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Impunidade mal compreendida

Samuel Biassi do Nascimento
| Tempo de leitura: 4 min

Recebi vários presentes no Natal passado, entre eles está o livro "Privataria Tucana", escrito por Amaury Ribeiro Jr, lançado no mês de novembro de 2011. O livro relata com vivas cores os descaminhos do período das privatizações no governo de Fernando Henrique Cardoso. Fiquei arrepiado, anestesiado e descompensado com a dinheirama que foi roubada em nosso país. O livro apresenta valores envolvidos nas lavagens de dinheiro nos paraísos fiscais, nomes de políticos e empresários que deitaram e rolaram nas ondas das privatizações. Foi uma festa. Pena que o povo mais uma vez ficou de fora!

Enquanto lia o livro, deparei-me com uma reportagem da Revista Veja, de 21 de dezembro de 2011, que apresentava a descarada manobra do ministro do Supremo Ricardo Lewandowski, amigo íntimo do ex-presidente Lula, para empurrar para 2013 o julgamento dos nomes dos políticos envolvidos no escândalo do "mensalão". Essa manobra certamente deixaria prescritos muitos crimes cometidos, beneficiando nomes como o do ex-chefe da Casa Civil, José Dirceu. Coisa de compadre! Lendo Amaury e reportagens como a intitulada "Impunidade Anunciada", começo o ano com certa desesperança social emoldurada pela impunidade que aponta sempre no horizonte de cada novo ano. Mais um ano teremos que saber de casos e mais casos de gente que se beneficia da impunidade que solapa e constroi os contornos subjetivos de nossa nação.

Como teólogo protestante e um pensador na área da psicologia social, vejo o quanto a sociedade reflete a sua indignação com a impunidade que reina livre em nosso país. Quando os cidadãos recebem a notícia de que um ato de corrupção e violência não foi devidamente punido, logo surgem novos planos malignos no coração; o mal será alimentado mais uma vez, tornando aqueles que agem com impunidade senhores do mal. Aqueles que deveriam lutar pela promoção e manutenção do bem comum são os que alimentam a maldade que transforma a vida em sociedade uma experiência muitas vezes infernal.

Eu sei que nem todas as pessoas leem ou até mesmo creem na Bíblia. Respeito o direito de cada um crer no que quiser. Mas tenho que alertar para o pensamento bíblico que afirma: "Quando os crimes não são castigados logo, o coração do homem se enche de planos para fazer o mal"(Eclesiastes 8:11). A lógica é simples: "Quando o mal não é corrigido, ele é difundido".

Não compartilho da teoria de que o homem nasce bom e a sociedade é quem o vai deformando. Como a minha teologia e cosmovisão são fundamentadas na Bíblia, creio que todo homem nasce inclinado para o mal. A maldade está intrínseca ao ser! Segundo o pensamento bíblico, o homem nasce todo em pecado e, na medida em que vai tomando consciência da realidade ao seu redor, inclinando-se para o mal. Esse mal precisa ser contido com pronta correção.

O exemplo mais claro dessa realidade é que ninguém precisa lutar pelo mal. A vida é sempre uma luta contra o mal! Nunca vi alguém procurar uma casa de recuperação para dependentes do bem. Ninguém precisa ensinar uma criança a fazer maldades. A luta é sempre em direção ao bem. Ninguém coloca cercas elétricas, câmeras, vigilantes, portas eletrônicas, códigos de segurança para se proteger do homem bom. A luta é sempre contra o mal que há em nós. Lutamos contra as nossas próprias maldades. Temos que lutar diariamente contra o desejo de vingança, contra a ira, a raiva, o ressentimento, a revolta e todo tipo de sentimento que, se liberados, farão da vida em sociedade um verdadeiro caos. O mal é real e não deve ser negado. Ele não é uma ilusão social. O bem e o mal são os dois pólos em que se constroi a existência humana. O mal é um problema espiritual e não social. Ele se manifesta socialmente, mas a sua origem se encontra na rebeldia do homem em relação ao seu criador.

Esse é o grande problema com a impunidade. Deixar um crime impune é uma validação do mal. É dizer que o mal é o normal e, portanto, natural na convivência social. A impunidade alimenta a maldade no coração dos homens trazendo. Ela cria revoltas que se desenvolvem subjetivamente e se manifestam em várias tragédias sociais. Um crime não corrigido é um incentivo para novos crimes. Deixar impune o mal é alimentar o próprio mal que um dia pode cair em nosso próprio quintal. Pena que muitos políticos e magistrados não pensam assim!


O autor, Samuel Biassi do Nascimento, é teólogo, graduando em psicologia pela Universidade Sagrado Coração ? USC, e pastor titular da Primeira Igreja Batista de Bauru.

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