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Perda de RG ainda ?enche? delegacia

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 6 min

São 10h da causticante manhã de quinta-feira. O suor escorre fácil pela testa de quem aguarda do lado de fora da delegacia. Na nova sala de espera do remodelado plantão, que, há cerca de dois anos ocupa o antigo prédio da Delegacia da Infância e Juventude (Diju).

Sob o ar condicionado da sala de espera, em frente ao televisor que exibe desenhos animados, a pequena Ágata, de três anos, não quer nem saber do que acontece ao seu redor.

A maior preocupação da menina era conseguir passar por debaixo das cadeiras do setor de espera, em frente ao balcão de atendimento.

Entretida, a pequena quer porque quer chutar os pés do repórter que está sentado na fileira de trás. Após finalmente alcançar o objetivo, ela finalmente sossega no colo do pai, Leandro Acácio, funcionário público, de 25 anos.

Nem tão relaxado quanto a pequena, que agora olha curiosa para um objeto niquelado acondicionado na cintura de um policial militar, ele conta estar a espera de atendimento para registrar o que acredita ser o extravio de sua carteira com todos os documentos pessoais. "Estava numa loja quando percebi que tinha perdido", conta.

Caso os pertences de Leandro realmente tenham sido extraviados, ou até mesmo alvo da "mão grande" alheia, no entanto, ele não necessitaria formalizar o registro "in loco".

Desde a metade da década passada, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo disponibiliza, por meio do site (www.ssp.sp.gov.br), sua delegacia eletrônica. Criado para dar conta dos atendimentos considerados mais simples, entre elas o extravio de documentos, o mecanismo, entretanto, apesar da procura aumentar ano a ano, ainda não é utilizado pela população de forma maciça.

A divulgação maior dos últimos anos, contudo, observa o delegado Márcio José Alves, assistente da seccional da Polícia Civil na região de Bauru e responsável pelo Plantão Permanente na cidade, ajudou no grande aumento da procura pelo meio eletrônico. Contudo, admite o policial, a formalização de boletins via-internet ainda pode crescer.

Atualmente é possível o registro de sete tipo de ocorrências: acidentes de trânsito sem vítimas, furto de veículos, desaparecimento e localização de pessoas desaparecidas e furto de placas de veículos. "Ano passado observamos um aumento muito grande na utilização desta ferramenta. Embora muitas pessoas ainda optem por vir ao plantão e sair com a ?resposta material? em mãos, em forma de boletim impresso, a divulgação da ferramenta eletrônica gera crescimento gradativo na utilização", considera.

Em 2010, conforme estatísticas da Delegacia Seccional de Bauru, foram registrados 1.453 registros online na região.

Ano passado, contudo, a quantidade de ocorrências comunicadas via internet saltou para 8.343, um aumento de 82,6%. Apenas em janeiro de 2012, foram contabilizados 1332 registros. "Se a média for mantida, serão superados os 15 mil boletins anuais pela Internet", estima Alves. Segundo ele, 90% dos registros online estão relacionados a perda ou furto de documentos.

Diferentemente dos BOs formalizados nos plantões policiais, os comunicados via-internet não são lavrados de forma instantânea.

O delegado explica que, como não há comprovação visual de documentos apresentados, uma equipe da Polícia Civil, antes do encaminhamento da ocorrência para o crivo de um delegado, faz uma espécie de triagem, com a checagem de dados. Após uma "carência" média de 30 dias, o documento é lavrado.

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O grave e o insólito desembocam no mesmo destino nas ocorrências

Desde que migrou do antigo prédio para a construção vizinha, com instalações mais amplas, o Plantão Policial deixou de oferecer o indigesto convívio entre presos e vítimas, que antes dividiam praticamente o mesmo espaço antes dos acusados serem trancados na sela provisória à espera de remanejamento para cadeias ou unidades prisionais.

Quem chega para registrar algum tipo de ocorrência aguarda numa sala com certo conforto, ar condicionado e televisão. Os policiais que apresentam os detentos são recebidos num setor ao lado, sem o mesmo conforto, aonde levam os presos que aguardam para falar com o delegado, sentados num banco de cimento. Apesar da modernidade, alguns documentos ? como os Boletins de Identidade Criminal (BICs), ainda são datilografados na "boa e velha" Olivetti. Segundo os plantonistas, entretanto, o "paleozóico" equipamento é utilizado por opção.

Em meio a esse vai e vem, na tranquila manhã de quinta-feira, um policial militar rodoviário chega com um homem envolvido em acidente de trânsito. Após soprar o bafômetro, de acordo com a Polícia, foi constatado elevado grau de álcool em seu sangue. O limite de tolerância apontado etilômetro, de acordo com os policiais, estava muito acima. Entretanto, como o acidente não teve vítimas, o envolvido acabou liberado após alguns esclarecimentos. Além dessa ocorrência, entre outras corriqueiras, um flagrante de receptação movimentaram o pacato plantão de quinta-feira de manhã. Nada comparado àquela calorenta segunda-feira com "ladrão limpinho" e tráfico e consumo de cocaína sob o sol do meio-dia. E nada igual também aos diversos plantões a que os policiais mais experientes estão acostumados a cumprir, na jornada de 12 horas seguidas de delegacia. . "Sei o que é plantão. Não aqui, mas no Capão Redondo em São Paulo", recorda o delegado Márcio José Alves, assistente da Seccional. Dos tempos em que dava expediente na delegacia do violento bairro paulistano, ele se recorda dos sete homicídios que encarou em apenas uma noite.

Coisa de louco

Em Bauru também ocorrem, obviamente não na mesma proporção, dias e noites em que as equipes tanto de policiais civis quanto de militares preferem nem lembrar. Mas, em algumas ocasiões, o cômico esbarra no cotidiano deles.

Cláudio Barbosa é escrivão no plantão de Bauru há doze anos. Morador de Cabrália Paulista, ele se divide entre a tranquila da apicultura, com os trabalhos na delegacia do Centro de Bauru.

Ao longo dos anos, ele coleciona recordações tanto tensas, inerentes ao trabalho policial, mas também insólitas. "Atendemos a todas as pessoas, sem qualquer tipo de tiragem, então já vimos um pouco de tudo", compreende o policial.

Entre os casos mais "bizarros" de pessoas querendo registrar ocorrência, o escrivão cita a de um homem, inconformado com um problema "doméstico". Ele foi ao Plantão Policial para prestar queixa a respeito da torneira de sua casa, com vazamento. "Perguntei sobre quem era o dono do imóvel. Era ele mesmo. Se isso fosse crime, seria algo culposo, mas não dava para registrar", lembra.

Numa outra ocasião, um casal chegou ao Plantão para registrar um BO sobre difamação. Uma mulher, recorda o escrivão, estava indignada porque seu ex-amante a chamou de "ruim de cama". Tanto ela quanto o marido traído não se conformavam com a acusação. "Ela dizia que não era ruim de cama e queria fazer o boletim", diverte-se.

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