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Escolas vão ao Sambódromo para iniciar resgate do glamour perdido

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 5 min

Aceituno Jr.

Explosão de ritmos e cores volta à avenida do samba na noite deste domingo 

Um gigante adormecido que desperta lentamente. Essa é a visão de carnavalescos, entusiastas, estudiosos e poder público sobre o desfile de escolas de samba e blocos de Bauru, cuja edição 2012 começa hoje à noite, no Sambódromo Municipal “Guilberto Carrijo”. 

 

O antes maior carnaval do interior – e terceiro do Estado (atrás apenas do desfile da capital e da Baixada Santista), o evento tem em 2012 um ano determinante nas pretensões de retomar a grandeza do passado. 


Elson Reis, secretário municipal da Cultura, também confia no avanço técnico do desfile, após o retorno das performances competitivas no ano passado. 

 

Caso a previsão de evolução técnica tanto no evento de hoje e amanhã à noite, assim como dos próximos anos, se confirme, a volta ao esplendor do Carnaval em Bauru pode ocorrer antes mesmo do imaginado por alguns carnavalescos. “Não tenho dúvida de que isso possa acontecer em dois ou três anos, se continuarmos neste ritmo”, projeta. “É mais um passo que é dado”, considera.

 

A entrada dos blocos e escolas previstos para logo mais, observa o secretário da Cultura, não chega a ser um divisor de águas no renascimento do Carnaval bauruense. Esse estágio, acredita, já foi superado. “O divisor de águas foi a volta do Carnaval, o recomeço”, relaciona. “Será um Carnaval mais bonito, mais acirrado que o ano passado. Caso confirmadas as expectativas, a diferença para o ano passado poderá ser muito significativa”, aposta. 

 

Elson também confia em casa cheia para as duas noites de desfile. “Ano passado tivemos público em torno de 20 mil pessoas. Caso o tempo permaneça firme, acredito que consigamos atingir a casa dos 30 mil espectadores”, torce. 

 

Os 27 jurados selecionados pela Secretaria Municipal da Cultura, junto aos representantes das escolas de samba e blocos da cidade, serão divididos em três cabines, espalhadas no início, meio e dispersão do desfile. 

 

De acordo com o secretário, em cada cabine, haverá um jurado por quesito, evitando assim que um influencie o outro. “Não haverá dois jurados por quesito na mesma cabine”, descarta Reis. “Desta forma, quebramos a troca de informações”, justifica. 

 

 

Produto turístico

 

Apesar de também acreditar na tendência gradual de crescimento, há representante de escola de samba que considere falha a divulgação da festa por parte da administração municipal. “A divulgação na região foi fraca e precisa ser reforçada”, analisa André Luís Silva Sequeira, diretor de carnaval da Mocidade Independente da Vila Falcão. 

 

Para o integrante da agremiação, que deu meia volta e desistiu de desfilar instantes antes do horário reservado à escola no sambódromo, no ano passado, sob a justificativa de quebra de alegoria e falta de tempo e logística necessários para a chegada de todos os integrantes no período determinado, a festa de Bauru pode retomar o brilho dos “velhos carnavais”. 

 

Contudo, o diretor de carnaval compartilha da opinião da presidente do Azulão do Morro: é preciso investir na formação de novos adeptos, apostando nas gerações futuras. “Temos de atrair as crianças para as escolas de samba, através de cursos e atividades variadas. Assim estarão longe das ruas e drogas”, salienta. 

 

Pelo lado da prefeitura, o próprio secretário da Cultura admite que não há um trabalho específico de divulgação regional da festa do samba bauruense. 

 

Elson Reis afirma, contudo, que trabalhos futuros voltados ao turismo poderão ser empreendidos, conforme a evolução gradual da qualidade técnica dos desfiles no sambódromo. Por enquanto, atribui, a divulgação ocorre, em maior grau, por parte da própria mídia local, com alcance regional. “A medida em que o Carnaval se fortalece, torna-se um produto turístico”, concorda. “Confirmado o crescimento, poderemos pensar em ações nesse cunho”, frisa.                

 

 

Do Corso ao ‘túmulo’

 

Nas primeiras décadas do século passado, o Carnaval da cidade tinha como epicentro da folia a região da rua Batista de Carvalho e avenida Rodrigues Alves. Nessa área, era comum a concentração de foliões nos carros, numa verdadeira guerra de serpentina. Essa celebração, lembra o memorialista e jornalista Luciano Dias Pires, era denominada “Corso”. 

 

Em meados da década de 1930, os bailes de salão ganham maior força. Nas décadas seguintes, Bauru chega a acomodar quase uma dezena de festas simultâneas, tendo como expoentes os bailes dos clubes Paulista, dos Bancários, Country Clube, Bauru Tênis Clube (BTC), Bauru Atlético Clube (BAC), Esporte Clube Noroeste, Associação Luso Brasileira de Bauru, Sociedade Hípica, Nipo-Brasileiro,  entre outros. 

 

O desfile carnavalesco que já atraia multidões à Rodrigues Alves, com as primeiras escolas “Caré” e “Pedro de Campos”, procedidos pela “Camisa 10”, migrou para a avenida Nações Unidas na década de 1980, quando o Carnaval de Bauru chegou ao seu ápice em termos de público e reconhecimento. A festa da cidade foi tida como a terceira maior do Estado. 

 

As arquibancadas de estrutura tubular 

deram lugar ao sambódromo, construído no Núcleo Geisel, durante a administração do prefeito Antônio Izzo Filho. Erguida em 1990, a avenida do samba de Bauru foi a segunda do País, concluída antes mesmo do sambódromo do Anhembi, em São Paulo. 

 

Em 2001, época em que a cidade era palco de crise política e econômica, os desfiles deixaram de ser realizados. O sambódromo, então chamado por muitos de “túmulo do samba”, permaneceu praticamente ocioso na década passada, cedendo espaço para competições automobilísticas ou feiras. 

 

Após uma tímida retomada do Carnaval de Bauru em 2010, a passarela voltou a abrigar desfiles de competição ano passado, com a Azulão do Morro sagrando-se a primeira campeã da nova era da festa na cidade.

 

 

Espontaneidade é o combustível

 

Para de fato se consolidar novamente como um dos melhores carnavais do Estado, a festa de Bauru, na visão do estudioso do Carnaval Antônio Válter Ribeiro de Barros Júnior. 

 

Professor de Artes, Literatura e Cultura da Universidade do Sagrado Coração (USC) e integrante do Conselho Municipal da Cultura, o acadêmico diz ver com bons olhos a retomada dos grandes carnavais bauruenses. 

 

Porém, independentemente aos aditivos financeiros – de acordo com a Secretaria Municipal da Cultura cada escola de samba recebeu, para o desfile deste ano, um aporte de R$ 25 mil – quem faz o Carnaval são as pessoas e de maneira espontânea. 

 

“É preciso investir sim e não acho que seja um dinheiro desperdiçado. É Necessário. Mas, de forma geral, imagina-se que o Carnaval tenha que acontecer de ‘cima para baixo’, quando, na realidade, é justamente o contrário”, analisa. “O Carnaval é espontaneidade, independentemente ao estímulo”, comenta. 

 

Sobre o desfile, o acadêmico destaca a edição do ano passado como o pontapé inicial do retorno à magnitude que o evento já ostentou até o início da década passada. “Fiquei impressionado com a quantidade de pessoas. Tem tudo para dar certo”, confia.

 

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