes são: Lua de Cristal, da Xuxa; e o desenho A Pequena Sereia. Não me lembro se fui com os vizinhos, ou com meus primos e tios, ou com meus pais. Mas as recordações lúdicas são sempre boas, ainda que um pouco confusas: o teto, a tela colossal, as saídas de emergência. Hoje, o cinema de Bauru reflete muito o seu centro: abandonado, à deriva. Não há culpados, entretanto há muitos defensores da volta e outros tantos saudosistas, como eu. Saudade do que passou, e que não volta mais. Será? A empresa responsável pelo prédio do cinema do centro em Bauru (a mesma do shopping) até procurou recuperá-lo, oferecendo uma reforma até considerável no seu interior, bem como reduzindo o valor dos ingressos a preços irrisórios. Porém, os clientes não ofereceram o retorno desejado, optando pelas sessões do cinema no shopping - sendo este o motivo daquele cinema ter encerrado suas sessões. Lembrei-me prontamente (naquele momento) do filme Tapete Vermelho, contracenado pelo experiente ator Matheus Nacthergaele. Este filme é uma homenagem ao grande ator e cineasta brasileiro Amácio Mazzaropi. No filme, Quinzinho (Nachtergaele) reside na zona rural com a sua família, e decide comemorar o aniversário do seu filho levando-o a uma sessão de cinema na cidade (zona urbana) para assistir a um filme do Mazzaropi. A sua procura torna-se um martírio, pois não encontrou cinema qualquer aberto nas cidades em que passou. Os cinemas ou se tornaram locais de cultos evangélicos, ou então de cinemas pornô. O filme é muito bom, e recomendo. Voltando a questão do cinema do centro de Bauru, me impressiona que ele ainda não tenha se transformado em uma igreja (haja vista que já existe o cinema pornográfico em outro cinema que já comportou pessoas que hoje sentem saudades dele). Hoje a Zona Sul é o "point", e o centro é o local propício para aqueles que são taxados de "desocupados", quando na realidade são os esquecidos. Enquanto o centro não for povoado e as pessoas não contraírem o hábito de vagar pelo centro também nos horários noturnos, nada neste espaço físico vingará. A opção que se poderia oferecer aos moradores da cidade é abri-la a um público alternativo - que tem interesses pelos filmes mais "Cult" do circuito de cinema, filmes estes que infelizmente não são veiculados pelos cinemas em vigor na cidade (diga-se de passagem que, estruturalmente, são muito bons). Tudo isso para não ver vidraças cobertas de papel e espaços físicos sem o devido proveito. É uma alternativa.


O autor, Bruno Emmanuel Sanches, é cientista social

Comentários

Comentários