"A política é um processo dinâmico" ? é o que dizem os políticos quando querem justificar suas contradições. É até bom que assim seja porque graças a essa sem-vergonhice pode-se corrigir grandes erros do passado. O PT ? Lula e Dilma, principalmente ? demonizaram as privatizações, por puro interesse eleitoral. À época era o discurso que calava bem entre a massa votante, embora sem significado algum. Importantes líderes petistas já haviam privatizado, no passado. O ex-ministro Antonio Palocci, quando era prefeito de Ribeirão Preto, iniciou a privatização da empresa telefônica municipal, vendida à Telefônica por R$ 800 milhões. Dilma Roussef, quando candidata disse a célebre frase, em encontro de intelectuais no Rio: "Fazer concessões no pré-sal é privatizar, é dar a empresas privadas um bilhete premiado". Muito aplaudida, ela fingiu que não sabia que o governo Lula já licitara, utilizando o sistema de concessão, vários blocos do pré-sal. Um dos motes das campanhas do PT contra o adversário tucano referia-se à privatização da Vale, empresa que depois de entregue à iniciativa particular passou de US$ 500 milhões de lucro, em 1996, para US$ 30 bilhões em 2010. Dos 11 mil empregados passou para 55 mil. A Vale pagava R$ 800 milhões de impostos. Em 2011, somente de uma disputa judicial que perdeu para o fisco, a Vale pagou R$ 6 bilhões em impostos atrasados. Hoje o Brasil tem 230 milhões de celulares. Muita gente se lembra do tempo em que, para falar com São Paulo levava-se o dia inteiro na dependência da boa vontade da "senhorita do interurbano". Mudou o paradigma, e é bom que isso tenha acontecido. Superamos a discussão estéril e a ideologia sobre as privatizações que dominaram as últimas eleições. Até aqui em Bauru fomos contaminados. Execraram o candidato tucano porque aventou a hipótese de privatizar o DAE. A autarquia não consegue fornecer água à população, nem cobrar tarifas precisas e honestas. Em plena canícula, vários bairros sem água, ainda se dá ao deboche de atender o pedido da vice-prefeita (por coincidência do PT) para lavar as arquibancadas do Estádio do Noroeste, com água potável.
Considerados de "segurança nacional", os aeroportos demoraram a ser privatizados. O "relaxa e goza" de Martha Suplicy pode ser uma recomendação auto-aplicável no momento em que o PT procura uma aliança espúria com seu desafeto Gilberto Kassab. O que o governo está fazendo é eliminar um sistema anacrônico para ver se nos livramos do vexame na Copa do Mundo. Quando fizeram as primeiras concessões de rodovias, os petistas festejaram as "mudanças de critérios". Exigiram tarifas tão baixas para supostamente beneficiar o usuário que, agora, as estradas, mesmo com os pedágios continuam esburacadas. O PT imita o PSDB nas privatizações. Usa os fundos estatais de pensão e o BNDES para garantir o financiamento dos vencedores. E é por aí mesmo. A poupança acumulada tem que servir ao desenvolvimento, à criação de riquezas e empregos. "A Polícia Militar pode fazer greve. Minha tese é que todas as categorias de trabalhadores que são consideradas atividades essenciais, só podem ser proibidas de fazer greve se tiverem também um salário essencial". Quem disse isto foi Luiz Inácio Lula da Silva, durante a greve da PM da Bahia, em 2001. Dilma Rousseff, na semana passada: "Por reivindicação eu não acho que as pessoas têm que ser presas, nem de ser condenadas. Agora, por atos ilícitos, por crimes contra o patrimônio, crimes contra as pessoas e crimes contra a ordem pública não podem ser anistiados. Se você anistiar, viram um país sem regra. Vai chegar um momento que vão anistiar antes do processo grevista começar". O governador da Bahia Jacques Wagner, em 1992, quando era deputado federal pelo PT, registrava sua solidariedade aos 110 oficiais e policiais militares punidos por fazerem greve. "Acho um absurdo o atual vencimento dos agentes da Polícia Militar da Bahia". Agora, governador da Bahia, Jacques Wagner, que nada fez para inverter o quadro que criticava diz que prende e arrebenta os policiais grevistas.
O país melhorou os seus índices econômicos, nos últimos anos. Muito mais porque outros pioraram. Está na hora de se remunerar melhor professores e agentes da lei, que há muito estão à margem da riqueza nacional, enquanto outros poucos se locupletam. Sem educação e sem segurança, nunca passaremos de uma república subdesenvolvida, mesmo que possamos dizer com todo orgulho: "Yes, nós temos bananas".
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC