Em matéria publicada, no Jornal da Cidade, no dia 12 de fevereiro, intitulada Profissões "servis" tendem a decair, a jornalista Ana Paula Pessoto descreveu as mudanças substanciais, nos direitos trabalhistas, adquiridos por trabalhadores braçais e empregadas domésticas nas últimas décadas. Tais mudanças, segundo a matéria, apontam um sumiço desses profissionais do mercado, o que já causa filas de espera por empregadas domésticas, por exemplo. Algumas análises podem ser aplicadas para melhor entender esse fenômeno social. De início, podemos considerar que as maiores qualificações profissionais e educacionais têm contribuído significativamente nessa mudança das relações de trabalho. A lógica de mercado, da melhor qualificação que resulta em melhores oportunidades, sem dúvida insere mão de obra antes veiculada ao subemprego ou a prestadores de serviço, a um patamar profissional diferenciado nas empresas.
No entanto, um olhar mais aproximado nos oferece outra percepção ao fenômeno, no qual a grande mola propulsora dessas mudanças parece ser ideológica. Desde o início do século 20, novas linhas de pensamento humanista surgiram e recolocaram a questão da importância e do papel do indivíduo no meio social. Correntes como o existencialismo, o estruturalismo e a psicanálise se debruçaram sobre a questão do "sujeito", tentando melhor entender a existência e o valor do homem.
O resultado foi o desenvolvimento da ideia de que todos somos iguais enquanto pessoas e que num mundo marcado por tanta ciência e tecnologia, novas relações, pautadas pelo humanismo, deveriam ser aplicadas ao mundo do trabalho, da família, da saúde, da educação e da política. Nesse sentido, punições físicas aplicadas aos encarcerados, até o final do século 19, são gradativamente, substituídas por medidas sócio-educativas e de ressocialização, por exemplo. Houve então, uma reorganização no conceito de "sujeito", visto agora, como possuidor individualidade e singularidades que são invioláveis e que devem ser preservadas e garantidas pelo Estado. O resultado foi uma maior humanização nas relações sociais, tornando intolerável algumas práticas anteriormente aceitas, mas agora vistas como barbárie.
O efeito disso no mundo do trabalho foi o surgimento de sindicatos e associações de trabalhadores que de forma política buscaram humanizar as relações de produção. Os trabalhos insalubres ou servis foram denunciados e vistos como uma afronta à dignidade humana e aos direitos do indivíduo. Essa maior humanização nas relações de trabalho é o que levará ofícios antes comuns a um novo patamar de existência. Observe que trocamos o tratamento àqueles que fazem os trabalhos domésticos, dizemos, "secretária do lar" ao invés de "empregada doméstica".
O conceito que subjaz a esse tratamento é o humanismo, que evoca para si a preocupação de mostrar que todos somos iguais. Óbvio que análise mais aproximada mostrará que as relações de poder e a leis do mercado ainda oprimem o sujeito em várias esferas sociais, mas não podemos ignorar essa tendência à humanização das relações. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), as Constituições de cada país e a própria Declaração Universal dos Direitos do Homem são os resultados efetivos dessas correntes de pensamento. O maior entendimento do homem e de sua subjetividade não nos permite tolerar a "coisificação" da pessoa e sua redução ao nada. Esse pressuposto humanista parece ser o imperativo nuclear que firma o discurso dos sindicatos, dos partidos políticos, da educação e da justiça na defesa e seguridade do trabalhador.
O autor, Fausi dos Santos, é filósofo e professor de ética e profissionalização do magistério no Iesb-Preve. Docente em ciências sociais e humanas pela FIB e pesquisador de linguística e análise do discurso pela Unifran-SP