Abertas durante 24 horas, as portas do prédio do Plantão da Polícia Civil, instalado na rua Azarias Leite, testemunham um grande vai-e-vem de sentimentos à flor da pele. Seja a correria do policial militar a espera do registro de um flagrante, a revolta de uma senhora que diz ter apanhado do marido ou da dor de cabeça do rapaz que diz ter perdido os documentos, a tensão é uma constante para quem espera do lado de fora do balcão.
No lado oposto, os policiais que atuam no atendimento ao público são obrigados a manter a calma, independentemente do tipo de ocorrência à espera de engrossar as estatísticas compiladas por eles mesmos. Esse é um resumo, muito sintetizado, do que são os dias no plantão permanente da Polícia Civil, que funciona na região central da cidade, na Praça Dom Pedro II.
Nesta semana, permanecemos junto aos policiais, tanto civis quanto militares, que trabalham direta ou indiretamente no setor de atendimento permanente.
Em "horário comercial" (dividido em dois períodos em diferentes dias da semana passada), acompanhamos o registro de alguns casos, bem como a rotina dos policiais que atuam dentro e fora da repartição.
Ouvimos algumas de suas histórias e observações sobre o carregado sistema, cuja burocracia traz lentidão ao atendimento, independentemente à boa vontade dos funcionários.
Numa "guerra de nervos" e, principalmente, paciência, policiais militares que muitas vezes se embrenharam em tensas apreensões em flagrante, encaram a nova etapa, não menos nervosa, para a formalização das prisões.
Não é incomum a constante presença de viaturas da PM no estacionamento em frente à sede do plantão permanente da Polícia Civil. Em boa parte dos casos, as ocorrências foram, mesmo que informalmente, comunicadas há horas.
Contudo, até as partes serem ouvidas pelo escrivão, em seguida pelo delegado, confecção do boletim de ocorrência até as oitivas (descrições mais aprofundadas dos casos) necessárias para a possível abertura de inquérito, tem chão, ou melhor, "chá de cadeira", para PMs e até eventuais detidos, que permanecem algemados no calor do "chiqueirinho" (compartimento traseiro das viaturas).
Foi essa a experiência do preso Willian Silva Zolzle, que, no início da semana passada, protagonizou uma das detenções mais inusitadas dos últimos dias. Ele é acusado de ter invadido uma moradia do jardim Bela Vista, na tarde de segunda-feira.
Além de supostamente ter revirado a casa e de ter furtado dinheiro e um aparelho celular da moradora, ausente no momento da invasão, o acusado, talvez para refrescar o sufocante calor que castigava Bauru naquela tarde, resolveu dar uma pausa nos "afazeres" para relaxar embaixo da ducha.
Foi no momento em que o invasor tomava uma chuveirada, entretanto, que a dona da casa e o filho, de 15 anos, retornaram, pois a moradora havia esquecido a carteira, surrupiada instantes antes.
Assim que o adolescente entrou no imóvel, o Zolzle pôs a cabeça para fora do boxe, para checar qual era o barulho que incomodava aqueles instantes de relaxamento, quando se deparou com os moradores. Rapidamente ele se vestiu, ainda com tempo de ameaçar os donos da casa, e correu para a rua. No exato momento, uma viatura da Força Tática passava em frente da casa. Os policiais detiveram o acusado quando o mesmo tentava pular o muro de uma residência vizinha.
O acusado é conduzido pelos policiais do 1º pelotão de Força Tática, comandados pelo tenente Bruno Mandaliti Scarp ao plantão permanente, que, sem trocadilhos com a causticante temperatura observada em Bauru naquela tarde, fervia.
Círculo vicioso do prende e solta
Ao lado da viatura, onde Willian aguarda algemado no cubículo da parte traseira da Blazer, outra viatura da PM, também com integrantes da Força Tática. Eles engrossam a fila que espera para uma conversa com o delegado plantonista, no que seria apenas mais um dos diversos flagrantes da agitada segunda-feira no plantão.
Durante um trabalho preventivo para garantir a segurança de aposentados que receberiam, naquele dia, seus respectivos pagamentos, denominado "Operação Pagamento", os policiais flagraram uma ocorrência de tráfico de drogas na plenitude do sol do final da manhã em plena avenida Duque de Caxias, nas proximidades do viaduto sobre a rodovia Marechal Rondon.
Na ocasião, um homem teria encomendado a droga para um acusado, que foi de mototáxi ao Jardim Redentor, aonde comprou cocaína para o "cliente", detido poucos instantes antes de consumir o entorpecente, por ali mesmo. Segundo a Polícia, a cocaína estava enfileirada sobre livros escolares.
Para os policiais, não há a mínima dúvida, o crime ultrapassou todos os limites (se é que há limite estabelecido para cometer algum delito). "Não há mais limites, infelizmente", lamenta o tenente PM da Força Tática, que também desabafa contra o fato dos policiais prenderem mas a "Justiça" soltar, as vezes, até no mesmo dia.
"É um círculo vicioso. Volta e meia a gente "re-prende" algum infrator", observa o oficial, que permaneceu com a viatura parada em frente ao Plantão Policial entre a casa das 15h e 18h, quando a ocorrência foi formalizada e o acusado teve ratificada a prisão, com posterior encaminhamento à Cadeia de Duartina.
Para o delegado Fábio Marioto, assistente no terceiro Distrito Policial e plantonista neste mês, os constantes "reencontros" entre policiais e acusados por diversos delitos não resolvem o problema da criminalidade. Ao invés de "enxugar gelo", salienta, é necessário trabalhar a longo prazo. "Só educação resolve. E não é algo imediato. Prender apenas não resolve", argumenta o policial.
Entre idas e vindas de preso, além das queixas registradas diretamente pela população, o plantão permanente da Polícia Civil em Bauru registrou, ano passado, a lavratura de 16.918 boletins, contabiliza a Delegacia Seccional.