Guainás - "Você passa a ponte e já é na segunda entrada. É uma casa com uma porteira branca na frente e que fica ao lado do sítio do seo Jesus Orestes". Conforme as simples coordenadas de dona Catarina, é neste cenário, em Guaianás, que ela vive com o marido há meio século. Acha muito tempo? Pois é. E esta é só uma parte da longa trajetória dela com o Sebastião Garcia, ou melhor, Tiãozinho. Em uma época na qual o menor obstáculo é sinônimo de divórcio, além dos quatro anos de namoro, o casal completou incríveis 60 anos de matrimônio.
Para tentar descobrir o segredo da união que resultou, até hoje, em duas filhas, cinco netos e seis bisnetos, o JC foi até o pequeno distrito de Pederneiras. Após se perder em meio às estradas margeadas por amplos canaviais e até entrar por engano na propriedade do tal Jesus Orestes – que descobrimos ser filho do José Orestes -, finalmente, encontramos Catarina Garcia, com 87 anos, e Tiãozinho, que, com 93 primaveras, esbanja disposição.
Avisados da visita, eles já aguardavam na porta. Opa, na porteira branca. Aconchegados em um sofá da pequena casa de madeira, Catarina disse de forma bem objetiva o segredo de "aguentar tanto tempo de casada" e ter completado 60 anos de casamento no último dia 19: "Não tem segredo nenhum, meu filho. É só amor".
Um amor que começou bem antes de ficarem juntos. Na verdade, um amor de família. Catarina é, além de esposa, prima de Tiãozinho. Além dela, outros familiares também casaram entre si. A confusão é tamanha que, mesmo mostrando inúmeras fotos, este repórter não conseguiu entender quem era primo de quem ou marido de quem. "Nunca teve problema o fato de sermos primos. Minha família sempre gostou muito dele e aprovou nosso namoro", conta dona Catarina.
E a história de amor começou quando Tiãozinho ajudava seu tio, que iria ser seu futuro sogro, no trabalho. Quando se fala em trabalhar, logo o homem de 93 anos se manifesta. Em meio a muitas histórias dos seus anos de labuta na lavoura, ele aponta para o teto e mostra umas grossas e firmes madeiras. "Comprei este terreno e era uma floresta. Cortei as madeiras e eu mesmo construí a casa", conta, todo orgulhoso.
Mas isso foi há muito tempo. Hoje, por conta da idade, Tiãozinho descansa o dia todo, certo? Errado. O homem não para um minuto. Além de "madrugar", ele faz serviços que, só de contar, já cansam os mais sedentários. "Ele pula da cama, vai cortar lenha, arruma a horta, faz de tudo em casa", conta Maria Luiza, filha do casal. Para quem não acredita, ela mostra fotografias do pai sobre o telhado ou com uma enxada na mão.
Mesmo com a idade avançada, ele mesmo só diz ter um problema: a pouca audição. E é por isso que Catarina precisa repetir todas as perguntas bem coladinho no seu ouvido. Dá até para perceber que ela tira uma casquinha pra ficar perto do seu "bem". Apesar de serem registrados como Sebastião e Catarina, após o casamento, os nomes dos dois mudaram. Ambos só se chamam assim: "bem".
Até café na cama
E não é só o modo de um chamar o outro que é carinhoso. Ao contrário do modelo rústico que estereotipam homens que trabalham no campo, Tiãozinho é um romântico até hoje. "Ele acorda cedo, pega o café, soca no pilão, faz e depois traz na cama para mim", conta Catarina, com aquele ar de mulher que gosta, de vez em quando, de um mimo do marido.
"Mas e as brigas comuns que chegam com a convivência? Vocês não têm?", pergunta o repórter, e o casal afirma que sim, porém, aponta mais um dos pontos da união: a paciência, bastante simbolizada no adágio "duro com duro não faz muro", que Catarina faz questão de frisar e repassa a todos os familiares que pretendem se casar.
Papo vai, papo vem, chega a hora de ir embora. Porém, não antes de tomar uma xícara de café colhido, moído e feito no próprio sítio. "É tudo daqui. Desde que (o sítio) começou a dar café, só tomamos este. Há 20 anos, não sei quanto custa o quilo do café", conta Sebastiáo, de forma desnecessária, pois ao saborear o café, era impossível confundir com o que encontramos nos mercados.
E se dona Catarina disse não haver segredo para o sucesso do casamento, a reportagem apura que ela não falava a verdade. Como não considerar todo este esforço, humildade, paciência, carinho e muito amor? Todos esses sentimentos se resumem com um simples pedido final do fotógrafo: "Quero fazer um foto de um beijo de vocês dois". Tímidos, a cena vai de encontro ao clichê de que uma imagem vale mais do que mil palavras. E resume 60 anos de união."
Curiosidade
Um ano de casamento representa bodas de papel. Sessenta anos são bodas de diamante. Boda é uma celebração e vem do latim "vota" ("promessa"). Ou seja: votos matrimoniais.