Articulistas

O fim do Carnaval

Marcondes Serotini
| Tempo de leitura: 3 min

Dava desespero quando a banda entoava o frevo "Vassourinha", anunciando que aquele bloco de músicas estava por acabar. Como o frevo estava no fim, pelo menos naquele momento, a loucura era imperativa para que rodássemos o salão, aproveitando os últimos segundos de folia. Isto porque não sabíamos o que fazer no intervalo. Éramos crianças a fim de jogar confete e serpentina nos amigos e nas meninas. Ficar parado não estava no programa e nem água dava vontade de tomar. O envolvimento era total, ainda mais quando formamos uma escola de samba, com desfile no Carnaval de rua da cidade, onde todos participavam compulsoriamente, sem pestanejar. O ritmo do salão dependia da banda. Quando era hora de Máscara Negra, a Estrela Dalva, arrastávamos o pé com calma, para depois explodir de alegria guiados por um frevo ou pela marchinha de sucesso daquele ano, que podia ser do Sílvio Santos ou do Chacrinha. Minha geração ainda conseguiu ver algumas marchinhas nascerem para sempre, que é o que acontece com marchinhas de carnaval que "colam".

Com o tempo, os sambas-enredo ganharam espaço, os mais velhos foram se retirando dos carnavais junto com os ranchos e marchinhas, para que o samba-reggae, o axé e os modismos finalmente encham o salão de ritmo, balanço e juventude.

Isso não significa que o Carnaval acabou, só porque a velha-guarda se retirou um pouco da folia. Assim como o samba, cujo velório foi adiado várias vezes - sine die -, o formato do Carnaval varia como os tempos, como as evoluções irreversíveis e maciças, que não perguntam se pode ou não, nem pedem passagem, como um cordão, um bloco ou uma escola de samba. Se é o mercado e não as rádios que comandam as ações, isto é sinal dos tempos e do capitalismo de mercado voraz. Assim como sabemos que a profissionalização dos desfiles da Sapucaí, sambódromo e apoteoses são exigências e fruto da influência polarizante das redes de TV, que fazem deste produto um filão polpudo para seus patrocínios e receitas. O que falar do futebol então? Perderam a magia o Carnaval e o futebol? Claro que não. O samba se esqueceu de Nélson Cavaquinho ou de Cartola? Nunca. Pelo contrário. Acho que grandes notas estão sendo levadas a público sobre os pais do samba e dos fundadores daquilo que existe hoje. Assim como o movimento ecológico não tem mais volta, porque não se concebe atirar uma embalagem ou lixo na rua pela janela de um carro, como acontecia há bem pouco tempo.

Talvez uma corrente que valorize os carnavais e atualize o conhecimento de seus mecanismos desde o começo, para as novas gerações, esteja em franco desenvolvimento. Esta novidade, que teria como substrato das épocas de ouro, das bem anteriores às mais recentes, faria uma nova revolução no Carnaval de todos nós, para que quando o frevo Vassourinha surgisse do trombone louco de um maestro habilidoso, nossa vontade de que o Carnaval não se acabasse naquele momento, voltasse a pleno vapor, colocando pilha em nossas pernas, que sambariam e pulariam até a última nota. Porque o fim do Carnaval é esse: um sempre penúltimo e derradeiro frevo, que nos chama para o próximo reinado de Momo, com um pequeno intervalo de um ano, que passa rápido.


O autor, Marcondes Serotini, é colaborar do Opinião

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