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Entrevista da Semana: Mauro Hideki Fujiyama

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 8 min

Serenidade. Em um primeiro contato, esta é a característica mais evidente em Mauro Hideki Fujiyama. O atual chefe da equipe brasileira de taekwondo participou, como atleta ou líder, dos grandes momentos do esporte brasileiro, seja em mundiais ou olimpíadas.

Filho de família onde as artes marciais de origem japonesa sempre foram tradição, ele inovou ao se identificar com a luta coreana: "Meu pai praticava judô e kendo. Precisei de três meses para convencê-lo do que eu queria", lembra.

Entre as competições marcantes, o faixa preta cita o primeiro mundial que participou, em 1985, na Coreia, onde pode ver de perto a filosofia da arte marcial em sua origem e fez amigos para a vida toda.

Mauro também fala sobre os benefícios, prazeres e abnegações do esporte. Leia, a seguir.


Jornal da Cidade - O taekwondo é herança de família?

Mauro Hideki Fujiyama - Praticamente toda a minha família paterna foi praticante de artes marciais, contudo, de diferentes formas. Um praticava judô, outro kendo...Meu pai, que veio de Hiroshima ainda adolescente e antes da Segunda Guerra Mundial, praticava judô e kendo. Taekwondo é de origem coreana e foge um pouco da tradição das famílias japonesas e, nessa arte marcial, eu fui o primeiro da família.


JC ? Então você foi a "ovelha negra" por ter escolhido o taekwondo?

Mauro ? Isso vale até uma explicação. Eu era muito franzino quando tinha 10 anos de idade. Meu pai vivia me dizendo que a arte marcial, além de fortalecer o corpo, formava o caráter da pessoa. Seguindo os conselhos dele, eu procurei modalidades de origem japonesa. Procurei o judô, o karatê...Mas quando eu via os treinos de judô, eu achava o pessoal muito grande. Ficava imaginando que se um lutador daqueles caísse sobre mim me quebraria inteiro. O quimono do judô é mais grosso e passa a impressão de que os praticantes são mais encorpados. Então procurei o karatê, mas não encontrei em Bauru. Um dia, na escola, vi um garoto com um quimono menor e ele me explicou que era uma luta de origem coreana chamada taekwondo. Fui ver uma aula dele e gostei. Achei que os garotos tinham o corpo menor e uma agilidade fora de sério. Fiquei três meses insistindo com meu pai que queria que eu fizesse judô. Até que ele viu que eu não desistiria e concordou.


JC - Dentre as inúmeras competições, qual foi a mais marcante?

Mauro ? Eu lutei por 18 anos, o que já é uma marca considerável, e posso afirmar que cada competição tem sua peculiaridade. Foram 12 anos pela Seleção Brasileira, depois passei a técnico da Seleção até chegar a chefe da equipe. Depois de 14 mundiais, o meu primeiro mundial disputado, em 1985, é a disputa que relembro com muito saudosismo. Por sinal, foi na Coreia, o país de origem do taekwondo. Antes era tudo muito lenda. Eu olhar ao vivo e a cores como os atletas coreanos treinavam mudou muita coisa. Tinha muito dragão, muita fantasia na história. Pude ver a filosofia da arte marcial em sua origem. Ah, também tenho uma foto de um chute bem conhecida internacionalmente. Inclusive essa foto foi usada em propagandas, mas nunca ganhei nada por isso (risos).


JC ? Você representou o Brasil em quantos mundiais como atleta?

Mauro ? Como atleta foram três, os demais foram como técnico e como chefe de equipe.


JC ? E você já recebeu convites para trabalhar fora do País?

Mauro ? Na verdade, sim. Durante minha carreira como técnico da Seleção, por exemplo, recebi propostas para atuar em dois países da Europa, um da América Central e três da América do Sul. Não sei como explicar direito, mas tenho uma coisa, não sei se é bairrismo, mas ficaria muito triste se tivesse de entrar contra um atleta brasileiro. Vamos supor que, como técnico da Holanda, recebi esse convite da década de 1990, eu tivesse que entrar contra um atleta brasileiro... Não iria me sentir bem. Isso aconteceria até mesmo em jogos regionais. Eu recebi convites de várias cidades, mas me sentiria muito mal se entrasse contra um atleta que, de repente, eu treino em Bauru. Nunca tive grandes ambições financeiras para ir para o exterior. Estou feliz aqui. Continuei em Bauru, meu trabalho foi sendo reconhecido e, aos poucos, fui galgando a carreira no Brasil.


JC ? Como é o seu trabalho, hoje?

