Apesar do tumulto na apuração do Carnaval de São Paulo, o bauruense Manoel Rosendo Pereira, de 49 anos, considera a experiência de avaliar 22 escolas de samba da Capital paulista um tanto enriquecedora. O radialista e servidor municipal da Secretaria Municipal de Saúde, nascido em Bauru e também morador daqui, esteve em São Paulo enfrentando uma maratona de provas e cursos para atuar como jurado. Ele foi o avaliador responsável por aferir notas ao quesito “evolução”, entre um total de 27 julgadores. Já de volta, o radialista contou ao Jornal da Cidade como ocorreu sua participação.
Fã de Carnaval, Manoel começou a ter contato ainda bem jovem com a folia através da escola Mocidade Independente da Vila Falcão, na década de 7
, época em que a agremiação nascia na cidade. “Eu saía como ritmista com a Mocidade. Meu irmão, o Antonio Carlos, o ‘Careca’, integrava o grupo que ajudou a fundar a Mocidade em Bauru”, recorda.
A partir daí, o bauruense relata que começou a se envolver com outros eventos culturais. “Como jurado de Carnaval, é a primeira experiência. Já fui julgador em eventos como rodeios e desfiles de moda e beleza, festas juninas etc”, diz Manoel, que morou por mais de dez anos em São Paulo, onde chegou a comandar o programa “Samba e Companhia”, da Rádio Boa Nova. O esporte também fez parte da vida do radialista, que realizou alguns trabalhos como comentarista de jogos de futebol.
Mas a oportunidade de atuar como jurado de Carnaval surgiu a partir do concurso público promovido pela Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo para o Carnaval deste ano. O desfile ocorreu no Sambódromo do Anhembi, nos últimos dias 17, 18 e 19 deste mês.
Para ser escolhido, Manoel conta que teve que passar por uma maratona de etapas eliminatórias, treinamentos e provas, três meses antes do Carnaval começar. “Foi através desse concurso que voltei a atuar com Carnaval”, afirmou.
Manoel concorreu com pessoas do Brasil todo. De 25
candidatos, restaram apenas 36, entre eles, o bauruense. “Eram 25
candidatos e cada vez essa quantidade ia diminuindo. De 25
, ficaram 68 aprovados e, após uma última filtragem, ficaram 36 pessoas, sendo 27 avaliadores e nove suplentes”, explicou.
Depois de passar por todas as etapas eliminatórias, Manoel foi submetido a treinamentos especializados. “Tivemos cursos com um pessoal que atua em escola de samba e que conhece profundamente o Carnaval. Foi uma bagagem enorme”, frisou.
Profissional
Manoel conta que o objetivo do concurso promovido este ano pela Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo foi profissionalizar a avaliação do Carnaval, tornando-a mais objetiva possível. “A Liga, que tem convênio com outros órgãos públicos, decidiu este ano promover um concurso, quiseram profissionalizar o julgamento, estabelecer parâmetros de avaliação. Houve até manual com regras de julgamento”, relatou o jurado.
As mais de 2
escolas concorrentes (14 do grupo especial e oito do grupo de acesso) passaram pelo crivo de Manuel Rosendo no quesito de evolução. “Quando se avalia a evolução, temos que examinar todo o conjunto da escola, se cada componente está cumprindo seu papel no desfile. É avaliado se todos estão empolgados, vibrando com a escola. A escola tem que formar uma comunidade”, frisou o avaliador.
Manoel diz que a responsabilidade de julgar um dos desfiles mais importantes do País é imensa. “Foi uma experiência enriquecedora, que ao mesmo tempo exigiu um enorme senso de responsabilidade. O jurado vai avaliar o trabalho de toda uma comunidade em poucos minutos. É uma responsabilidade impressionante”, comenta.
Além da maratona de treinamentos e cursos que enfrentou para garantir um julgamento de qualidade, Manoel conta que o grupo avaliador não recebeu nenhum tipo de influência. “Antes do Carnaval, ficamos isolados para que não tivéssemos nenhum tipo de influência de fora”, afirmou.
A previsão é de que o bauruense faça parte novamente da comissão julgadora do Carnaval de São Paulo nos próximos anos. “Pelo que sei, o concurso valeria por três anos. Os aprovados continuariam no cadastro da Liga e nos próximos dois anos seguintes esse grupo cadastrado seria chamado novamente”.
“Tumulto foi causado por um grupo descontente”
Como divulgado nos principais veículos de comunicação, a apuração do Carnaval de São Paulo foi marcada por uma confusão promovida por integrantes de escolas de samba. Em virtude do tumulto, a apuração precisou ser interrompida. O triste desfecho ocorreu na última terça-feira, dia 21.
Faltando apenas uma nota dez para assegurar o título à Mocidade Alegre, um membro de outra agremiação invadiu a área de apuração, tomou o último envelope das mãos do leitor e o rasgou. Um carro alegórico da Pérola Negra chegou a ser incendiado.
O bauruense Manoel Rosendo, que avaliou o item de evolução das escolas, lamentou a ocorrência. “Um grupo descontente se manifestou de forma mais agressiva e não podemos falar nada. Nós, jurados, também não temos que temer nada, pois nós seguimos um manual para atribuir as notas e não tivemos influências de fora”, disse.
“Uma escola passa o ano todo trabalhando, produzindo. Aí chega um grupo minoritário que não está contente e faz este tumulto. Mas sempre vai haver alguém contrário à maioria. Contudo, esse desfecho se tornou algo muito ruim para o Carnaval de São Paulo, que está se tornando um dos melhores do País”, acrescentou o bauruense, que ainda comentou que não se sente afetado pela confusão. “Isso não me desanimou. Pelo contrário, me sinto estimulado a participar do Carnaval como jurado nas próximas vezes”, concluiu.