Turismo

Chapada Diamantina

Eliane Barbosa
| Tempo de leitura: 9 min


Na hora de comer

Os hotéis e pousadas oferecem lanches de trilha preparados com muito capricho, com dieta equilibrada para as atividades físicas. Sanduiche natural, farofa de carne de sol, água mineral, suco, barra de cereais, frutas e bolo quase sempre compõem a merenda. Nas pousadas, com o friozinho da manhã no pé da serra, o café normalmente é servido na cozinha mesmo. Entre as várias opções do que comer, você encontra no fogão a lenha, quentinha, mungunzá ? canjica -, e macaxeira ? mandioca. As outras refeições também podem ser feitas onde você estiver hospedado, ou ainda nas inúmeras opções de restaurantes e bares. Nesta hora, sempre preferimos locais onde podemos experimentar especialidades da culinária típica da região como a batata da serra, o godó, o cortado de mamão verde. Os sorvetes da Chapada também são ótimos, os de tapioca e mangaba são muito bons. Ah, ... e os chás deliciosos são relaxantes e revigorantes, para rebater o frio da noite e as águas geladas dos banhos de cachoeira.

Chá responso e o Godó

Um deles, chamado lá de chá responso, pelo que nos foi dito, é uma mistura de tudo que se possa imaginar: limão, pinga, mel (calma não é uma caipirinha), canela, cravo, e um monte coisas mais. "Fooorte" e bota forte nisso, mas um santo remédio para uma boa noite de sono e espantar aqueles sintomas de gripe.

O godó é o prato mais famoso. É um cortado de banana verde com carne de sol em pedaços. Como é trabalhoso, o ideal é agendar antes no restaurante. Assim, quando você chegar já vai estar pronto. Tivemos a sorte de saborear nosso primeiro godó acompanhado de batata da serra colhida na hora, ali no quintal, fresquinha. Que delícia!!! Também pudemos nos servir de outras iguarias do sertão baiano como a salada de xiquexique e palma refogada - no prato os cactos espinhosos são muito bons... peculiaridades da região.

Rio Serrano

Bem pertinho da cidade de Lençóis é possível fazer um passeio bem interessante. É possível caminhar até o rio Serrano antes de ele cortar a cidade de Lençóis. As águas do rio correm pelo lajeado em declive, que com a época da seca, forma poços escavados na pedra que divertem quem quer se refrescar. De pertinho, é muito interessante ver o lajeado tipo conglomerado, todo colorido, desgastado pela força das águas, liso como sabão. Seguindo a caminhada você vai chegar ao salão de areias coloridas formado pela erosão de rochas e conglomerado de arenito. A caverna possui paredes formadas por areias de várias cores usadas pelos artesões locais. E foi cenário de abertura de novela da Rede Globo. Dali, depois de cruzar o rio Lençóis, você segue para a Cachoeirinha, um lugar delicioso, onde um poço de águas cristalinas faz um bom convite para banho. Depois de andar mais um pouquinho você chega a Cachoeira da Primavera, que mais parece uma ducha, e desagua no Rio Lençóis. A parte final do trajeto é de subida até a Pedra do Mirante onde se tem a vista panorâmica da aconchegante cidade de Lençóis.

Cachoeira do Pai Inácio

A trilha para a cachoeira começa no sopé do Morro do Pai Inácio, cerca de uma hora de caminhada dali. Ela fica entre o vale do Morro do Pai Inácio e a Serra dos Brejões. Diz a lenda que o local era ponto de encontro do Pai Inácio ? um negro escravo ?, e a sinhá por quem se apaixonou - filha de um dos grandes coronéis do local. Explorando o local, caminhando sobre as pedras, você consegue chegar atrás da cortina d`água da cachoeira. O banho no local foi emoção pra valer! De acordo com o guia, água entre 13 e 15 graus. Nas trilhas e banhos de cachoeira da Chapada uma combinação de temperaturas avessas: frio serrano à noite, garoa nas manhãs, passeios sob sol quente, e banhos em águas muito geladas. Os peixinhos pequeninos do lugar são muito enturmados. Quando você entra na água eles te acompanham e beliscam as bolinhas de ar formadas e prezas junto ao corpo e as pintas que você possui. Chegam a fazer cócegas.

Morro do Pai Inácio

A 1.120 metros de altitude é um dos pontos turísticos imperdíveis da Chapada, no município de Palmeiras, há 34 quilômetros de Lençóis. A subida do morro é feita com guias em etapas. As paradas são obrigatórias para apreciar tanta beleza. Faz parte do trabalho do guia contar e alguns até encenam a lenda do Pai Inácio. Nosso guia Léo, conta que tratava-se de um escravo que se apaixonou pela filha de um coronel e mantinha encontros com ela em uma cachoeira próxima dali. Descoberto foi perseguido por jagunços até o topo do morro, de onde saltou com a sombrinha da amada, e sem que pudessem ver escapou da prisão e morte alcançando um avanço da grande estrutura de pedra, tapeando os jagunços, escapando e conseguindo fugir com seu amor.

As lendas e as visões?

O curioso de tudo isso é que o guia pede para você se sentar em uma pedra enquanto narra e dramatiza de forma brilhante a lenda. Fique atento para a grande surpresa no final. A lenda ganha mais força ainda com o capricho da natureza em esculpir no alto do morro, na pedra, um grande coração, chamado de coração do Pai Inácio, onde uma foto tendo ao fundo a serra do Sincorá, com seus enormes paredões e o Morro do Camelo não pode faltar. A visão é de quase perder o fôlego, deslumbrante!


