Os quatro dias de "folia" já não são mais aqueles. Ainda há brasilidade, mas também festa "para inglês ver". Novos tempos?
Seja em Bauru ? que já chegou a ter quase uma dezena de clubes com bailes carnavalescos a todo o vapor, além de um desfile de escolas de samba com auge na virada das décadas 1980 para 1990 -, Recife, Salvador ou Rio de Janeiro, "pular" Carnaval, atualmente, é para fãs ardorosos da folia de Momo.
"O Carnaval perdeu muito seu apelo popular. Hoje se tornou mais uma festa produzida para a televisão. Os bailes de salão desapareceram. Salvo algumas cidades, principalmente Rio de Janeiro e Bahia, não há mais a mobilização popular e espontânea que existia", observa o sociólogo Murilo César Soares, da Unesp/Bauru.
Tamanha a pasteurização ou profissionalização do desfile cronometrado das escolas de samba que a real festa popular numa das capitais do Carnaval brasileiro, o Rio de Janeiro, observa o sociólogo, ocorre longe da Marques de Sapucaí (leia adiante, nesta reportagem).
Espalhado pelas ruas da Cidade Maravilhosa, o Carnaval de blocos, que não integra o chamado itinerário oficial carnavalesco carioca, abrange milhares de foliões, ao contrário dos poucos privilegiados que compõem os camarotes milionários ou de outros que se espremem nas arquibancadas do sambódromo.
Sola de sapato
Em outros carnavais, literalmente, mesmo quem não era "da balada" aguardava ansiosamente a chegada dos quatro dias de fevereiro que representavam, mais do que a oportunidade de se fantasiar, dançar e beber, a liberdade que não havia no decorrer do ano.
Varar as madrugadas no calor abafado dos bailes de salão ou gastando sola de sapato nas concentrações populares de rua, para muita gente, o Carnaval era a única oportunidade de extravasar. Atualmente, quem gosta de festa, encontra chances de se esbaldar o ano todo, seja nos dias de Momo, Natal, Ano Novo ou quaresma, antigamente tempo de resguardo e instrospecção.
A banalização da liberalidade carnavalesca, observam estudiosos, aos poucos, tira o sentido do feriado.
"Festejar por festejar faz a ocasião perder o sentido. A busca pelo prazer apenas tira o valor real da tradição", relaciona Antônio Valter Ribeiro de Barros Júnior, coordenador do curso de especialização em Antropologia da Universidade do Sagrado Coração (USC).
Para o acadêmico, apesar de ser considerado como a "festa da carne" e uma tradição pagã, o Carnaval, em seu real sentido, também enaltece os valores cristãos. ,
Quando os princípios são seguidos à risca o ano todo, por outro lado, relaciona o antropólogo, o Carnaval é curtido de forma mais intensa, plena e, principalmente, espontânea.
"Não é simplesmente ?vamos celebrar o carnaval?", reitera. Para ele, as peculiaridades regionais ? tão variadas no Brasil ? precisam, sim, ser mantidas.
No entanto, a exploração pela mídia principalmente sobre o modelo carioca de escolas de samba.
"Foi o modelo difundido pela mídia. Desta forma, a ?cultura de morro? se expandiu", atribui. Para o músico Roberto Sassi, baterista e criador da Banda da Folia, tradicional conjunto que animava os bailes de Carnaval em Bauru nos anos 1970 e 1980, a festa, especificamente na rua, perdeu a essência.
As marchas, frevos, ranchos e sambas deram vez ao axé baiano e até mesmo funk carioca em algumas ocasiões, observa o músico.
Para ele, essa miscelânea de
ritmos contribui para descaracterizar a folia, que perdeu a espontaneidade. "Hoje, principalmente em festas embaladas pelo axé, o Carnaval vive mais da coreografia do que através do talento", critica o baterista.
Sossego
Já que atualmente é possível curtir o ano inteiro, independentemente às preferências por tipo de festas, o Carnaval, para muita gente, é hora de dar um tempo na agitação e aproveitar quatro dias de tranquilidade. Junto ao período de final de ano, essa é a época em que há maior concorrência no aluguel de chácaras.
Bem diferente
O funcionário público Denis Aparecido da Cruz, de 50 anos, e a esposa Silvana, são algumas das pessoas que participarão de um retiro espiritual, eventos religiosos comuns no período.
É a segunda ocasião em que eles alugam uma chácara para se afastarem dos festejos.
No entanto, apesar de evangélico, o casal, segundo Denis, não se afasta da cidade por ser contra a celebração em si. "Sou convertido há 16 anos e participo de retiros apenas desde o ano passado. Na realidade, não aprecio o Carnaval porque a cultura que ele tinha foi estragada", avalia.
Contudo, apesar do Carnaval na cidade ainda tentar retomar o fôlego de outras épocas, a oferta de diversões noturnas será menor no feriado.
A "folga" nas baladas, justifica o empresário da noite João Cabreira, ocorre pelo grande número de pessoas que viajam para outras cidades no período. "A gente sempre para no Carnaval. Não fica quase ninguém", sintetiza.