Chamar John Edgar Hoover, o temido chefe do FBI por quase cinco décadas, pelo primeiro nome, no título da cinebiografia "J. Edgar", é apenas o primeiro indício de que o diretor Clint Eastwood se aproximou do personagem como ser humano, tornando real e acessível uma figura mítica e, não raro e com justas razões, identificado como vilão e sociopata, especialmente perante os segmento liberais da sociedade norte-americana.
Quase tanto, ou até mais do que o senador Joseph McCarthy - a quem considerava "oportunista" -, Hoover encarnou o combate sem tréguas e, muito comumente, ultrapassando os limites legais, aos comunistas e esquerdistas. Também não se dobrou à autoridade dos oito presidentes norte-americanos a quem supostamente deveria servir. Independentemente de sua filiação partidária, todos eles e seus parentes, além de vários congressistas, figuraram num temido arquivo secreto em que Hoover colecionava o fruto da espionagem à sua intimidade, como a vida sexual de John Kennedy e da senhora Franklin Delano Roosevelt. Um arquivo cuja existência não fazia questão de lhes esconder e aumentava ainda mais seu poderio.
Contando com uma caprichada maquiagem, Leonardo DiCaprio interpreta Hoover da juventude à velhice, com uma intensidade na medida justa, o que torna sua ausência das indicações ao Oscar uma das injustiças desta edição. O roteiro, de Dustin Lance Black (vencedor do Oscar por "Milk - A Voz da Igualdade"), centra-se na irresistível ascensão de seu personagem no combate ao crime, à frente da divisão de inteligência do Departamento de Justiça desde os anos 20, depois chefiando o Bureau de Investigações, que em sua gestão incorporou também a palavra "Federal".
Desde o início de sua carreira, com apenas 24 anos, Hoover exibe perícia em duas frentes com a mesma obsessão. De um lado, na necessidade de contar com um aparato volumoso, eficiente e científico - como sua insistência em contratar muitos agentes, instalar laboratórios para investigação e instituir um banco federal de impressões digitais. De outro, seu foco recai única e exclusivamente sobre aqueles que considera inimigos da democracia, como todos os esquerdistas.
Além disso, discriminava negros, mulheres ou homens que desprezassem o que considerava um bom figurino, com sapatos engraxados - que, sob sua gestão, tinham minguadas chances de entrar para os quadros do FBI. A mesma fúria que dedicava ao combate aos gângsters dos anos 30 e ao sequestrador do bebê do aviador Charles Lindbergh - casos que o tornaram famoso, embora tenha usurpado para si um crédito que pertencia tanto ou mais a outros - ele dirigiu ao ativista negro Martin Luther King.
Quando a espionagem ao pastor não rendeu qualquer escândalo que lhe permitisse chantageá-lo, Hoover não hesitou em fabricar uma carta, atribuída a um ex-auxiliar de King, para tentar manchar sua imagem pública, visando forçá-lo a recusar o prêmio Nobel da Paz. Mas Hoover, que considerava King esquerdista, teve que engolir vê-lo receber a honraria, em 1964.
Embora não seja este o seu tema principal, o filme aborda a homossexualidade escondida por Hoover, que teve uma longa ligação com um de seus subordinados, o agente Clyde Tolson (Armie Hammer, de "A Rede Social"). Os dois eram inseparáveis em festas, viagens e jantares, e Tolson herdou a casa de Hoover quando ele morreu, em 1972.
Mulheres decisivas
Duas mulheres são fundamentais na trajetória de John Edgar Hoover. Uma delas, sua mãe (Judi Dench), decisiva influência na moldagem de um caráter agressivo e obcecado pelo sucesso - e que não admitia sua homossexualidade, como aparece numa cena de grande intensidade dramática entre os dois. A outra é sua secretária, Helen Gandy (Naomi Watts), com quem ele, ainda jovem, tenta casar-se, e que depois lhe permanece uma servidora fiel por toda a vida. Na história, foi Helen a encarregada de sumir com os temidos arquivos secretos de Hoover, que nunca foram encontrados depois de sua morte, em 1972.
Com a sobriedade habitual, o diretor Eastwood delineia as características polêmicas de um homem que construiu um personagem maior do que ele mesmo - e cujo poder, exercido com fervor absolutista, levou o presidente Harry Truman a comparar o FBI, sob Hoover, à Gestapo nazista.