Tribuna do Leitor

Tênis faz história


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Fomos privilegiados ao assistir a uma final histórica de Grand Slam, entre Djokovic e Nadal, que cravou um record ao durar quase 6 horas na Rod Laver Arena, na Austrália. Foi o jogo mais longo de todas as finais de Grand Slam e aquele que conteve todos os ingredientes que temperam a paixão que envolve este esporte. Somos brasileiros que nascemos chutando bola e acostumados a Corinthians e Flamengo, por isso adoramos futebol. A primeira vez que vi o Corinthians ser campeão, em 1977, pairaram no ar mais dúvidas que verdades. Realmente Russo, Geraldão e Basílio não eram craques, mas Rui Rei da Ponte Preta e o árbitro Dulcídio Vanderlei Boschila exerceram seus papéis muito bem, um sendo expulso e outro expulsando, para meses depois o centroavante da Macaca ser contratado pelo Timão. Infelizmente, um gol de mão, impedido e aos 48 do segundo tempo é bem vindo no esporte bretão, mas mesmo assim, culturalmente, nos deixamos levar por esse fisiologismo esportivo, tal e qual na nossa malfadada política. Não é isso que vemos num jogo de tênis de alto nível. O que vemos, sentados defronte à TV ou para quem tem o privilégio de ver ao vivo, são jogadores imbuídos do mais alto espírito esportivo, que envolve um respeito ao adversário acima da média, preparo físico, técnico e emocional de verdadeiros super-homens.

Provas disso são as declarações de apreço entre um e outro, como quando Djokovic, que defenestrou Nadal no Aberto da Austrália 2012, afirmou que só melhorou seu jogo por causa da supremacia de 8 anos entre o espanhol e Federer. O preparo físico, que obrigatoriamente os faz excluir baladas, bebidas e extravagâncias pela causa, está acima de qualquer padrão normal que se estabeleça. Não há cãibras nestes jogos, porque seria vergonhoso para eles sucumbir por este motivo, que dá uma conotação de fragilidade mental diante de esforço e pressão.

Não assistimos a estas partidas para aprender como bater, volear ou sacar melhor. Pretendemos entender como fazer para, em momentos cruciais, não deixar o emocional atrapalhar e sim, ajudar. Queremos saber como Rafael Nadal consegue virar um set perdido e como Djokovic, após desabar na quadra, parecendo entregue à derrota, vira o último e decisivo e set, tirando energias de um alforje que somente os fortes carregam escondido, talvez dentro do calção ou sob a munhequeira. Frio na barriga, igual àqueles momentos quando Guga entrava em quadra e destruía tudo e todos, esperava sentir apenas quando outro brasileiro chegasse nestes patamares de excelência, a exemplo das vitórias de Ayrton Senna, os gols de Pelé ou diante da perfeição do golpe de esquerda do catarinense.

Mas, à semelhança daquele tricampeonato em Roland Garros, quando chorávamos defronte à televisão vendo um brasileiro cabeludo fazer o mundo se curvar diante de seus golpes, nesta manhã de domingo o tênis nos deu mais um motivo enorme para buscarmos o aperfeiçoamento. No nosso microcosmo, em nossas humildes quadras, baseados nas lições de persistência, garra e entrega que os tops do tênis mundial nos dão, faremos de tudo para repetir, nem que seja um sequer, aqueles lances que nos fizeram levantar do sofá e aplaudir de pé imagens vistas numa TV. Quem ainda não viu, venha ver, porque é extasiante e nossos dias exigem momentos iguais a este.

O autor, Marcondes Serotini, é ortodontista e cronista

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