Tribuna do Leitor

Sobre a Rocam


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Ainda sobre a questão discutida nas edições do dia 02/02 e 03/02, a respeito dos policiais da Rocam, queria dizer que durante meus anos como funcionário da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, tive contato com muitos bons policiais. Posso citar muitos amigos que encaram sua profissão com ética e fazem da cada gesto um exemplo à comunidade. Não é difícil identificar esses policiais que cumprem bem sua função, sem se valer da sua posição para ter benefícios com isso.

Quando escrevi sobre os policiais da Rocam (texto publicado no dia 02/02), me referi a situações ocorridas no Centro da cidade, no meio do trânsito da avenida Nações Unidas. Não sou tão inocente a ponto de escrever em um veículo como o JC sem ter certeza das circunstâncias. Perguntei ainda a alguns amigos e todos me confirmaram que constantemente veem os policiais dirigindo suas motocicletas com as viseiras levantadas e sem nenhuma proteção nos olhos. Além de ser obrigatória por lei, a viseira configura item básico para a segurança pessoal do condutor. E cada um deve zelar pela sua própria segurança.

Quanto às manobras sem sinalizar, compreendo o que diz o senhor Eduardo Nascimento, mas quando os "homens acima das leis" que trafegavam na minha frente pela avenida Nações Unidas resolveram mudar repentinamente de faixa e cruzar o canteiro central da avenida, eles apenas continuaram a trafegar pela mesma avenida no sentido contrário, descomprometidamente. Não acredito, e me desculpe, que quatro homens fardados sobre quatro motocicletas em formação, com capacetes, vários adesivos escritos Polícia Militar, manobrando no meio da avenida Nações Unidas chamem a atenção de possíveis meliantes menos do que se eles dessem seta para sinalizar uma manobra. Como bem disse o senhor Eduardo, ninguém está acima das leis, nem mesmo os juízes do Tribunal de Justiça de São Paulo, que não querem ser investigados, nem os vereadores e deputados que fazem as leis, e muito menos os policiais militares. O artigo 5º da Constituição já diz que todos são iguais perante a lei. O termo "homens acima das leis" foi uma ironia, pois parece ser assim que eles se sentem pelo comportamento que têm. Aliás, é cultural no Brasil que tendo uma posição de leve vantagem, o indivíduo costume se utilizar de certos expedientes para driblar a regra geral.

Na verdade, senhor Eduardo, se esses policiais que me surpreenderam na Nações Unidas tivessem me fechado na rua Presidente Kennedy à 2 da madrugada para abordar algum traficante de drogas ou na Vila Universitária para capturar algum assaltante, ele poderia até estar sem capacete que eu não me incomodaria. Mas acontece que somos vítimas da criminalidade todos os dias e todos sabemos onde estão os traficantes, quais os bairros menos seguros. Todas as noites, as ruas do Centro da cidade ficam repletas de traficantes, o prédio antigo do Ministério do Trabalho abriga dezenas deles e nada se faz, ao contrário, qual o risco presente na Nações Unidas às 15h de um dia de semana para justificar essas imprudência?

Me desculpe, senhor Eduardo. Se o combate efetivo da criminalidade fosse justificativa para essa postura dos policiais, eu gostaria que eles cometessem muitas outras infrações de trânsito. Mas pelo que tenho sentido sobre a violência na cidade, o policiamento ainda não está nos padrões ideais, e todos nós conhecemos uma dúzia de pontos críticos na cidade, como os já mencionados, e nada se faz para combater a criminalidade. O que diferencia esses policiais da Rocam do ideal é simplesmente a falta de ética, no sentido mais kantiano do termo.

Carlos Neto - funcionário público

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