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Entrevista da Semana: Marco Aurélio Mesquita Vanzella

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

Na luta pela moralidade pública

O que fazer para combater a corrupção? Foi movido pela indignação e em busca de uma solução contra a corrupção que um grupo de amigos se reuniu e decidiu criar, há pouco mais de dois anos, a Bauru Transparente (Batra), uma Organização Não-Governamental (ONG) cujos objetivos principais são fiscalizar o uso do dinheiro público e conscientizar o cidadão de seus direitos e deveres na participação política.

Para explicar ao leitor como funciona a Batra, o JC entrevistou um de seus voluntários fundadores, Marco Aurélio Mesquita Vanzella, um aposentado com a missão profissional cumprida, mas descontente com o destino indevido do dinheiro público no País e que, assim como os demais voluntários, decidiu fazer a sua parte: " A corrupção atinge o ser humano de uma maneira terrível. É desastroso. Mas isso pode ser mudado com a ajuda de todos".

Além da ONG, o entrevistado também fala sobre suas preferências de cidadão comum. Acompanhe, a seguir.


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Marco Aurélio Mesquita Vanzella - Por que o uso indevido do dinheiro público é tão desastroso à comunidade?

Jornal da Cidade - Porque quando a pessoa usa o dinheiro público de maneira indevida, ela está atingindo os menos favorecidos. Não há um só dia em que os meios de comunicação deixem de mostrar o desvio de verba pública no Brasil. Esse dinheiro poderia muito bem ser usado na educação. A educação tira as pessoas da pobreza. Uma escola de qualidade permite bons empregos e orientação. O desenvolvimento do esporte também é prejudicado pela corrupção. Poderíamos ter um quadro de medalhas incrível em competições internacionais se nossos atletas tivessem mais apoio. Fico muito triste em saber que há falta de recursos enquanto, por outro lado, há desvios e mais desvios de verba pública. E o que dizer da saúde, então. As pessoas demoram para conseguir consultas, cirurgias e, muitas vezes, precisam comprar remédios e não têm dinheiro. A corrupção atinge o ser humano de uma maneira terrível. É desastroso. Mas isso pode ser mudado com a ajuda de todos.

Marco - E foi por acreditar em tal mudança que nasceu a Bauru Transparente (Batra)?

JC - Exatamente. Ninguém faz nada sozinho. Então, um grupo de amigos com o mesmo ideal e que reclamava da corrupção se uniu para criar a Organização Não-Governamental (ONG). Não adianta a gente ficar sentado em frente a TV vendo as notícias, ficar indignado, dormir e tocar a vida normalmente no outro dia. A gente tem uma responsabilidade com nossos filhos, netos e com as futuras gerações. Não podemos deixar esse legado para eles. Alguma coisa precisava ser feita. Vimos que em Marília existia a Marília Transparente (Matra) e fomos até lá para ver como funcionava. Foi então que decidimos montar a Batra. No Brasil, acredito que existe mais de 500 organizações desse tipo.

Marco - Qual é a "pedra fundamental" da Batra?

JC - Quando ela foi criada, pensamos no combate à corrupção. Pensamos em investigar como o dinheiro público estaria sendo usado e, caso encontrássemos irregularidades, aprofundaríamos a pesquisa até a obtenção de provas documentais para levar até a Justiça para que os responsáveis pudessem tomar as providências cabíveis. Mas há um outro viés e, talvez, o mais nobre da Batra. Estou falando em desenvolver a cidadania na população. Precisamos elevar a noção de cidadania na comunidade para que todos fiscalizem e cobrem.

Marco - E como a Batra tem feito isso?

JC - Nas últimas eleições para deputado, por exemplo, fizemos um folheto junto com o pessoal da "Voto Consciente", uma ONG de combate à corrupção voltada para o controle dos órgãos legislativos. Os folhetos foram encartados e distribuídos pelo Jornal da Cidade. Também realizamos palestras em escolas, universidades e associações de bairro. Estamos desenvolvendo outra ação que é a confecção de uma cartilha, na verdade um livro, que já está na fase de revisão. Ali falamos de cidadania e de como exercer o seu direito e conseguir informações. Falamos também do sistema eleitoral brasileiro e sobre a educação fiscal, que expõe as obrigações de todo cidadão e, em contrapartida, seus direitos.


Marco - Como a população poderá ter acesso ao livro?

JC - Faremos uma reunião com a Diretoria de Ensino em breve. E a ideia, se aprovada, é de conversar e entregar o livro, gratuitamente, para que os professores possam dar aulas de cidadania para os alunos do ensino fundamental. Faremos o mesmo com as escolas privadas. O dinheiro para as nossas ações vem dos próprios voluntários. Então, vamos procurar patrocínio para os livros, também. Depois de garantidos os direitos, vamos disponibilizar o material na Internet. Hoje a Batra está com cerca de 50 membros, incluindo a Batra Jovem, formada basicamente por alunos.

Marco - O que o cidadão pode encontrar no site www.batra.org.br

JC - Lá tem toda a nossa história, além de dicas de como fiscalizar o poder público, por exemplo. O site é constantemente atualizado e também abriga o Hino da Cidadania. Fico emocionado toda a vez que o escuto. Nossa ONG tem pilares e foi feita há pouco mais de dois anos para durar e dar resultados. A Batra é do povo e o povo precisa participar. Outro dia uma moça disse não ter dinheiro para ajudar, mas, sim, tempo. Isso é ótimo, porque precisamos de pessoas e doações.

