A morte do grande esportista Roberto Silva Navarro, na semana passada, despertou comoventes homenagens póstumas da comunidade. Suas atuações como goleiro do Esporte Clube Noroeste, sempre demonstrando cavalheirismo e exemplar espírito esportivo ? coisas raras no futebol profissional brasileiro ? mereceram o reconhecimento de todos aqueles que com ele conviveram durante décadas. Louvado foi pelas defesas nas redes e pelo gol feito num tiro de meta. Quero aqui destacar o outro lado da vida de Navarro: o da dedicação à causa social, aos humildes e desvalidos.
Ao deixar o futebol, o professor Navarro continuou envolvido com o esporte em sua atividade universitária. Com a permissão e a louvável colaboração da USP, dedicou-se à causa da formação esportiva dos jovens portadores de necessidades especiais. E foi nessa época que mantive contatos semanais, quase diários, com o professor Navarro, no Lar Escola Rafael Maurício.
Voluntariamente, sem qualquer remuneração ou vantagem pessoal da entidade, o veterano goleiro do Noroeste reunia os garotos lá abrigados. Incluía em suas aulas exercícios também às moças de condição semelhante, desde que respeitadoras das regras por ele estipuladas. Foi assim que as equipes representativas do Lar Escola puderam alcançar invejável performance nas competições regionais promovidas por órgãos estaduais. Muitas medalhas foram conquistadas e lá estão, na sede da mencionada entidade. Para orgulho desta e do esporte bauruense, pudemos registrar a conquista de uma medalha de ouro e medalhas de prata no atletismo da Paraolimpíada de Madri, em 1993. Quem treinou e chefiou a delegação brasileira foi o professor Navarro.
Neste momento de luto pela morte do ex-professor de esportes de nossos meninos, deixo registrado um voto de louvor àquele benemérito. Que ele seja lembrado também pelo papel de amigo e conselheiro dos órfãos confiados à entidade mantenedora. Apesar dos parcos recursos financeiros de que dispúnhamos, jamais deixamos de proporcionar abrigo, orientação, alimentação e vestuários esportivos aos pupilos do professor. Ressalte-se que não possuíamos um ginásio desportivo. Navarro realizava treinos na Praça Portugal, então desprovida de árvores. Era no terreno arenoso que Navarro orientava as corridas, os saltos em altura e extensão, os arremessos de peso. O momento em que os vitoriosos de Madri, regressando da viagem, exibiram suas medalhas e se orgulharam desse feito, foi dos mais prazerosos de nossa existência.
Encerro, dedicando ao querido amigo Navarro estas palavras de Lacordaire: "Não é o gênio, nem a glória, nem o amor que medem a elevação da alma: é a bondade." Na verdade, Navarro não marcou apenas um gol espetacular em sua vida. Houve o segundo, assinalado com a abertura do maravilhoso mundo do esporte a centenas de criaturas anteriormente desprovidas desse privilégio.
O autor, Nilson Costa, é ex-presidente do Lar Escola Rafael Maurício e presidente da Academia Bauruense de Letras