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Onde está a verdade?

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 3 min

Aquilo que "não deixa de ser verdade" está muito longe de ser uma verdade ideal. Isso abre a possibilidade da existência de, no mínimo, duas qualidades de verdades.

Pensando nessa afirmação, lembrei que existe uma loja vendendo um leão de madeira em tamanho natural por 40 mil Reais. Fiquei me perguntando que raios alguém faz com um leão de madeira de tamanho natural. Algo me sugere que esse negócio de sofisticação pode facilmente descambar para a breguice. Quanto mais aristocrático é o comportamento do sujeito, maior o perigo de todo aquele refinamento saltar direto para o seio da falta de bom gosto. A simplicidade confortável, enfim, sempre acaba vencendo essa disputa de qualidades entre os comportamentos.

Comprei óculos novos, pois minha vista estava ruim. Aí eu entrei no Bosque da Comunidade logo que saí da óptica. Pensei comigo:

"-Mas será que o Bosque é tão bonito assim? Se é, eu não tinha reparado."

Tirei os óculos. O Bosque da Comunidade é realmente um lugar ótimo, mas os óculos mostravam aquilo com mais volume e cor. Aí veio a pergunta principal:

"-A realidade é com ou sem os óculos?"

Porque se o oculista diz que eu tenho que usar óculos para enxergar melhor, é porque há uma imperfeição que me impede ver o mundo exatamente como ele é - ou como nós humanos o enxergamos. Mas se as lentes também são artifícios inventados pelo homem, aquilo que eu vejo em meus óculos não pode ser a verdade.

Este é um mundo de disputas frenéticas, onde as pessoas têm que bater metas, ganhar bem, ser seduzidas por uma propaganda irresistível e comprar tudo o que puderem para atingir o padrão social, cultural e comportamental que se espera de alguém. Mas a ideia de que a felicidade está necessariamente presa a esse modelo de vida claustrofóbico, exageradamente urbano, eletrônico, fracionado, digital e robótico é apenas um discurso que todos seguem. Houve tempos em que a a Terra era o centro do universo e quem negasse o fato era louco. Ou herege - porque a negativa destruía a onipotência do discurso da Igreja Católica e tirava das pessoas a noção da dualidade entre o paraíso e a Terra (inclusive espacialmente, pois antes os homens olhavam para o céu e viam o Paraíso, agora veem o Cosmos). A verdade, portanto, é algo difícil de alcançar.

Na Alta Idade Média, as pessoas perderam a noção do que era o Estado. Desapareceu a ideia do coletivo e permaneceu apenas o privado. A reles publica quase não existia nas preocupações do homem medieval. Do mesmo modo, as leis eram arremedos daquilo que os romanos forjaram para as suas coisas públicas. Protegia-se tanto a posse em detrimento das ações coletivas, que um homicídio podia ser punido com multa e um furto, com a morte.

Vivemos hoje, novamente, um período de recuo extremo no que diz respeito às preocupações com o coletivo e com as coisas públicas. Se compararmos com o que o homem experimentou nas décadas de 1950, 1960 e parte de 1970 - com o capitalismo de bem estar social, a social-democracia e o socialismo soviético -, veremos que os interesses privados se reapoderaram dos interesses coletivos de maneira quase absoluta.

Os poucos países onde a superestrutura pública prevalece são vistos como aberrações políticas, como Cuba, Venezuela e Bolívia. Mas omite-se que esses países são estrangulados por embargos multinacionais promovidos por países onde as imensas coorporações privadas estão no poder e no governo - ou seja, onde o governo só existe enquanto suporte legal para a perpetuação dos interesses dessas coorporações.

A democracia europeia é um signo vazio. E é emblemático que os atuais governantes da Itália e da Grécia, berços da democracia, não tenham sido escolhidos pelo povo e nem para contemplar o povo, mas sim porque se submeteriam a fazer os ajustes que o mercado financeiro deseja que aconteça em suas economias. Infelizmente, mesmo com a qualidade de vida em franco declínio em vários países europeus, a direita conservadora pode querer entender isso de muitas maneiras.

O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história e colaborador de Opinião

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