Marco - Quais são os frutos já colhidos pelo trabalho da Batra?

JC - Mesmo que de maneira discreta, nós já participamos de algumas situações importantes. Queríamos que o poder público nos visse mais como cooperadores, ou seja, um grupo de pessoas trabalhando de graça atrás de coisa errada. Você pega uma coisa errada e leva para a autoridade tomar providência, agora se ela não tomar as devidas atitudes, a gente vai até a Justiça. Nosso interesse é servir a população, principalmente os menos favorecidos, que são os que menos condições têm de se defender. No caso do viaduto inacabado, por exemplo, nós fizemos manifestos, participamos ativamente da polêmica sobre o aumento do número de vereadores na Câmara...Também participamos efetivamente da proposta do Ficha Limpa Municipal para os cargos de comissão, e várias outras atividades. No momento, o que existe de muito importante é que a presidente da República sancionou a Lei da Transparência Pública, que abrange o que nos interessa, ou seja, o cidadão poder pedir informação e o poder público é obrigado a fornecer. Ela entrará em vigor em abril de 2012. Estamos de olho.

Marco - E a quais atividades o primeiro presidente da Batra se dedicou antes da ONG?

JC - Eu estou aposentado e trabalhei por 30 anos no Banespa. Passei por todos os cargos até chegar a gerente de divisão. Eu queria servir de exemplo para minhas filhas. Meu intuito foi mostrar para elas que, mesmo com desafios, a gente consegue vencer com esforço e dedicação. Minha carreira foi feita praticamente toda em São Paulo, mas minha intenção sempre foi voltar a Bauru, a terra onde cheguei aos 2 anos de idade e de onde vinham minhas lembranças e as lembranças de minha esposa.

Marco - E quais são as lembranças que a Bauru do passado deixou?

JC - Bauru tinha muita coisa boa. O progresso é muito bom, mas a cidade era pacata. Aos cinco anos de idade eu andava livre pela cidade, jogava futebol, soltava pipas, jogava bolinhas de gude... Depois tinha o Clube dos Bancários, onde a gente paquerava. Isso sem falar na Batista de Carvalho com seus concursos de vitrines e passeios em família...

Marco - O senhor trouxe parte desse lúdico para sua vida adulta com as coleções. O que o senhor gosta de colecionar?

JC - Tudo (risos). Hoje em dia nem tanto porque me dedico bastante a Batra. Mas tenho algumas histórias engraçadas. Viajando, eu vi guardanapos bonitos e decidi que iria colecionar os objetos para me lembrar das viagens. Na Alemanha, eu pedi para uma garçonete me dar um guardanapo de papel para a coleção, veio outra que não sabia da história e ficou brava ao me ver sair do restaurante com o guardanapo. Ano passado, em Veneza, eu não usei o meu guardanapo de papel para levá-lo para casa e não precisar pedir outro. Acabou o jantar e o garçom veio bravo porque eu estava levando o souvenir. Mas o engraçado da história é que veio o gerente me dizendo para levar a lembrança. Eu me irritei com a situação e disse que não iria mais colecionar nada e que, na minha idade, um homem deve é colecionar caixinhas de remédio (risos). Mas acho que toda coleção traz uma coisa boa e incentivo isso em minhas netas.

Marco - É um noroestino fanático?
JC - Tenho cadeira cativa. Ano passado, por exemplo, eu fiquei muito triste com a queda do Noroeste da Série A1, mas tenho confiança na recuperação. Sou do tipo que não perde um só jogo. Às vezes fico chateado e digo que não vou voltar mais, mas não tem jeito (risos).

Marco - O senhor é um pé de valsa (hobby)?

JC - Ah, dançar é um hobby, sim. Sempre fui uma pessoa muito tímida e descoordenada (risos). No colégio, eu sempre ficava fora das apresentações e coreografias. E a minha mulher sempre adorou dançar e sofria porque eu não queria saber de aprender. Até que uma vez, na Luso, um rapaz chamado Geraldinho, que nem sabe que me fez tão bem na vida, ensinou-me com muita paciência os primeiros passos. Não sou um exímio bailarino, mas perdi a vergonha e aprendi que cada um dança a seu modo e não é preciso ter vergonha de tentar. Dançar é uma maneira de relaxar, encontrar com os amigos e fazer a esposa feliz (risos).

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Perfil

Nome: Marco Aurélio Mesquita Vanzella

Idade: 66 anos

Local de Nascimento: Guarantã/SP

Signo: Câncer

Esposa: Vônia

Filhas: Luciana e Fiorela

Hobby: Dançar e colecionar objetos

Livro de cabeceira: "David Copperfield", de Charles Dickens

Filme preferido: Tenho três: "A Procura da Felicidade", "Um Sonho de Liberdade" e "O Som do Coração"

Estilo musical predileto: MPB

Time: Noroeste e São Paulo

Para quem dá nota 10: Aos que agem com honestidade em relação ao dinheiro público

Para quem dá nota 0: Para quem utiliza o dinheiro público indevidamente

E-mail: vanzella45@uol.com.br

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