Mauro ? Os treinos específicos dos atletas são feitos pelos técnicos da equipe e eu planifico a estratégia de treinamento visando a competição. Assumi a Seleção como chefe de equipe em 2000. Faço isso aqui mesmo, em Bauru. A Internet diminuiu as distâncias tremendamente.


JC ? Boas expectativas para Londres?

Mauro ? O taekwondo debutou no cenário olímpico em 1988. Nos jogos de Seul como esporte demonstrativo e, em 2000, como modalidade oficial nos jogos de Sidney. Participamos de todas. O Brasil é um dos poucos países do mundo com atletas em todas as edições olímpicas. Em 2004, nós chegamos em duas semifinais, se o regulamento aplicado em Pequim tivesse sido aplicado em Atenas, teríamos duas medalhas olímpicas. Mas o regulamento só foi adaptado ao que é hoje nos jogos de Pequim, onde conquistamos a primeira medalha olímpica. O taekwondo brasileiro evoluiu muito, mas as outras equipes também. Costumo dizer que nessas competições não tem minhoca, somente cobras. São os melhores do mundo. Temos competidores no auge da maturidade como atleta. Eles podem chegar em Londres com a serenidade, treinamento e experiência necessárias para uma medalha de ouro. Aposto na final olímpica sim.


JC ? Como uma arte marcial trabalha o caráter de um atleta?

Mauro ? Trabalha a personalidade, autoconfiança, segurança...Como atleta e como pessoa. Um executivo, por exemplo, vai saber se comportar melhor em uma reunião. A humildade também é muito trabalhada. Um atleta com essa essência nunca vai se gabar de títulos, por exemplo. Não vai se exaltar muito e nem se deprimir. Equilíbrio, esse é o segredo. Sempre falo que não existe melhor ou pior arte marcial. Todas são muito boas para a formação do caráter de uma pessoa. Agora, há diferentes formas de ensino. A maneira como tal professor foi formado e sua conduta é que vai determinar a linha de equilíbrio e humildade.


JC ? O que o taekwondo ensinou para você?

Mauro ? Principalmente a segurança e a autoconfiança. Inclusive muitos pais levam os filhos para as aulas por causa disso. A criança fica mais controlada, equilibrada e confiante. Tudo o que tenho e sou devo ao taekwondo. Nunca fiz planos. Minha carreira foi acontecendo desdo os 10 anos de idade. Foi o que eu sempre quis, mesmo sem saber o preço que teria de pagar. Fui evoluindo naturalmente.


JC ? E qual foi o preço pago?

Mauro ? Foram anos e anos de muita abdicação. Enquanto meus amigos iam para festas e baladas, eu tinha que me guardar para o treino seguinte. Mesmo na faculdade, fiz Direito, nunca fui a festas...Cheguei a pensar várias vezes em desistir do curso, mas tinha uma ótima turma que me incentivou e me ajudou.


JC ? Seus filhos já lutam?

Mauro ? O mais velho já praticou e o segundo ainda pratica. Os dois mais novos já querem lutar mas acho que ainda são muito novinhos. Acredito que 10 anos de idade seja uma idade boa para começar, até pelo amadurecimento físico.


JC ? Como é a sua rotina?

Mauro ? Ano passado foi um ano atípico por ser pré-olímpico. Minha família e meus alunos sofreram porque, em seis meses, fiquei apenas 40 dias no Brasil. Até cheguei a pensar se isso era correto, se deixar o contato com a família e os momentos importantes dos filhos era correto. Então, às vezes, caio nessa crise existencial. Eu delegava muito pouco. Hoje em dia deixei de centralizar as coisas. Em Bauru minha rotina é comum. Cuido das crianças, levo para a escola, cuido das coisas da Seleção de manhã, à tarde e noite. Mas alterno o trabalho entre os cuidados com a família. Também dou aulas no Luso às terças e quintas.


JC ? E sobra tempo para cozinhar (risos)?

Mauro ? (Risos) Cozinhar é uma coisa interessante. É uma válvula de escape. Eu queria muito aprender a mexer com ervas, como era feito nas épocas remotas, para deixar o sal um pouco de lado. Gosto muito de fazer o sukiyaki. É como se fosse um bagunçadinho. Você pega carnes, corta em tirinhas e acrescenta seus legumes prediletos. O segredo do prato está no tempo de cozimento de cada elemento.

JC ? O esporte também proporcionou grandes amizades?

Mauro ? Então, o mundial de 1985 tem um valor sentimental muito grande também por este fator. A equipe era diferenciada, além de companheiros de equipe, nos tornamos grandes amigos. Muitos foram embora do País, mas mantemos contato até hoje. Aprendi na prática o valor de uma amizade. Falam que se você tem um amigo verdadeiro, você tem um tesouro, então, naquela viagem, eu ganhei vários tesouros.

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