Neide Carlos |
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Antes do sorteio, a confiança em ser contemplado era grande entre os presentes |
Não era uma partida de futebol, mas o estádio do Noroeste, na Vila Pacífico, ficou dividido ontem entre dois times, durante o segundo sorteio do Programa Minha Casa Minha Vida. De um lado, uns choravam de felicidade pela conquista de um sonho realizado. De outro, a tristeza de ter de aguardar outra possibilidade para, finalmente, ter a chance de chamar um imóvel de seu.
Ainda assim, em qualquer canto da arquibancada lavada, o que se via era esperança. Em alguns momentos, era transformada em frustração mas, na sequência, reascendia como se tivesse fonte inesgotável. Ernestina Carvalho Figueiredo, 69 anos, é exemplo. Se rendeu às lágrimas quando o sorteio para o grupo de idosos foi finalizado.
Afirmou que Deus seria seu ombro amigo. Ao pegar o transporte coletivo sentia menos dor. Já Daiara Paulo Brito, moradora do Ferradura Mirim, voltou para casa que era só felicidade. Até abril, deixará a residência de três cômodos onde vive hoje para seu próprio imóvel.
Quando foi recebida no palco pela vice-prefeita Estela Almagro (PT), coordenadora do Grupo Multissetorial, responsável pelas ações do Programa Minha Casa Minha Vida em Bauru, a voz falhou. Ambas choraram abraçadas. Também foi assim com Maria Aparecida Casassi. Ela só fez festa após ser alertada pela neta Rafaela Soares, 15 anos. Foi ao sorteio também acompanhada dos netos Renan Cabral, 7 anos, Wendel Guimarães, 10 anos.
“Não ouvi o nome. Ela percebeu pelo número”, comenta. Todos moram juntos no mesmo imóvel alugado na Vila Souto. Quem ficou na dúvida quanto aos sorteados ou não teve condições de comparecer ao estádio do Noroeste poderá consultar a lista de contemplados no Diário Oficial do Município de amanhã, quinta-feira e sábado. Os que tiveram sorte terão 30 dias para comparecer à Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), na quadra 1 da rua Alfredo Maia, onde serão orientados sobre quais documentos deverão ser entregues e apresentados.
Contemplada para no Samu
Antes de sair de casa, uma oração. Com fé, Vera Maria Jorge Tavares, 61 anos, deixou o filho deficiente em casa e foi ao estádio do Noroeste. Quando escutou o próprio nome entre os sorteados, o coração, que já tem problema, bateu mais forte. A respiração ofegante aumentou diante do prefeito e da vice.
Quando deixou o palco, foi imediatamente atendida pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Inaugurou o serviço, foi a primeira atendida do dia. “A pressão subiu muito”, conta Vera, que enfrenta um acidente vascular cerebral e uma trombose. A partir de ontem, passou a acreditar que a vida poderá ser melhor.
Também passou a apostar na sorte Edeleuza Vilas Boas Santos, 32 anos, que foi ao sorteio acompanhada da filha Nicole Santos Mello, 6 anos. Seu nome foi um dos 1.800 citados, dentre cerca de 26.500 concentrados em cupons nas urnas. Depois da comemoração, permaneceu no local torcendo pelos cunhados, que encontrou lá. Enquanto isso, sua pequena cantava ‘Você pode até tocar o céu’, de Luan Santana. A música, neste caso, parecia retratar o estado de espírito de ambas.
Tempo ajuda no ‘piquenique’
O sorteio das pessoas inscritas para o Programa Minha Casa Minha Vida, com renda familiar até R$ 1.600,00, levou idosos, adultos, jovens e crianças a transformar as arquibancadas do Estádio do Noroeste num piquenique. E melhor, o tempo ajudou. Sem as nuvens, que embora carregadas não deram trabalho, a espera correria o risco de tornar-se insuportável.
Ilda dos Santos, 42 anos, foi até o local com as netas Alícia, de 2 anos, e Alana, de 4 anos. Trouxe pão, bolachas, líquido, assim como a vizinha Paula Neco, 30 anos, acompanhada da filha Ana Grabieli, 3 anos. “Já eu vim apenas com a vontade de ser sorteado”, admitiu Rosivaldo Guilherme da Silva, 52 anos.
Com a mesma expectativa estava Fernando Oliveira Santos que já esteve no estádio para assistir a uma partida do Noroeste contra o São Paulo. Embora torça para ambos os times, garante que a emoção de ontem foi ainda maior. Se a espera é aflita, ontem a inquietação levou menos tempo que no primeiro sorteio, quando até as 13h 800 pessoas haviam sido chamadas. Ontem, praticamente no mesmo horário, os 1.800 nomes haviam sido pronunciados, sendo 1.200 titulares e 600 suplentes.
Checagem de dados pode cortar quem foi sorteado
No último sorteio, dos 450 suplentes, 150 ficaram com as casas. Muita gente se inscreve, mas quando os documentos são checados, não se enquadram nas exigências seja por conta da renda da família, seja porque não é morador da cidade. Gente da região e até de Rio Claro utilizaram endereço de parentes para conseguir imóveis em Bauru comenta prefeita Estela Almagro (PT), coordenadora do Grupo Multissetorial, responsável pelas ações do Programa Minha Casa Minha Vida em Bauru.
Emocionada com o sorteio, ela ressalta que somando os investimentos do governo federal e do município em infraestrutura, o programa já investiu R$ 100 milhões em Bauru.
Explica ainda que já recebeu autorização do governo federal para mais duas mil unidades e já deu ordem de serviço para outras 570. Em negociação com a Caixa Econômica Federal pretende avançar com os números na segunda fase do programa – a primeira foi encerrada ontem. “A palavra-chave é esperança. Esse programa deu certo, é transparente e muitas casas ainda virão. Vai chegar o momento de cada um”, diz.
Com relação à infraestrutura da cidade, explica que os empreendedores têm reduzido margem de lucro para investir em obras que possam, por exemplo, contornar dificuldades como as do Departamento de Água e Esgoto, que enfrenta problemas com o abastecimento de água. Também incluiu no Grupo Multissetorial profissionais da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb), da Educação e da Saúde para que avaliem, cada qual na sua área, a movimentação da população.
Todo o evento de ontem teve imagens gravadas pela administração municipal não só para garantir transparência como também para ser consultado em caso de dúvidas, segundo informou a vice-prefeita Estela Almagro (PT), coordenadora do Grupo Multissetorial, responsável pelas ações do Programa Minha Casa Minha Vida em Bauru.
De acordo com ela e com o prefeito Rodrigo Agostinho, a decisão de fazer um evento público foi pautado justamente pela preocupação com a transparência, embora o sorteio não fosse vinculado à presença dos inscritos.
Os imóveis sorteados estão distribuídos em apartamentos no Residencial Monte Verde, no Condomínio Residencial Mirante da Colina; no Condomínio Residencial Três Américas, além de 180 casas no Conjunto Habitacional Moradas do Buriti. Destas residências, serão reservadas para uma demanda dirigida conforme prevê o Programa Federal, que serão famílias removidas da favela do bairro Maria Célia e de outras áreas de riscos.
“A prefeitura está fiscalizando a qualidade das casas, unidade por unidade. No final de março, início de abril serão entregues”, conclui prefeito Rodrigo Agostinho.
