Articulistas

A crise político-policial da Bahia

Dirceu Cardoso Gonçalves
| Tempo de leitura: 3 min

Depois do impasse e dos confrontos dos últimos dias, acabar com a greve de policiais passou a ser o menor problema do governo baiano e do próprio governo federal, que acabou metido politicamente na encrenca a partir da atrapalhada presença do ministro da Justiça em Salvador. Mais do que atender ou não as reivindicações salariais dos grevistas e às suas exigências de anistia aos líderes, o governador Jacques Wagner e seu staff têm nas mãos a difícil tarefa de convencer os policiais a, quando voltarem ao trabalho, não fazer uso da desestabilizante "operação padrão". Toda greve ou reivindicação mal resolvida leva os reivindicantes à apatia. Sem condições físicas, políticas e até logísticas para continuar parados, humilhados e frustrados, eles voltam ao trabalho, mas cumprem estritamente o que está escrito no manual profissional. Em alguns casos, isso é explícito ? como no movimento dos controladores de vôo ? e em outros, velado. Se o policial, por alguma razão, deixar de fazer o importantíssimo trabalho de abordagem, onde acaba prendendo suspeitos e apreendendo armas, drogas e outros ilícitos, a segurança pública baiana estará inteiramente comprometida, mesmo com toda a tropa "trabalhando".

Mais importante do que correr para atender a ocorrência já acontecida, é a ação preventiva, que o policial faz intuitivamente, valendo-se de seu de seu comprometimento, experiência e motivação. Preso, através dela, o criminoso é impedido de praticar roubos, sequestros-relâmpago e outros delitos.

Também reduz a presença de armas que o cidadão de bem pensa portar para a defesa própria mas, via-de-regra, servem apenas para serem roubadas pelos bandidos e, certas vezes, para matar o próprio dono.

Não é exagero dizer que mais de 90% da eficácia da polícia e sua verdadeira finalidade de dar segurança à população estão nos bloqueios e, principalmente, nas abordagens de suspeitos, que chegam a ser um incômodo ao cidadão de bem, mas o protegem dos criminosos. Se isso parar ou diminuir, resta apenas a ação repressiva posterior ao crime. É o mesmo que recolher os cacos depois de quebrado o jarro.

Por definição, somos contrários à greve de policiais. Mas há que se compreender que tudo tem um limite. O policial não pode fazer greve, mas o governo não pode se prevalecer disso submetendo-o a um salário vil e nem o tratando como se escravo fosse. Não é só na Bahia. A maioria dos Estados paga muito mal aos seus policiais. Alguns fazem greve e o povo é quem sofre. Se quiserem realmente resolver os problemas da classe, basta os governadores verificarem o que fazem o governo do Distrito Federal e a Polícia Rodoviária Federal para manter seus policiais longe de qualquer pensamento grevista. Para entender todo o impasse, basta ver o valor dos salários já achatados dos policiais brasilienses e compará-los com os pagos em todo o País. Oxalá a Bahia volte ao seu ponto de equilíbrio e que os acontecimentos de lá não contaminem as outras unidades da federação onde os policiais também recebem maus salários e são obrigados a prestar bons serviços.

O autor, Dirceu Cardoso Gonçalves, é tenente e dirigente da Aspomil - Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo

Comentários

Comentários