Espelhos d?Água e mais surpresas

E dá para acreditar, consegue ficar ainda melhor com o pôr-do-sol. A paisagem gigante ganha outros tons, em uma escala de cores que impressiona, com a colaboração de espelhos d´água que se formam na rocha, e os bosques de orquídeas, bromélias, canelas de ema e candombás. É impossível ficar penteado e ajeitado para uma foto. A força do vento não permite. E se todo mundo ficar quietinho, você só vai ouvir o barulho do vento, dos pássaros, dos lagartinhos se movendo, das folhas e galhos sendo açoitados pelo vento, e dos seus dentes batendo se você não estiver bem agasalhado.

Lá no alto uma cruz assinala a conquista do lugar e é referência para admirar, a sua direita, outro cartão postal da Chapada visto de cima ? os morros Três Irmãos ? o último deles é o Morrão com 1.418 metros de altitude. Tudo é gigantesco, e todo lugar reserva uma surpresa. Lá temos a dimensão do quanto somos pequenos no mundo e a certeza de que Deus existe. Aliás, nosso guia afirmou que ele não só existe, mas que passa suas férias lá. Eta mundão!!!

Trilhas: orquídias e bromélias

Trilha do Pai Inácio

Com cerca de 22 quilômetros, tem início no sopé do Morro Pai Inácio, próximo aos morros Três Irmãos e Bacia, e ruma a Lençóis. É uma trilha centenária, também conhecida por Estrada Real. Caminho aberto pelos negros escravos para a passagem de mulas e burros que transportavam mantimentos e outros gêneros para o garimpo e traziam diamantes, a riqueza da região.Durante a trilha você tem paisagens maravilhosas das serras e morros que se encontram nessa região, a diversidade de orquídeas e bromélias, espécies de inúmeras cores e formas encantam. Também é possível ver de pertinho os imensos muros de pedras que substituem cercas, beber água da nascente, parar na trilha para esperar o lagartinho passar, sentir as dificuldades enfrentadas por aqueles que viveram e fizeram parte do garimpo que escoava sua produção por ali.No caminho você sente o cheiro da mata, o calor do sol, a umidade da garoa fina que torna o trecho mais fácil. O barulho é o do vento, das folhas e galhos que balançam, da água que brota nas baixadas e escorre sobre as pedras, das pisadas no chão molhado e sobre as pedras, dos pássaros que cantam, e das sementes que chacoalham nas árvores.Você vai passar pelo povoado do Barro Branco, e continuando vai chegar ao Rio Mandasalha, um ótimo lugar para uma parada para o lanche. É, na longa caminhada, após subir e descer em pedras escorregadias, você vai querer uma pausa. E desse jeito... ar puro da fome.

Seguindo o caminho, há lugares que parecem que foram esculpidos, outros jardinados, outros que ninguém nunca esteve ali. E aí você pensa nas histórias da Chapada, nos personagens do lugar, nos espíritos que habitaram aquela região, e em você naquele lugar.

Grutas e águas cristalinas

Gruta da Lapa Doce

Fica no município de Iraquara. O passeio só pode ser feito com agendamento e o acompanhamento de guia. Para chegar até ela é necessário descer uma escada que já se encarrega de fazer o aquecimento, e aí você chega na entrada da gruta e se surpreende com a grandiosidade. Ela faz parte de um grande complexo e o passeio é permitido apenas em 850 metros, percurso feito em cerca de 2 horas. Com a ajuda de um lampião e de lanternas é possível observar o local, ter a oportunidade de conhecer formações minerais - espeleotemas - diversos, que se assemelham a presépios, anjos, lustres, altares, uma infinidade de formas incríveis. No percurso há uma pausa para ouvir a gruta. Quando seus olhos já se acostumaram com pouca luz, as lanternas e o lampião são desligados. Sentados em rochas, de olhos abertos a escuridão é total. Ouvimos em silêncio em princípio, apenas nossa respiração, depois a respiração de quem está ao nosso lado, e depois ainda, o gotejamento nas formações na gruta. Pingos e mais pingos, se precipitam em diferentes volumes de sons, obedecendo o ritmo da natureza. Uma experiência interessante!


Cavernas da região

Mesmo com o percurso sendo feito com o acompanhamento de guia, da gruta ser ampla, bem arejada e com pouco desnível a sensação de se ver ao longe a claridade indicando que a saída está próxima é muito boa. Para quem gosta de espeleologia a gruta é só um aperitivo já que a região concentra centenas de cavernas.

wGruta da Pratinha e Gruta Azul ? Na gruta da Pratinha a água é azul turquesa. Você pode optar pelo banho nas águas cristalinas do rio Santo Antônio e ainda pela flutuação que é feita na gruta. O acesso é feito por meio de um rio que aflora, com acompanhamento de guia e equipamento de mergulho ? incluindo lanterna. O percurso é de cerca de 340 metros. A maior parte dele é feito no escuro. A medida que se avança para dentro da gruta, se observa nos diferentes salões a diversidade de espeleotemas, peixes debaixo d´água, os morcegos incomodados com a nossa presença e a luz das lanternas. Os guias fazem o percurso de caiaque ou bote, com grupos de cerca de oito pessoas. Lá também fazem uma pausa para ouvir a gruta. Durante a flutuação todas as lanternas são desligadas e em silêncio observamos e ouvimos apenas nossa respiração, o barulho da água vencendo as pedras, das asas dos morcegos, de gotejamento, e dos nossos corações que parecem bater em ritmo de escola de samba diante da nova experiência.

O fundo da gruta e do rio é coberto de pequenas conchinhas brancas, o que de acordo com nossos guias é uma prova de que a Chapada Diamantina já foi fundo de mar.

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