Bauru entrou em 2012 com 36.703 moradores cujos nomes estão incluídos no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) – pouco mais de 10% da população total. Juntos, são responsáveis por pendências maiores ou menores que totalizam R$ 24 milhões no comércio.
E são elas, as mulheres, as mais endividadas no setor. Segundo estudo do próprio SPC, 57% da inadimplência na cidade resultam de dívidas contraídas e não pagas por consumidores do sexo feminino. De todas as faixas etárias consideradas, a maioria possui entre 30 e 40 anos.
O SPC é tido como o principal termômetro econômico da inadimplência.
De acordo com o economista Fernando Pinho, o número astronômico é resultado da falta de disciplina financeira caraterística do brasileiro e, por conseguinte, do bauruense. E as mulheres, inseridas no mercado de trabalho e desempenhando, muitas vezes, a função de chefes de família, começaram - por vontade ou necessidade - a gastar mais.
“As pessoas não estão acostumadas a poupar, porque educação financeira não é algo aprendido em casa e são poucos os que se interessam em adotá-la na vida adulta. Há uma incapacidade em dizer não ao consumismo, frente ao estímulo da publicidade”, analisa.
Mais e... mais
Para o economista, a maior representatividade da mulher no volume de inadimplentes se dá na medida em que ela ocupa maior espaço no mercado de trabalho.
“A mulher está ganhando mais, mas também gastando mais, exatamente por não ter tido, lá atrás, a educação para a disciplina financeira. E, entre 30 e 40 anos, muitas ainda não têm a maturidade suficiente para frear os gastos exacerbados.”
Embora a mulher seja, reconhecidamente, mais emocional – e, portanto, em tese, mais vulnerável aos apelos de consumo – Pinho aponta que esta característica também a faz ser mais cautelosa na hora de esbanjar dinheiro. “Pesquisas apontam que, devido à maior responsabilidade para com os filhos, elas geralmente são mais conservadoras nesse sentido”, pondera.
‘Gastona’
As irmãs Jaqueline Teófilo Ramiro Ibelli, 31 anos, e Simone Teófilo Ramiro, 34 anos, por exemplo, admitem ser “gastonas” e, por este motivo, não conseguem tirar o nome do SPC. Jaqueline acumula uma dívida que já se aproxima dos R$ 10 mil.
“Comecei a comprar roupas e mais roupas, sapatos, bolsas e acessórios, em várias lojas. E não consegui pagar. Já faz mais de três anos e estou negociando até hoje”, comenta ela, que teve o cartão de crédito confiscado pelo marido.
Vendedora autônoma, Simone se diz um pouco mais controlada que a irmã, mas também foi incluída na lista dos órgãos de proteção ao crédito depois de comprar uma televisão.
“Foi acumulando outras contas atrasadas do cartão de crédito. Como não posso mais fazer compra a prazo, agora só pago à vista. Não dá para ficar sem comprar nada, principalmente roupa”, observa.
Patologia?
O hábito de comprar em demasia pode até ser sinal de doença, mas há mulheres que gastam porque precisam administrar todas as contas da casa, embora não consigam fazer cabê-las dentro orçamento.
É o caso, por exemplo, de mais de 44 mil bauruenses que são “chefes de família” em Bauru.
Segundo dados do Censo 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), elas já representam 40% das pessoas responsáveis pelos lares da cidade.
“É uma proporção muito significativa. E, em alguns casos, até mesmo aquela que conta com a renda do marido também se responsabiliza por cuidar das finanças. Quando não quita uma dívida, é o nome dela que vai para o SPC”, pontua Pinho.
Já ouviu falar em oniomania?
É o hábito de comprar compulsivamente é sinal de desequilíbrio e pode ser caracterizado, em alguns casos, como doença. A oniomania é caracterizada como um transtorno de personalidade e mental, classificado dentro dos transtornos do impulso.
Segundo dados do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, a maioria dos pacientes é composta por mulheres.
Ao contrário do que se imagina, as compulsivas costumam ser pessoas de temperamento forte, dinâmicas, inquietas e perfeccionistas, além de possuírem uma desenvoltura social e cultural maior do que a média. São inteligentes, porém, imediatistas.
Este perfil leva os especialistas a entender que os oniomaníacos não possuem defeito de caráter, mas um descontrole excessivo sobre seus impulsos, assim como ocorre com o alcoólatra ou usuário de drogas em relação a seu vício.
Valor médio do débito: R$ 654,85
O valor médio de débito por pessoa é de R$ 654,85. Ao todo, foram 1.882 inclusões no SPC mês passado, ante 1.953 inclusões no período anterior.
Já o valor da dívida incluída cresceu de R$ 678 mil em janeiro do ano passado para R$ 936 mil em janeiro deste ano, um aumento de 38%.
A quantidade de nomes excluídos caiu – de 1.278 para 1.118, uma variação de 12,56%. Os números consideram débitos junto ao comércio, já que a inadimplência junto aos bancos é remetida para as matrizes, na Capital, e é computada pelo SPC e Serasa em São Paulo.
Mania de possuir
Como têm retardado cada vez mais a experiência da maternidade, as mulheres investem (adivinhe?) mais em si – não raro, com exagero. Mas mesmo quem já tem filhos pode estourar o orçamento. Dica: disciplina sempre.