Polícia

Travesti é barbarizada e jogada no mato

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Reprodução/Aloísio Jr.

Momento em que Evelyn foi encontrada na manhã de ontem, depois de 30 horas jogada

De um lado, as unhas compridas e pintadas de uma pessoa vaidosa. Do outro, a palma cortada na tentativa de evitar os vários golpes de faca. Era assim que, ontem, no Pronto-Socorro Central (PSC), estavam as mãos trêmulas da travesti Evelyn, 19 anos, encontrada 30 horas após ser brutalmente espancada, esfaqueada e jogada em um matagal no Parque Viação B, em Bauru. Para sobreviver ao forte calor, a jovem comeu o mato do local (leia mais na página ao lado).


O caso começou na madrugada de quinta-feira, quando Evelyn, cujo nome de batismo é Erik Ribeiro, estava no viaduto da Nações Unidas com a Duque de Caxias. Foi lá que ela encontrou seu agressor.


Segundo relatos da vítima, um homem forte, de cabelo castanho, com uma tatuagem no braço esquerdo e branco “queimado de sol”, passou com um Pálio Weekend prata e ela pediu carona. Durante o trajeto, o agressor teria parado para consumir crack e ainda solicitado um programa com Evelyn.


Pelo valor de R$ 50,00, ela aceitou e ambos foram para um motel afastado da cidade. Entretanto, quando estavam perto do local, o automóvel atolou. “Já fora do carro, ele ficou transtornado. Mostrou a faca e começou a me enforcar. Depois, começou a me esfaquear”, relembra Evelyn.


A jovem conta que desmaiou com os inúmeros golpes. Além de facadas nas costas, ela teve também duas perfurações no pescoço. O agressor ainda jogou blocos de concreto na cabeça da vítima. A barbárie somente parou quando ela fingiu que estava morta.


O dia amanheceu e, por conta dos ferimentos, Evelyn não conseguia se locomover. A frieza do homem foi tanta que, como seu carro ainda estava lá, ele voltou pela manhã. Segundo Evelyn, mesmo vendo que ela estava viva, ele a arrastou para mais longe. O motivo seria esconder ser corpo, uma vez que tinha acionado um guincho.


Sozinha e bastante ferida, ela descreve ter vivido um verdadeiro inferno. Em meio a picadas de formiga e ao calor recorde de Bauru, ela teve que comer mato para se hidratar.




Enquanto isso...


Enquanto isso, as buscas por ela já haviam começado. Descrita como uma moça caseira, a família de Evelyn desconfiou do problema quando ela não voltou para casa, na manhã de quinta. “Ela nunca ficava fora assim. Então, sabíamos que algo de ruim tinha acontecido”, conta a diarista Simone Ribeiro, 40 anos, mãe da jovem.


Além de registrar um boletim de ocorrência (BO), a procura logo se espalhou pelas redes sociais com o apoio da Associação Bauru pela Diversidade (ABD). Na edição de ontem, o JC noticiou o sumiço. As buscas foram até às 4h da manhã de ontem e recomeçaram três horas depois.


O encontro da jovem, entretanto, só se deu por volta das 11h da manhã, quando um motociclista que passava pelas proximidades ouviu os gemidos de Evelyn. Ela conseguiu passar os telefones de sua mãe e de um dos membros da ABD. Dramático, o encontro foi filmado e postado na internet.


Socorrida, a jovem foi encaminhada ao PSC, onde foi medicada e examinada. Até ontem, ela não conseguia mover as pernas. Porém, depois de radiografias de todo o corpo, os médicos não encontraram fraturas. Segundo eles, a paralisia pode ser motivada pelo trauma.


Evelyn recebeu curativos, mas não foi liberada. Segundo a unidade hospitalar, ela precisou ficar em observação e deve, ainda hoje, receber alta.

 

 

‘Achei. É essa aí’


Segundo Evelyn, foram estas as palavras que o agressor disse assim que passou de carro por ela. Entretanto, a jovem não teria sido a escolha inicial para cometer a barbárie. Uma quadra e meia de distância, outra travesti escapou das mãos do homem.


Segundo a vítima, uma amiga chegou a entrar no carro do suspeito. Porém, como ele estava muito nervoso e agia de forma suspeita, ela decidiu descer do veículo. Para azar de Evelyn, ele achou a poucos metros dali a sua vítima.

 

‘Temos certeza: foi homofobia’, diz Associação da Diversidade


Uma queda de braço entre a conquista de direitos e a violência. Para o presidente da Associação Bauru pela Diversidade (ABD), Markinhos Souza, não há dúvidas de que a tentativa de assassinato de Evelyn tenha sido motivada por homofobia.


Ele, que encontrou a bolsa da vítima, afirma que o fato de nada ter sido levado comprova a tese. “Ele só pegou o celular para ela não pedir ajuda. A bolsa tinha dinheiro, perfumes importados, tudo. Ele não foi para roubar. Queria mesmo era cometer o crime”, destaca.


O missionário Aloisio Júnior, que desenvolve trabalhos religiosos na ABD e foi um dos primeiros a socorrer Evelyn, também tem certeza de tal motivação. “Ele saiu procurando uma travesti. A vítima não mexia com drogas e não bebia nem cerveja”.


Para Markinhos Souza, o crime toma proporções mais preocupantes pelo contexto. “Em quatro anos da ABD, nunca vi algo assim. Em menos de dois meses, já foram três casos”, conta, referindo-se ao assassinato do travesti Josimar Ferreira Severino, 23 anos, conhecido como Safira, e à agressão do homossexual C. H. M., 28 anos, em um supermercado da cidade, ambos no mês passado. Em Pederneiras, a polícia apura outro caso de agressão, também em janeiro.


O caso ocorrido no mercado bauruense, inclusive, gerou o “beijaço”, ato que vai ocorrer no próximo dia 25.


“A tendência é aumentar crimes como esse. Ao passo que conquistamos nossos direitos, o grupo que nos odeia sente mesmo que está perdendo esta batalha. Precisa ter lei e punição para a homofobia. Estou muito triste”, diz Markinhos.

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